"Alguma coisa acontece no meu coração..."


 Não me lembro a primeira vez que ouvi "Sampa", mas a memória insiste em trazer de volta uma noite em Alfenas, quando "Pan- Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba mais possível novo quilombo de Zumbi" foi recitada, sem deslizes, nos meus ouvidos por um dos colegas da faculdade, e embora nunca tenha cruzado a Ipiranga com a Avenida São João, o último feriado me trouxe a Paulista, com sua arquitetura e cultura, seus encantos e recantos.

 Enquanto Bernardo tem provas sobre a origem da cidade de São Paulo, e me ensina o papel dos jesuítas na fundação do Colégio São Paulo de Piratininga, constato admirada que embora meu filho tenha raízes mineiras, é no estado de São Paulo que ele cresce, aprende, se desenvolve e me ajuda a conhecer a história do lugar que acolheu não só a mim, mas também meus dois irmãos e por último minha mãe.

 Tenho preguiça de trânsito em feriado. Por isso, no fim de semana estendido com o dia de Tiradentes embarcamos para Sampa _ pertinho, cheia de novidades, cultura, arte, livrarias, restaurantes, hotel... casa do meu irmão e rua da minha avó.

 Sentada no chão da livraria Cultura, ao lado de meus dois meninos, cada qual com seu livro, deixei as lágrimas rolarem enquanto um texto, aberto despretensiosamente, me arrebatava e comovia. O livro foi fisgado ao acaso, mas de repente me fez perceber que minhas folhas há tempos não trazem espaços em branco; ao contrário, hoje carrego mais bagagem que linhas por escrever.

 A gente se esquece em que ponto de nós mesmos deixamos de ser um tanto do que éramos para adquirir os modos de quem nos tornamos.


 Esse foi o feriado em que, pela primeira vez, meu filho sentiu-se completamente em casa dentro de uma livraria. E enquanto lia concentrado o segundo volume da saga de J.K. Rowling, eu entendia que a vida não precisa ser narrada da mesma forma, repetidamente, para que adquira algum sentido; que eu posso ajudar a criar um recanto de boas lembranças para o Bernardo longe das ruas de paralelepípedos em que cresci, além dos quintais de chão de cimento e pique esconde atrás de um banco de jardim.

 Revisito meus conceitos de felicidade e simplicidade e dou boas vindas ao novo tempo que insiste em revelar a poesia concreta dos muros da cidade grande, que também tem arte no MASP, vista deslumbrante no Terraço Itália e tapete cheio de livros no Conjunto Nacional.

 A gente não precisa achar que só pode ser feliz repetindo velhos hábitos. Ouvindo as mesmas músicas, se emocionando com os mesmos filmes, admirando os mesmos atores, atravessando as mesmas ruas, tendo saudade das mesmas pessoas, querendo que os filhos sejam felizes nos mesmos quintais, escalando as mesmas árvores.

 Gosto de tradições e diversas vezes caí na armadilha do romantismo que permeia o saudosismo, mas perpetuar os costumes não garante a felicidade, simplesmente porque o tempo modifica tudo.

 Em São Paulo comemorei mais um ano. Ao retornar a Campinas, algo em mim estava diferente. Não somente pela novidade e mudança de ares, mas por compreender que a vida tem cumprido seu papel transformador.
 Por constatar que jamais me desligarei de minha mineirice, de fala arrastada e gestos contidos, mas que aos poucos torna-se necessário assumir a pessoa que me tornei, ocupando o lugar que me foi reservado, encontrando sentido no ar que respiro e no caminho que sigo, descobrindo a mim mesma neste novo universo que me cerca.

 Ainda escuto Sampa numa noite em Alfenas. Mas me dei conta que foi aqui, longe daquela noite, que tenho concretizado o que sempre desejei ser de verdade. Aos quarenta e um, casada com um grande homem, vivendo em terras paulistas e mãe de um rebento que me ensina dia a dia que não preciso recontar minha infância para ele ser feliz.
 Que ele pode andar de bicicleta nas ruas do condomínio e subir em árvores no sítio do avô; mas ainda que falte café com leite e biscoitão da padaria, permanecerão nele as lembranças de uma casa com escadas gigantes e 'abraço de nós três' ao cair da noite...

                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

 *Imagem: Reproducão da web











7 comentários :

  1. Muito bom Fabíola Simõe! Incrível como manda bem, espero todos os dias seus post no Instagram de novo texto e compartilho algumas parte deles ou eles inteiros com outras pessoas que se encantam pelas suas palavras.
    Parabéns!!

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    1. Obrigada pelo carinho, por comentar e por ajudar a espalhar as ideias do blog por aí! Muito feliz com seu carinho, bjs!

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    2. De nada!!
      Na verdade, obrigado você!!

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  2. Lágrimas por aqui. Só hoje consegui ler o texto. Lindas palavras! Ainda não fui a Sampa, mas já perdi o medo de todo aquele concreto de metrópole. Em breve iremos conhecer seus encantos, pois como você, é no Estado de São Paulo que estou reescrevendo minha historia, recomeçando a vida aos 43, trazendo os meus filhos para um lugar mais tranquilo e saudável. Mais uma vez me encontrei em sua poesia. Gratidão!

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    1. Querida Simone: Adoro receber seu retorno, já espero por ele! Que bom que de alguma forma consegui tocar sua emoção... Boa sorte em seu recomeço, junto de seus filhos! Grande beijo!

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  3. Myriam Zaroni Torres vargas28 de abril de 2015 20:15

    Foi com muito prazer que li seu texto sobre Sampa! Muito interessante como você costura as idéias a partir de um fato, trazendo suas questões e soluções para a diversidade dos ambientes e época em que vivemos. Leitura fácil e agradável! Parabéns! Agradeça sua mãe por ter enviado as fotos e o cartão com seu blog. A braços a todos.

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    1. Olá Myriam! Bem vinda! Não sabia dessas artes da minha mãe, rs, ela vive espalhando os cartões por aí... Obrigada pelo carinho e por comentar, fiquei feliz com sua presença! Bjs carinhosos!

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