Café com amor

 No Centro de Saúde onde trabalho, as pessoas começaram a sentir diferença no gosto do café. Antes ele vinha rançoso, azedo, mal passado, mal digerido. Com as férias da funcionária responsável pelo café, ele passou a vir gostoso, no ponto certo entre forte e não tão forte, quentinho, saboroso.
 Conversando na cozinha sobre o novo sabor do cafezinho de todas as tardes, alguém cogitou a hipótese: "o café dela é ruim porque faz com raiva".

 Embora haja controvérsias, há razão nisso. Porque não há café coado no mundo que carregue sabor se não houver amor. 

 As coisas aspiram uma existência afetuosa, e somos os responsáveis por deixar o mundo com mais amor.

 É comum dizermos que algo "não desce". Aquele café não desce, aquela pessoa não desce, aquela comida não desce, aquele trabalho não desce. Talvez o ingrediente sobressalente em tudo isso seja a raiva. Talvez falte amor. O amor que vem

Se o tempo voltasse

 Existe um ditado que diz: "O que não tem remédio, remediado está". Essa frase serve tanto pra gente se conformar com a realidade (que nem sempre é a que desejamos) quanto para entendermos que o tempo não volta, que o que aconteceu não deixará de acontecer, e que arrependimentos ajudam a construir uma existência mais certeira daqui pra frente.

 Alguns acontecimentos nos colocam em xeque mate, e enquanto puxamos o freio de mão da vida que corre acelerada, é possível que questionemos o destino final com o descuido próprio dos viajantes sem direção.

 De vez em quando revemos nossas vidas e paramos para pensar nas escolhas que fizemos até o momento. Fica sempre a pergunta: Se o tempo voltasse, eu faria outras escolhas? Teria tomado outro caminho? Ou será que "não somos donos, mas simples convidados"? _ Como disse Mia Couto?

 Será que os desfechos de nossas histórias almejam um destino pré traçado, ou são escritos conforme

Fugidinhas

 De vez em quando escapo da atmosfera da minha própria vida. Fujo sorrateira para tempos onde já estive ou ouso inventar. De vez em quando sumo da minha realidade para viver outros mundos.

 Parece loucura, mas faz parte do processo de existir permitir que fantasias se somem à nossa realidade como parte do que somos também. Talvez isso nos torne pessoas menos enrijecidas, mais suaves e felizes.

 Alguns dias são mais puxados que outros. Aquela segunda feira, que desperta amarga e confirma que a semana não trará ventos de simplicidade, também pode ser invadida, se você permitir, por pensamentos soltos, sonhos de felicidade, desejos de superficialidade.

 Eu preciso pensar no oceano azul esverdeado das últimas férias enquanto instrumento o canal atrésico do meu paciente _ é a única forma de não perder o bom humor diante da árdua tarefa que tenho à minha frente.

 Também gosto de saber da fofoca envolvendo Ben Affeck, a babá e Tom Brady; porque,

Quem tem medo de seus fantasmas?

 Outro dia, numa rede social, li a frase do jornalista Carlos Heitor Cony:
"Tenho meus fantasmas, e os amo. 
 Não quero destruí-los. 
 No dia em que me tirarem os fantasmas, não serei nada" 

 Não pude deixar de pensar naquilo que indiretamente atua para que sejamos quem somos. Nas vidas não vividas que se somam dentro de nós, nas frustrações, desejos e desistências que também fazem parte de nossa realidade.

 De vez em quando somos obrigados a nos render. A abraçar nossos fantasmas e encará-los olhos nos olhos com compaixão, permitindo que permaneçam dentro de nós. Sem medo de que nos roubem a alegria, mas aceitando-os como parte do todo também.

 Somos a soma das alegrias que vivenciamos e das