Pipa e Candinha

 Em seu próximo filme, Gregório Duvivier vai dar nome e sobrenome aos seres que nos habitam. Tão presentes e contraditórios, mandões e passivos, escondidos ou escancarados, o ID e o superego serão representados pela dupla personalidade do personagem. Uma hora ele será o certinho Eduardo (superego); outra, o fanfarrão Duca (o ID).

 Se fosse possível opinar, diria que morro de raiva da engomadinha que vive dentro de mim. Com mãos na cintura e pés impacientes, precisa urgentemente de um botox no centro das têmporas e tratamento fonoaudiológico para o tom de suas cordas vocais.

 Durante muito tempo estremeci diante de seus botões hermeticamente fechados até o queixo e saia plissada abaixo do joelho. Feito garota interna, rigidamente educada por freiras, me comportei impecavelmente sem questionar seu domínio, muito menos ousando perguntar se aquela gola engomada não lhe causava claustrofobia. Claustrofóbica vivia eu, tentado ser livre com dona Cândida _ asseada _ dentro de mim.
 Mas tenho descoberto que dona Cândida não é tão poderosa assim. Se a gente souber levar, acaba percebendo que seus botões afrouxam, sua saia sobe e suas rugas de expressão ficam quase imperceptíveis.

 Dento de mim também vive Pipa, um ser tão livre e leve que sobe pelos ares feito pluma dente de leão que a gente sopra e deixa o vento conduzir.
 Pipa não conhece a tirania de dona Cândida. Ao contrario, acha ela um doce e diz que quem exagera sou eu; 'sua voz nem é tão grave assim'...  Pede para que eu alivie a diplomacia e chame-a pelo apelido carinhoso: Candinha. Por desconhecer a sombra de dona Cândida, Pipa consegue sorrir mais, dormir sem pesadelos e desabrochar seu gozo sem medo de ser feliz.

 Pipa não tenta me governar, quer que eu a descubra sozinha. E é verdade que de vez em quando ela vem à tona _ tão descontraída em sua rasteirinha deslizando pelo chão e seu clássico vestidinho de chita _ que não resisto e tomamos uma cervejinha juntas. Nessas horas, meu riso é mais leve; minhas frases, mais confiáveis; meu sono, mais profundo.

 Pipa divide uma beliche com Dona Asséptica. Mas a saia plissada da dona engomada cobre Pipa por inteiro, e por isso quase não lhe ouço a voz nem sinto sua presença. Mas quando durmo profundamente, ela vem me falar aos ouvidos. É certo que nem sempre lembro no dia seguinte, mas sei que ela me conhece mais do que eu mesma. Me diz que preciso me soltar, desabotoar a gola de dona Cândida e ensinar a ela seu lugar. Explicar que sua hora já passou. Foi bom, me orientou por algum tempo, mas agora preciso de mais Pipa e menos Candinha.

 Devagarzinho tenho tentado mudar as duas de lugar. Colocar dona Cândida pra dormir embaixo e Pipa pra dormir em cima. Não é justo que meu governo seja assim tão rígido. Quero mais Pipa em minha vida, me ensinando a voar, a ouvir mais minha intuição, a correr mais riscos, a viajar com menos bagagem.
 Quero aprender a ser conduzida por meus "nãos" também, pois o caminho da liberdade passa por restrições àquilo que não cabe em nossa nova etapa de vida. Que Pipa me ensine a liberdade dos vestidos florais e tiaras no cabelo, o descompromisso com o que não é necessário nem imprescindível, a autonomia que quero e devo ter em minhas escolhas.
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 Que as regras de dona Cândida sejam ouvidas na sua medida, me colocando no meu devido lugar sem me roubar de mim. Que ela ganhe fala mansa e contornos suaves, e não franza as sobrancelhas quando eu quiser voar. Que me permita ouvir a voz de Pipa, tão melodiosa e difícil de acessar; que me ajude a encontrar meus desejos e neles me enroscar.

 Dona Cândida já não parece tão felina. Era meu olhar que lhe conferia tanta tirania. Pra falar bem a verdade, tem mesmo cara de Candinha, assim, miudinha e faceira, feito espuletinha.

 A gente cresce e percebe que a casa não era tão grande assim, nós é que a enxergávamos enorme. Assim também percebemos que quem deu a medida para o medo, a angústia e a incapacidade de lidar com a própria liberdade fomos nós mesmos.
 E de repente, num dia qualquer, acordamos e percebemos que já podemos arcar com aquilo que julgávamos maior que nós mesmos.
 Não foram os abismos que diminuíram, mas nós que crescemos.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES


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