Números

 Outro dia, relendo "O Pequeno Príncipe" para meu menino, estacionei numa passagem.

 Assim dizia: "As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: 'Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que preferem? Será que ele coleciona borboletas?' Mas perguntam: 'Qual a sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?' Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dissermos às pessoas grandes: 'Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado...' elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: 'Vi uma casa de seiscentos contos'. Então elas exclamam: 'Que beleza!'"

É sempre o agora

 Alguns enredos comovem pela simplicidade. Por andarem lado a lado com a existência, dando significado àquilo que poderia ser retratado como um acontecimento banal. Por falar de nós a nós mesmos, decifrando com sensibilidade o que vivemos e sentimos rotineiramente, traduzindo em sons e imagens aquilo de que é feita a vida _ uma sequência de acertos, desacertos e desafios que experimentamos diariamente _ modulados pela inexorável passagem do tempo.

 Um pouco atrasada, assisti ao filme "Boyhood _ Da infância à juventude" durante o carnaval. Não falaria do filme aqui se não tivesse sido completamente arrebatada por sua simplicidade. E apesar das inúmeras publicações, resenhas e críticas ao filme, ainda assim senti-me impulsionada a deixar minha impressão.

O melhor e o pior

 Todas as noites, ao colocar meu menino para dormir, começam nossas conversas mais profundas. Entre as costumeiras confissões, invariavelmente a pergunta "O melhor e o pior do dia?" nos coloca a refletir sobre o bom e o ruim de nossos passos, escolhas e desafios até o momento presente.
 Não sei se isso foi invenção nossa ou me inspirei num filme antigo, "História de nós dois", em que a mesma pergunta acontecia na mesa da família e depois viria a unir os personagens centrais.

 O fato é que descobrimos que um mesmo dia pode carregar lados distintos, emoções contraditórias e períodos de alternância entre o melhor e o pior dos fatos e de nós mesmos.

 Semana passada, na Folha Ilustrada, uma matéria com Nathalie Edenburg colocava em foco um novo projeto da modelo, que atualmente trabalha na arte de colorir fotografias de seu rosto, colocando cores, sombras e nuances de acordo com o humor de cada dia. O resultado é surpreendente, ao revelar faces distintas, cada uma com sua beleza e peculiaridade, um caleidoscópio de identidades.