Um vento por dentro

 Esse ano, na foto oficial de Natal que tiramos na sala de casa, haviam vinte e oito sorrisos. É claro que cabiam muito mais, mas a família cresce, ramifica, se despede ou se renova ano a ano, igual à casa de todo mundo. Sentados à frente, cinco meninos com idades entre quatro e sete anos _ nossos furacõezinhos _ sorrindo.
 Na minha opinião _ e por mais que discordem de mim _ foram a graça do Natal.
 Um dos meus momentos mais especiais aconteceu ao lado dessa turminha. Reunida no quintal com esses garotinhos de calças curtas, tentando conter um pouco a euforia que se apoderava com mais força a cada instante, começamos um diálogo acerca do Papai Noel, que chegaria dali a pouco. Um dos meninos, que já esteve na Finlândia e conhecera o "Papai Noel verdadeiro", veio me contar que o nosso era bem diferente. Concordei com o rapazinho; antes porém, fui categórica: "o nosso pode até ser mais simples, mas arrepia mais..." Ele concordou. Continuei dizendo que na hora que sentissem um vento diferente, podia ser que chegava a hora. Foi então que ouvi a frase: "Eu já estou sentindo o vento. Mas é um vento por dentro..." _  era o mais velho falando. Em seguida, quase em coro, todos começaram a dizer: "Eu também sinto! Um vento por dentro!"... e correram.

 Naquela hora entendi. Enquanto alguns adultos se impacientavam com a hora de servir a ceia, preocupados com o tempo de cozimento do chester, com a quantidade de alimentos que inevitavelmente iria sobrar, ou se descabelavam diante do barulho das crianças (fazendo, eles mesmos, mais barulho que elas), cinco meninos sentiam um vento por dentro. Um vento que marcava a infância de cada um, trazendo a certeza de que aquela seria uma noite eterna.

 Então, sensibilizada por esse "vento por dentro", varri pra fora ausências, dores _ que senti ou testemunhei_, mágoas e irritações. Pedi a Deus que me ajude a ser menos esponja e mais espelho _ um espelho que reflete, e não toma pra si. Porque esse "vento por dentro" tem que preencher e não dar espaço pra tanta bobagem que se ouve e absorve por aí, pra tanta intolerância com o diferente, tanta falta de paciência com o incontrolável.

 A exemplo de Drummond, desejo um olhar novo. Um olhar novo para os dias indomáveis, para as saudades intransponíveis, para o desenrolar das horas normais. Que possamos encontrar alento na simplicidade, na possibilidade, na imperfeição. A vida tem sua própria personalidade; vai mudando tudo de lugar, mexendo aqui, reformando acolá... Sabedoria é aceitar esse humor variante que a existência tem, e tolerar tudo com paciência e jogo de cintura.

 Que em 2014 possamos sentir esse "vento por dentro" feito criança em noite de Natal. Que possamos nos encantar com as pequenas coisas, e a falta de tempo não abafe o que temos de melhor, que é esse sopro divino que nos habita e que poucas vezes nos permitimos sentir. Simplesmente sentir...

 FELIZ VENTO NOVO!!!!!

                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES


Laura

 Imagem: Tela de Léo Brito, pai da Laura. Link aqui


 Você chegou de manhã, recebi suas fotos pelo celular _ o mundo mudou tão depressa..._ e logo reconheci o nariz do seu pai_ ainda que nessas horas a gente insista em buscar algo familiar, mesmo que não seja óbvio.
 Você será comparada muitas vezes ainda, e espero que tolere com bom humor, faz parte do pacote essa necessidade que a gente tem de lembrar, se sentir perpetuado, ter orgulho da cria... e nessa euforia, erramos muito também, e eu torço pra que você saiba entender esse carinho, nem sempre fácil de aturar.

 Esse é o primeiro e maior de todos os seus começos. Seus pais estão começando também, e acho que não conseguirei mais esquecer a voz embargada de seu pai na noite do seu primeiro dia. Ele falava revelando a emoção e dizia que eu tinha razão, a sensação era incomparável. Do outro lado da linha me calei por não ter voz com que continuar. Aquele homem, do alto de seus trinta e tantos, descobria que a vida recomeçava. De um jeito novo, lindo, poderoso. E me lembrei dos dias difíceis que permearam sua vida adulta, dos outros começos que ele enfrentou que não foram tão bons assim; mas ainda assim, começos.

 Então Laura, o que eu quero dizer é que a vida não é uma jornada que começa agora e termina lá na frente. Ao contrário, vai começando, finalizando, recomeçando, terminando... inúmeras vezes, mais do que ousamos suportar; mas uma hora você descobrirá que o que faz cada um ter uma boa vida é saber tirar de letra essas viradas de página que acontecem de forma planejada ou não _ na maioria das vezes sem pedir licença, chegando e nos desorientando por algum tempo, mas depois permitindo que a gente descubra que tem recursos que nem sabia que existiam, e que a tribulação foi o gatilho para nos conhecermos melhor.

 Tome cuidado pra jamais se deixar dominar pelo papel de vítima. Tá certo, de vez em quando é bom um agrado, uma atenção especial, um carinho solidário. Mas não assuma esse personagem, a armadilha é certeira e cruel. Não busque fora de você culpados _ pra sua dor, sua solidão, sua inadequação. Descubra sim, recursos que podem lhe tirar desses lugares que inevitavelmente ocorrerão. Não busque nas pessoas seu consolo, mas investigue o que pode mudar em si mesma.
 Se precisar de inspiração, mexa nas tintas de seu pai e aprofunde nas cores e nuances que ele cria pra extravasar sua poesia, sua sensibilidade perante o mundo, sua esperança diante da vida. Pratique algum esporte, experimente fazer alguma travessia a nado como sua mãe_ você pode não lembrar, mas esteve duplamente submersa, dentro do barrigão da mamãe corajosa e orgulhosa que continuou dando suas braçadas até o nono mês. Lembre-se também de sua avó (e agora me vem à lembrança a letra da música que diz mais ou menos assim: "A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não..."). Sua avó começou novamente aos sessenta e poucos, e tem nos ensinado a sorrir, a tolerar um enredo diferente daquele que foi arquitetado, a brincar de viver. E se nada disso fizer sentido, rabisque suas idéias como essa sua tia que agora lhe escreve.

 É lugar comum dizer "estamos todos no mesmo barco", mas é assim que é. Por mais que existam histórias bonitas ou tristes, elas ocorrem pra cada um_ de uma forma ou de outra. É certo que virão alegrias e vitórias, e desejo que saiba brincar com elas, pois são faíscas, e quanto antes você entender isso, mais cedo conseguirá lidar com a aridez que permeia os dias comuns. Viver não é fácil, e rezo para que você saiba resistir. A resistir com serenidade e fé, descobrindo-se além dos próprios limites, reciclando seus pensamentos, duvidando de suas certezas, desconstruindo e reconstruindo a si mesma independente da idade que tiver.

 Nunca imagine que fracassou, não se permita entrar nesse lugar ruim. De vez em quando as coisas não correm como planejamos, e é normal sentir frustração. Mas como querer controlar tudo? Uma hora você vai descobrir que certas coisas acontecem sem a nossa permissão, mas ainda assim, nos ajudam a sair de nosso centro e finalmente abrir aquela gavetinha escondida que nunca fomos capazes de escancarar.

 E por fim, não se esqueça: é das coisas mais simples que a gente se lembra mais. E um dia, tarde da noite, talvez você se recorde de antigos sons, vozes aquecidas que embalaram sua infância, cheiros conhecidos de tinta escorrida pelo chão da sacada, ou a música que embalou o amor de seus pais. Então, nesse presente que se descortina, absorva esses momentos simples com sabedoria, pois são eles que dão sentido à existência. E se chorar um pouquinho, não se ressinta dessa emoção, pois é esse sal que tempera a experiência linda e única que começa agora.

 Bem vinda à vida!
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES



Todos têm sua dança pra dançar


 Outro dia, tentando a sorte numa dessas maquininhas de brindes que arrecadam fundos e decoram padarias, bancas de revistas e lanchonetes, meu menino torcia pelo Pikachu, figurinha simpática e dificílima de encontrar_ mesmo que a gente arrisque o porta niqueis inteiro. Duas moedas de um real depois, saímos da lanchonete com dois brinquedinhos comuns e uma cabecinha baixa, carregada de frustração.
 Horas depois, encontramos meu sobrinho de três anos, saltitante com seu brinquedo mais recente: um Pikachu novinho em folha, amarelo reluzente, que acabara de conseguir logo em sua primeira tentativa, no mesmo caça niqueis que meu filho, momentos mais cedo, tentara em vão.  
 Nossos olhares se encontraram. E num silêncio carregado de palavras, ele desejou mais de um milhão de moedas para tentar a sorte novamente e eu, ardendo de vontade de abrir a carteira e entregar-lhe todo o saque da semana, talvez do mês, segurei a onda e simplesmente disse não. Ressoou feito o eco de um bumbo dentro de mim. 
 Nessa hora entendi que a pessoa mais frustrada ali era eu. Eu e meu desejo de esvaziar o cofre de bonequinhos até encontrar o bendito Picachu. Eu e minha agonia de deixar o filhote com os olhinhos marejados, eu e minhas faltas, eu e a garotinha de maria chiquinhas que vive no meu peito.

 Enquanto andávamos em direção ao carro, outra história começou: 
_ Mas mamãe, não é justo. Eu é que faço coleção desses bichinhos; ele nem liga pra isso e conseguiu. Ele nem sabe o valor do Picachu... 

 Me vi no discurso inconformado do menino ao meu lado. Porque no fundo, no fundo, o que ele estava sentindo _ e eu também _ era inveja. Uma inveja normal, comum e muito humana. E uma constatação de que a vida é mesmo injusta e não poupa ninguém, ponto final. Parece muito pra uma historinha tão pequena, mas se a gente permitir _ sem a tentação de querer camuflar a realidade_ quanto aprendizado é possível arrancar numa brincadeira de criança! 

 A gente começa a se conhecer de verdade quando tem filhos. E muitas pessoas mostram como realmente são quando se tornam pais e mães. 
 Porque há muita confusão por aí. E pode surgir o desejo inconfessável de dançar nossa dança na hora errada, atrapalhando a dança que nossos filhos têm para dançar quando chega a hora deles. 
 Todos têm sua parcela de alegria, frustração, dor, surpresa, descontentamento, tristeza ou sucesso. E não dá pra misturar as estações e querer recompensar a garotinha de pijama de ursinhos ou o guri de calças curtas que vive dentro de nós, através de nossos filhos

 Queremos protegê-los, mas estamos protegendo quem? Desejamos recompensá-los_ a quem realmente? Somos autoritários, exigentes, tiranos... com quem? Sonhamos com a carreira profissional, a festa de quinze anos, o casamento...Oi?

 Como meu menino veio a saber, a vida é boa, mas também frágil. E por mais que eu queira protegê-lo dessa fragilidade, ele vai descobrir, mais cedo ou mais tarde, que alguns passos dessa dança são só dele_ e de mais ninguém.

  Se poupamos nossos filhos daquilo que é inerente à vida _ inadequação, frustração, arrependimento, tristeza_ como encontrarão, eles mesmos, recursos para dançarem até o fim? E principalmente, como enxergarão em nós e em todos os outros essa fragilidade que compõe tudo de que é feita a vida?
 Como conseguirão perceber que na vida todos têm sua parcela de reviravoltas, arabescos, pliés, dévellopés... ou o que quer que sejam esses movimentos? Movimentos que nos abraçam, embalam e também desafiam.  

 Todos têm sua dança pra dançar. E por mais tentador que seja querer dançá-la com um par, ou vários, essa dança é só nossa. A capacidade de se conduzir e se virar conforme a música é adquirida com o passar do tempo, entendendo que nem todos os passos são possíveis, pois a vida_ ainda que seja nossa maior aventura_ é limitada. 
 Aceitar os limites e acatar as perdas, dores, turbulências e desistências com generosidade é avançar nessa coreografia cheia de erros e acertos, surpresas, desejos, alegrias e tropeços que compõem a existência.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES








  

Lego x quebra cabeça


 Lembro de uma carta, no comecinho da faculdade, que uma amiga escreveu ao ex namorado, dizendo que sua vida era como um enorme quebra cabeça, e ele era a peça que faltava para tudo ficar perfeito. Éramos bem novinhas, dezessete ou dezoito anos, e naquela época isso fez muito sentido pra mim_ a ponto de não esquecer o texto da carta até hoje, vinte anos depois.

 Mas vinte anos também são suficientes pra gente aprender que a falta é e sempre será permanente. E perceber que comparar a vida com um imenso quebra cabeça pode ser, no mínimo, perda de energia. Energia pra ser feliz e se realizar plenamente com o que possui.

 Conviver com a falta faz parte do ser humano; perceber-se sozinho, também. Crescer é aprender a conviver com os pedaços que permanecem sem encaixe, com o buraco que todos possuímos, com a escassez de peças que formam esse quebra cabeça incompleto que é a vida.

 Quando entendemos que esse quebra cabeça é sim um quadro imperfeito_ pra qualquer um_ de peças desajustadas e faltantes, de cantos obtusos e bordas incompletas, que poucas vezes refletirá algo que faça sentido, enfim desistimos de desejar o impossível e aprendemos a encontrar as respostas no que é verdadeiro, real e palpável.

 Neste fim de semana prolongado, passando uns dias na casa do meu sogro com a família, mergulhei no universo de "A menina quebrada", livro de Eliane Brum. Nele, a jornalista se aproxima muito de nós, seus leitores, ao abordar a vida com sensibilidade e desassossego, o desassossego dos inquietos, ou daqueles que não se acomodam diante do óbvio, mas procuram desmontá-lo para enfim remontá-lo com certeza e verdade. Me fisgou no momento certo.

 Entre tantas crônicas, duas me fizeram refletir sobre a falta_ a que nos habita e aquela que percebemos nos que amamos.
 No texto "É possível obrigar um pai a ser pai?", ela abre a discussão a partir do caso Luciane Nunes Oliveira Souza, indenizada na justiça pelo pai que, segundo a vítima, abandonou-a afetivamente. Lá pelas tantas, Eliane Brum nos desacomoda _ a todos nós, abandonados ou não _ ao nos confrontar com o apego que temos ao que nos falta. E no caso de Luciane, conclui: "Dificilmente Luciane conseguirá seguir adiante, paralisada como parece estar no mesmo lugar simbólico. (...) Tornar-se adulto, porém, é descobrir que o baralho nunca estará completo, que nem mesmo existe um baralho completo. Temos de jogar com as cartas que temos. E tentar recuperar cartas que jamais existiram, como se elas estivessem apenas perdidas, não nos ajuda a viver melhor. Apenas nos congela num lugar infantil".
 Outro texto, "A dor dos filhos", fala da dificuldade que temos em lidar com os abismos de nossos filhos, abismos que nos remetem aos nossos próprios precipícios e falta de sentido. É ela quem nos fala: " Não protegemos nossos filhos desse vazio, não há como protegê-los daquilo que é uma ausência que nos completa. Penso que este é o momento crucial da maternidade e da paternidade. Cada um de nós, que se sabe faltante, diante da falta que grita no filho". E conclui lindamente: "É preciso aguentar. Saber aguentar e escutar a dor de um filho, sem tentar calar com coisas o que não pode ser calado com coisa alguma, é um profundo ato de amor".

 Imaginar a própria vida como um quebra cabeça em que as peças faltantes limitam ou impedem o significado de todas as outras é submeter a existência àquilo que está fora dela; é reduzir a felicidade ao complemento de outros encaixes, quase nunca viáveis ou possíveis. Viver esperando que algo ou alguém venha nos completar e milagrosamente sanar os vazios que nos preenchem é autorizar que a falta seja aquilo que nos define mais. Estacionar diante de um quebra cabeça com fragmentos ausentes e insistir que precisa do quadro pronto pra ser feliz é desconstruir a possibilidade de seguir adiante. De vez em quando um "Deixa pra lá" faz milagres e nos liberta a prosseguir tentando um arranjo novo, nem sempre perfeito, mas invariavelmente possível.

 Retornando da viagem, entramos em casa e, cheios de malas, queijos e ovos trazidos do interior, tropeçamos e desviamos das peças de lego de meu menino que ficaram por guardar e foram esquecidas espalhadas pelo chão da sala de estar. Terminadas as arrumações, sentamos para recolher as pecinhas e entre separar e brincar, tentamos uma ou outra combinação para criar um novo carrinho, casa, ou avião. E, enquanto ainda conseguimos prosseguir sem seguir o manual _ que exige as peças certas _ inventamos mundos e histórias com as peças que unidas se transformam e se reinventam.
  Se_ ao invés do quebra cabeça_ desejarmos prosseguir como peças de lego, uma infinidade de possibilidades se descortina. Pois mesmo que faltem alguns pedaços, é possível continuar tentando e encontrando novas combinações, roteiros e direções. Um carro pode se transformar num prédio, navio ou caminhão. E é essa capacidade de se construir e desconstruir, de se desmanchar e se recriar de uma forma completamente diferente que faz do Lego_ e de nossas vidas_ o melhor brinquedo que existe.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

 



Pé de feijão

 Era um trabalho para a escola. Dois vasos, três grãos de feijão em cada um. A mesma terra, o mesmo adubo, a mesma irrigação. A diferença, na claridade: Um dos vasos repousaria no escuro; o outro, na luz.

 Dia após dia, meu menino e eu observávamos o desenvolvimento dos grãos. Mesmo sem fotossíntese, sabíamos que algum crescimento seria possível no vaso do escuro. Porém, ainda assim, diariamente nos surpreendíamos com a valentia do grão que, em total ausência de claridade, resistia e rompia as fronteiras na terra, subindo em direção a alguma luz que ele supunha existir fora dali, com o caule branco e algumas folhas bem desbotadas, levemente esverdeadas.

 Paralelamente, no vaso da claridade, nada ocorria. Afofávamos a terra com nossas mãos invasoras, tentando facilitar as coisas para os grãozinhos preguiçosos, conversávamos com eles, aguávamos com cuidado... em vão. Após cinco demorados dias e já sem esperança, demos a mão à palmatória e entendemos que o vaso da luz não daria à luz...

 Porém, muito mais que aprender sobre fotossíntese, a simplicidade da vida veio trazer entendimento sobre a complexidade dela.
 E o que eu poderia dizer ao menino que esperava em vão por suas plantinhas muito, mas muito verdes?

 Que não tinha dado certo, ele já sabia. Mas talvez precisasse entender que de vez em quando a gente é obrigado a se render. A aceitar o improvável, a se conformar com o que não é óbvio, mas ainda assim tem força para acontecer.

 Durante a vida, muitas plantas irão florescer em lugares improváveis, sobrevivendo em meio a construções, despontando valentes por entre calçadas de cimento, desafiando a aridez do concreto, suportando a falta de vida do terreno, resistindo às intempéries da jornada. Outras, tão desejadas e cuidadas, não passarão de sementes acanhadas, inexplicavelmente covardes a voos mais altos.
 Não basta desejar, meu menino. De vez em quando querer não é o bastante para que as coisas aconteçam. E mesmo que a gente fique tentado a comparar, dizendo "não é justo, ali não merecia haver vida e aqui sim..." ou: "eu queria tanto que desse certo..." , nem tudo está sob nosso controle, e comparações são perda de tempo quando se trata de natureza ou sentimentos...
 Então o negócio é aceitar. E depois quem sabe, tentar de novo.

 Foi o que fizemos. Dias depois, certos de que não havia mais o que esperar, trocamos a terra, escolhemos outros grãos na despensa, realizamos novo plantio. Em três dias nossos novos pés de feijão despontaram valentes, muito verdes, cheios de folhas. O experimento durou mais uma semana e hoje, feliz da vida, entregou os dois vasos à professora.

 Essa experiência, meu filho, não termina aqui. Pode ser que daqui a alguns anos você perceba que não há nada de simples em recomeçar. É difícil e doloroso entender que um tempo chegou ao fim. Vivemos de esperanças; como você, do alto dos seus sete anos me pedindo para esperar mais um dia antes de tirar a terra do vaso _desistindo de suas sementes que não germinaram _ e começar de novo. É normal olhar o canteiro com as sementes que não brotaram e rezar em silêncio para que alguma vida surja ali. Negociamos, barganhamos silenciosamente com Deus para que faça um milagre, que permita que aquela_exatamente aquela_ semente dê frutos. Mas sabe, nem sempre acontece. Então de vez em quando é necessário aceitar que nossa hora passou. Que daquela terra não brotará mais nada. É um choque de realidade, eu sei; mas só assim acatamos o que é verdadeiro.

 Só assim temos disposição para o replantio.
 Só assim temos coragem de olhar pra frente_ de que jeito for.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES









Wi-Fi: Fidelidade sem fio


 Acho que foi em 1993. Numa entrevista _ histórica_ pra MTV, Renato Russo disse a Zeca Camargo que achava lealdade mais importante que fidelidade. Eu era menina, mas lembro que gravei a entrevista numa fita VHS e revi inúmeras vezes, me intrigando sempre nessa parte.
 Eu entendia pouco acerca do amor, dos afetos, da durabilidade das relações. Mas Renato Russo me influenciava _ numa época em que meu pensamento ainda estava sendo moldado_ e eu tentava, imaturamente, entender aquela declaração.

 Isso foi há vinte anos. De lá pra cá, relações se construíram e desconstruíram na minha frente. E vivendo minha própria experiência, finalmente consigo entender, e de certa forma concordar, com Renato Russo.

  A fidelidade é permeada por regras, obrigações, compromisso. É conexão com fio, em que te dou uma ponta e fico com a outra. Assim, ficamos ligados mas temos que manter a vigília para o fio não escapar e nosso aparelho não desligar. Já a lealdade_ permeada pelo vínculo, vontade e emoção_ é o pacto que se firma não por valores morais, e sim emocionais. É conexão "wi-fi: fidelidade sem fio", que faz com que eu permaneça unida a você independente da existência de condutores ou contratos. Permaneço em pleno funcionamento por convicções permanentes e duradouras, invisíveis aos olhos.

 Amor nenhum se atualiza sozinho. O tempo passa, a gente muda, o amor modifica. E nessa evolução toda, a única tecla capaz de atualizar e permitir a duração do amor, é a tecla da lealdade. É ela que conta ao outro que estou mudando, que não gosto mais daquele apelido, ou que aquela mania de encostar os pés gelados em mim embaixo do cobertor ficou chata. É ela que diz que eu gosto tanto do seu cabelo jogado na testa, por que é que não deixa sempre assim? Ou que traduz que tenho medo de te perder, mas ainda assim preciso lhe contar que na época da faculdade usei drogas, pratiquei magia ou fiz um aborto. É ela que permite que coisas ruins ou não tão bonitas encontrem um refúgio, um lugar seguro onde possam descansar em paz.
 É ela que faz o amor se atualizar e durar...

 Lealdade é não precisar solicitar conexão. É conectar-se sem demora, reservas ou desconfianças. É compartilhar a senha da própria vida, com tudo de bom e ruim que lhe coube até aqui.
 Leal é quem conhece as fraquezas, revezes, tombos e dificuldades do outro e não usa isso como álibi na hora da desavença; ao contrário, suporta sua imperfeição e o ajuda a se levantar.
 Leal é quem lhe defende na sua ausência.
 É quem prepara seu terreno, se preocupa com sua dor, antecipa a cura;
 Leal é aquele que é fiel por opção, atento ao amor que possui, zeloso com o próprio coração;
 É quem não omite o próprio descontentamento, mas aponta o que pode ser feito pra não se perder...

 Então sim, eu concordo com Renato Russo e acho que deslealdade separa mais que infidelidade. Pois não adianta não trair por fora, se traio o amor por dentro. Se tenho medo de arriscar e polpo meu afeto de se conhecer por inteiro; se não tolero meu caos e vivo uma mentira imaculada. Se não absolvo minha história nem perdoo meu enredo, desejando fazer dele uma fábula fantasiosa aos olhos de quem amo. Se contrario minha vontade e disposição e omito minhas intolerâncias pra não ferir _ me afastando silenciosa e gradativamente até a ruptura. Se me apresento por partes_ as melhores ficam aparentes, as nem tanto eu omito_ e não permito ser conhecido.

 Finalmente, se não confio a ponto de compartilhar a poltrona do carona_ ao meu lado_ reservando apenas o banco de trás ( e olhe lá!) à minha companhia nessa viagem...

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES













Carta para Coraline

 Quando você fugiu pela porta secreta, fiquei assustada por perceber que aquilo não ia melhorar em nada as coisas pra você.
 Sabe, de vez em quando é normal sentir que a vida que vivemos não é a vida que escolhemos... Quando isso acontecer, lembre-se da estrada de tijolos amarelos; aquela, que Dorothy seguiu quando o mundo amanheceu irreconhecível.
A estrada é longa e deixará seus pés doloridos, mas ao final, o encontro com o Mágico será tão somente o encontro consigo mesma, descobrindo que tem aqueles dons escondidos_ pensamento, sentimento e vontade_ tão reais e materializados quanto as figuras do espantalho, homem de lata e leão.

 Esses dons já existem em você, Coraline.
 Mas talvez precise perceber que a liberdade também.
 É tão difícil nos sentirmos livres!!!! Atribuímos as razões de nossas frustrações fora de nós, encontramos bodes expiatórios pra nossa falta de sorte, e não percebemos que o caminho sempre esteve a nossa mercê e disposição, mas preferimos não arriscar.
 Supomos que deixar nossas folhas em branco seja mais seguro do que simplesmente usar a borracha.  Somos tão covardes Coraline...

 Tome cuidado pra não cair na armadilha da perfeição. Essa talvez seja a pior das prisões, e pode arrastar uma infinidade de consequências ruins derivadas dessa vontade de que tudo corra_ perfeitamente_ bem.

 Nunca se esqueça: Mesmo quando as coisas dão errado, a gente sobrevive.
 Então desista dessa mania de levar o guarda chuva dentro da mala para o caso de chover. Se chover, aproveite pra voltar a ser criança_ molhada, com o cabelo arrepiado e maquiagem escorrida.
 Tolere os imprevistos, encontre neles sua oportunidade de crescimento.
 Não encha a despensa com tantos mantimentos_ felizmente não vivemos em tempos de guerra e adaptar aquela receita vai estimular sua criatividade.
 Corra mais riscos; deixe o protetor solar de lado por alguns instantes.
 Não contabilize prós e contras de cada atitude_ de vez em quando a gente perde, de vez em quando a gente ganha; ouça mais seu coração do que a opinião de sites especializados, livros ou conversas de estranhos.
 Não abasteça sua geladeira com tudo o que o Globo Repórter diz_ semana que vem a orientação é outra e você não descobriu o que é saudável_ e possível_ pra você, só você.
 Aprenda a confiar no seu taco, a ouvir sua intuição, a acreditar que é capaz de fazer boas escolhas sem um guru de estilo ou receita farmacêutica carimbada.
 Confie_ você não imagina o quanto isso pode ser libertador e transformador.

 Antes que eu me esqueça: prefira uma verdade feia a uma mentira bonita. De vez em quando somos tentados a disfarçar nossas miudezas, e criamos fantasias onde pensamos que podemos nos refugiar. Mas isso dura tão pouco Coraline... E quando a verdade aparece, o estrago é tão devastador... Assuma sua vida do jeitinho que ela é, sem tirar nem pôr; e nunca se envergonhe daquilo que lhe aconteceu. Essa é sua história, e negá-la só fará com que se sinta mais presa, mais encarcerada, mais infeliz.

 Aprenda a tolerar seu enredo.

 Vou te contar: Se existe um lugar onde pode se refugiar em segurança, esse lugar é na verdade. Não negue seus afetos, suas alegrias, suas vitórias e desejos, mas principalmente, não negue sua dor. A gente só sai da tristeza quando se permite vivenciá-la. Pode ser que um dia você sinta que seus olhos enxergam melhor quando estão úmidos. Isso acontece porque a lágrima lubrifica a visão, enquanto a tristeza nos reconecta ao que de mais verdadeiro existe em nós. Então chore, chore, e não disfarce seu abandono, sua decepção, raiva e frustração. Mas depois dance, dance, dance... pois a dor também tem o seu feitiço, Coraline.

 Aproveite a viagem sem tentar entender cada passo. Nem tudo tem explicação lógica e a vida, na maioria das vezes, é injusta mesmo_ mas quem somos nós para julgar aquilo que é realmente justo? Então não fiquei olhando pro lado e tomando conta do que não lhe pertence. Ame o que lhe cabe, e tolere as demoras, os percalços e falhas. Não exija demais de si mesma nem dos outros. Esqueça um pouco o relógio e se perdoe quando preferir dormir um pouquinho mais no domingo. Você não é o homem de lata e muito menos o de ferro!

 Acima de tudo, seja autêntica. Não endureça com medo de ter sua sensibilidade revelada nem se alegre demasiadamente para que não lhe percebam as lágrimas. Seja autêntica nos desejos, no descontentamento, na necessidade de ficar sozinha ou dizer "não". Não se desdobre pra agradar todo mundo, isso é muito cansativo, desastroso e não lhe ensina o respeito por si mesma.

 Por fim, mais uma palavra de bolso: Tenha coragem de amar e ser amada. Mas não se surpreenda quando o amor lhe parecer imperfeito, cheio de nós, pontas e contradições. Nenhum amor é igual ao outro, e tentar algum modelo é desconstruir a liberdade de ser quem você é.

 Por isso, não tenha medo de romper a fronteira daquilo que lhe parece seguro. Siga pela estrada de tijolos amarelos e quem sabe, além do arco-íris, encontre a si mesma mais amadurecida e feliz, Coraline.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES










Um pouco de malandragem...

 Eu não sei pechinchar. Sério. Desde um passeio sem compromisso à feirinha hippie até a compra de um carro, não consigo chorar desconto. Quer dizer, tenho aprendido, devagarzinho, a falar: "À vista é mais barato?" ou até: " Se eu levar duas pulseirinhas, tem um descontinho?" Mas então, se o vendedor for ponta firme, e disser assim: "ah, mas já está em preço de liquidação", eu aceito. Aceito quietinha e quase me desculpo por ter ousado pensar em pagar menos.

 Tenho dificuldade em desejar. Se encontrasse o gênio da lâmpada e tivesse direito aos três pedidos, seria uma mistura de alegria e culpa. Um desperdício na hora do deleite.

 Você deve estar imaginando: "Mas que pessoa sem graça, desbotadinha, quase um café com leite..." e eu hesito em contestar, porque sei que lá no fundo existem desejos sim. Desejos de ser mais dona das minhas vontades, corajosa em meus delírios de consumo e necessidades, certeira naquilo que me realiza.

 E mesmo não sendo fácil "esperar o ônibus da escola sozinha... rezando baixo pelos cantos por ser uma menina má...", é moleza aceitar as prisões que construímos pra nós mesmos. Prisões sem grades ou muros, mas tão limitantes quanto. E penso no quanto a falta de ousadia ou desejo amarra a vontade de nossas asas.

 Se encontrasse o tal gênio, o pedido seria um só: "Um pouco de malandragem"... ou a ginga necessária pra escapar ilesa de meus próprios julgamentos e aflições.
 Desejaria a tranquilidade dos que se sentem a vontade dentro da própria pele, dos que não recusam o prazer nem se desculpam pela alegria excessiva.
 Esfregaria a lâmpada ávidamente em busca de boêmia_ não aquela que vaga sem hora nem destino madrugada afora_ mas a boêmia de quem tem o espírito livre e coração solto. Dos que têm a fala mansa, certeira, gentil e desejosa de se acariciar verdadeiramente.
 Seria boêmia numa dança sem coreografia com minha alma, permitindo seu voo, e principalmente descobrindo o que lhe completa, o que lhe realiza e finalmente, o que lhe basta.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES




Rosely Sayão


 Ontem, num auditório lotado de educadores e pais e mães de alunos, em sua maioria do ensino fundamental, assisti a uma palestra da ótima Rosely Sayão_ psicóloga, educadora, escritora e colunista da folha de SP.
 Fui com meu marido (o filhote ficou com a vovó), e sentados na terceira fila ouvimos sobre as novas famílias, erros e acertos inerentes à educação, internet, pais e mães tipo " GPS e bússola", entre outros assuntos e dicas.

 Como muitos pais, acompanho Rosely Sayão principalmente através de sua coluna na Folha Equilíbrio. Ali, é comum ler algo que acrescenta um ponto_ ou vários pontos_ àquilo que eu penso, e tento pôr em prática na educação do meu menino, hoje com sete anos.

 Com a palestra de ontem não foi diferente. Porque na realidade, ela falou de coisas que eu já sabia, mas só sabia dentro de mim, não fora. E de vez em quando a gente precisa de alguém que verbalize e nos faça ter consciência daquilo que precisa ser entendido ou feito. Como terapeuta, ela tem esse dom.

 E muito segura começou falando: Onde há afetividade, é mais difícil. E pensei que é isso mesmo. É nesse terreno afetivo, emocional e passional que a gente se perde, se envolve, faz os nossos pequenos terem tamanho de gigantes e deixamos de conduzir a vida da forma_ teoricamente_ correta. E nos assustamos demais com aquilo que é tão simples, e porque não dizer_ normal. Então ela vem e desmistifica esses monstros que construímos e afirma: O papel do adolescente é contestar, a criança até 6 anos faz birra mesmo e as crianças irão sempre insistir e transgredir. Simples e normal.

 Quanto aos erros de educação, não somos infalíveis. É claro que erramos, e um dia esses erros podem ser apontados por eles no futuro _ do mesmo modo que fazemos com nossos pais, certo? Mas errar de acordo com nossas próprias convicções, e não com as convicções dos outros, é sempre mais seguro.

 Depois ela falou sobre as mudanças ocorridas na família, desde o final dos anos 50 até os dias de hoje. Apesar de toda evolução ocorrida na sociedade e no mundo, permanecemos com o desenho mental daquela família que talvez nem chegamos a conhecer. E percebi que lá em casa tem sido um pouco assim. Principalmente na hora de dormir. Porque coloquei na cabeça que meu filho tem que dormir antes das 21 hs. E sofro porque de uns tempos pra cá, isso nunca mais aconteceu. E ontem, nessa parte da palestra, me deu um click ao refletir que essa minha exigência é descabida. Porque trabalhamos fora, nos desencontramos durante o dia, e o período da noite é o único momento em que podemos estar todos juntos, sem a exigência do relógio que cobra rotinas, cartão ponto, hora dos portões fecharem. E sem querer, eu estava inventando regras baseada na família dos anos 50, em que as crianças iam pra cama cedo, porque no outro dia a mãe estaria por perto, invariavelmente.

 Gostei muito quando ela falou sobre a modinha das festinhas infantis. Todas padronizadas em buffets que vendem o mesmo cardápio, a mesma estrutura alucinante de brinquedões, a mesma música, os mesmos monitores. E a gente acha que está socializando a criança quando a obriga convidar a turma toda para o aniversário, pois nenhum coleguinha pode se sentir "excluído". E então ela diferencia o que é realmente socializar, que deve ser: ensinar a conviver. E se o excluído for seu filho, reconheça aí a oportunidade de permitir que ele aprenda que tem recursos para lidar com o sofrimento ( achei fantástico!).

 Finalizando, arrematou com uma comparação: Há os pais que funcionam como GPS e aqueles tipo bússola. Pais GPS guiam o filho ponto a ponto, e de tanto proteger, não permitem que ele experimente e conheça o caminho. São aqueles que se antecipam, adiantam a solução, não o ajudam a pensar e a agir. A consequência pode ser a formação de um adulto sem autonomia, despreparado e incapaz perante a vida. Já os pais tipo bússola, indicam o norte e permitem que o filho siga sua estrada, sua direção e tome suas próprias decisões. Permitem que os filhos enfrentem suas próprias batalhas e conheçam os percalços de uma vida nem sempre perfeita, mas real (bravo!).

 Enfim, saí de lá grata pela oportunidade de aprender um pouco mais e disposta a ser uma mãe bússola, cheia de coragem para guiar meu menino, ajudá-lo a enfrentar suas próprias batalhas mas nunca assumindo o lugar dele, responsabilizando-o por suas escolhas e dando-lhe a mão quando solicitada. Que Deus possa nos abençoar nessa jornada...
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

 Ficam aqui algumas dicas de livros e filmes citados durante a palestra:

_ "Criança é a alma do negócio": Documentário que reflete sobre como a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. No youtube: 



_ Livro: "Eu não gosto de você" : Sobre a relação_ por vezes conflituosa_ entre irmãos

_ Filme: "O senhor das moscas": Retrata a regressão à selvageria de um grupo de crianças inglesas, presos em uma ilha deserta sem a supervisão de adultos, após a queda do avião que as trasportava para longe da guerra. Baseado no livro de William Golding, é um dos mais expressivos estudos da natureza humana, contendo importantes reflexões sobre a civilização e o seu papel na formação do ser humano.

 Finalizo aqui com o texto "Não sobrecarregar o filho na escola", de Natália Ginzburg, que foi citado por Rosely Sayão e talvez ajude-nos a entender que a escola é a primeira "batalha" que nossos filhos precisam enfrentar sozinhos, sem a nossa ajuda. O texto é ótimo e merece ser lido e relido, pregado na porta da geladeira se for necessário.

"Não sobrecarregar os filhos na escola"
Autor: NATALIA GINZBURG
Costumamos dar uma importância totalmente infudada ao rendimento escolar de nossos filhos. E isso se deve apenas ao respeito pela pequena virtude do êxito. Deveria nos bastar que eles não ficassem muito atrás dos outros, que não fossem reprovados nos exames; mas não nos contentamos com isso. Queremos deles o êxito, queremos que satisfaçam ao nosso orgulho.
Se vão mal na escola, ou simplesmente não tão bem como pretendemos, erguemos imediatamente entre eles e nós a barreira do descontentamento constante; adotamos com eles o tom de voz irritado e queixoso de quem lamenta uma ofensa. Então nossos filhos, enfastiados, se distanciam de nós.
Ou talvez os secundemos em seus protestos contra os professores que não os compreenderam, declaramos, em uníssono com eles, que são vítimas de uma injustiça. E todos os dias corrigimos os seus deveres, sentamo-nos a seu lado quando fazem os deveres, estudamos as lições com eles.
Na verdade a escola deveria ser desde o início, para um menino, a primeira batalha que ele tem de enfrentar sozinho, sem nós; desde o início deveria estar claro que esse é seu campo de batalha próprio, onde só poderíamos dar uma ajuda ocasional e irrisória.
E, se lá ele padecer injustiças e for incompreendido, será necessário deixá-lo entender que isso não tem nada de estranho, porque na vida devemos esperar ser constantemente incompreendidos e mal-entendidos: a única coisa que importa é nós mesmos não cometermos injustiças.
Compartilhamos os êxitos e fracassos de nossos filhos porque os amamos muito, mas do mesmo modo e em igual medida que eles compartilharão, à medida que forem crescendo, nossos êxitos e fracassos, nossas satisfações ou preocupações. É errado que eles tenham o dever para conosco de serem aplicados na escola e de dar nela o melhor de seu talento. Seu dever para conosco, já que lhes proporcionamos estudos, é apenas seguir adiante.
Se não querem dedicar o melhor de seu talento à escola, mas aplicá-lo em outra coisa que os apaixone, seja sua coleção de coleópteros ou o estudo da língua turca, isso é assunto deles e não temos nenhum direito de repreendê-los nem de nos mostrar ofendidos em nosso orgulho ou frustrados em nossa satisfação. Se no momento não parecem ter o desejo de dedicar o melhor de seu talento a coisa alguma e passam o dia na carteira mordendo o lápis, nem mesmo assim temos o direito de censurá-los muito: talvez o que nos esteja parecendo ócio sejam na realidade fantasias e reflexões que amanhã darão frutos. Se parecem desperdiçar o melhor de sua energia e de seu talento, afundados numa poltrona lendo romances estúpidos ou no campo jogando futebol freneticamente, também não podemos saber se de fato se trata de um desperdício de energia e de talento ou se também isso, amanhã, de algum modo que ignoramos, dará seus frutos. Porque as possibilidades do espírito são infinitas. Mas nós, pais, não nos podemos deixar tomar pelo pânico do fracasso. Nossos enfados devem ser como rajadas de vento ou temporal: violentos mas logo esquecidos; nada que possa escurecer a natureza de nossas relações com os filhos, turvando sua limpidez e sua paz. Estamos aqui para consolar nossos filhos quando um fracasso os entristece; estamos aqui para consolá-los quando um fracasso os mortifica. Também estamos aqui para baixar-lhes a fumaça quando um êxito os enche de soberba. Estamos aqui para reduzir a escola a seus limites humildes e estreitos; nada que possa hipotecar o futuro; uma simples oferta de ferramentas, entre as quais é possível escolher uma para desfrutar amanhã.
(NATALIA GINZBURG, As pequenas virtudes)





 

Um dia perfeito


 De vez em quando acontece: um dia perfeito_ pouco sol, temperatura amena, céu limpo, brisa suave. Daí vem um fundo musical, uma decoração singela, gestos delicados, vista espetacular. Pra qualquer canto que se olhe, há poesia. Até uma pedra no chão, parece que foi premeditadamente colocada ali. E a gente percebe que faz parte da perfeição também. Que nosso colorido encaixa, e nosso coração também. E tudo fica tão bonito e singelo, que corre-se o risco de achar que está sonhando. Ou então que morreu e foi pro céu.

 De repente, no meio disso tudo, um menino vestido como um príncipe senta-se num balanço_ enfeitado com fitas coloridas que dançam à mercê do vento_ e fica a observar uma rosa que acabou de pegar no chão. O menino embala-se delicadamente e olha a flor, se fixa nela, passa a mão no caule, observa com olhos de novidade, tentando decifrar alguma coisa que só a natureza pode traduzir em sua perfeição. Ele percebe o cheiro das pétalas, sente a textura no rosto, volta a conferir o caule; presta atenção nos espinhos. E eu constato surpresa que, quando achava que nenhuma rosa poderia me falar mais, a imagem do menino que se entretém e pensa coisas que eu não sei contar, me comove de um jeito novo, inimaginável. Porque virão outras rosas e outros espinhos em sua jornada, mas talvez pra mim _ e só pra mim_ essa rosa será o símbolo de um momento assim_ perfeito.

 Lá na frente, um noivo comovido lê seus votos. E o sol das quatro da tarde _ leve, morno, despontando acanhado atrás das nuvens pra confirmar que foi contra as previsões de chuva e a favor das promessas à Santa Clara_ ilumina o rosto do jovem. Ele se declara falando acerca de coisas que só o coração pode entender e a noiva conta um amor que começou há 21 anos, quando ainda eram crianças. Então o padre, traduzindo toda a atmosfera, fala a língua dos poetas citando Milan Kundera, Nietzsche, Renato Russo e Vinicius de Moraes.

 E a gente aprende que de vez em quando a vida faz sentido; e mesmo que não consiga explicar porque, consegue colocar algumas peças soltas no lugar, perdoando aqueles reveses que fizeram parte do caminho e acreditando que no final das contas, viver não é tão complicado; difícil é encontrar alegria e satisfação nos pequenos gestos...

 Então encontro na rosa do menino a metáfora que me reconecta à minha sabedoria interior, aquela que todos nós temos mas deixamos esquecida diante da imperfeição diária e do barulho interno. Mesmo correndo o risco de soar clichê _pois ainda assim, pra mim e para o menino, a experiência é primeira_ esses novos horizontes que se descortinam me fazem entender que existem e existirão espinhos, mas nem a aparência ou o medo de ser espetado podem afastar o que de belo existe; e não conseguem esconder a beleza, e o fascínio, e a alegria do todo, que é simplesmente o viver.

 Imersa nesses pensamentos, e ainda comovida com a poesia dos protagonistas dessa tarde inesquecível, me surpreendo uma vez mais, ao som dos violinos que encerram a cerimônia enquanto balões coloridos sobem ao céu, perfeitamente emoldurado pelo cenário do Pão de Açúcar à esquerda e o Cristo Redentor à direita. Lembro Renato Russo, e a canção "Dia Perfeito" me vem à cabeça. Embora a música seja outra, meu coração canta silenciosamente: "Podem até maltratar meu coração, que meu espírito ninguém vai conseguir quebrar..."

 E enfim desejo aos noivos: Que lembrem um ao outro esse dia. Que recordem as promessas à Santa Clara e entendam, segundo as palavras do noivo, que poderia até ter chovido, mas o casamento aconteceria de qualquer jeito.

 O casamento acontece também _ e talvez mais ainda_ quando a gente se permite viver mais um dia e confirma as promessas nas horas mais difíceis_ naquelas, em que não haverá sol nem vista espetacular_ ao permanecer_ e criar raízes_ quando nem tudo for tão bom ou perfeito.
 E aí quem sabe, depois de alguns anos, vocês encontrem novamente um dia assim_ perfeito_ e entendam que valeu a pena ter permanecido...

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

















Não se afobe não, que nada é pra já...

 Não sei quanto a você, mas eu sinto que nasci na era das câmeras digitais. E até esqueço o tempo em que a gente comprava o filme e levava junto uma caixinha pequena contendo o flash. Que era pré histórica aquela...
 E como era chique entrar numa loja e pedir um filme trinta e seis poses_ já que o mais em conta era adquirir um filminho de 12 ou vá lá, até 24 poses_ um luxo só!
 Então a gente esperava acabar tudo _ com parcimônia, sem desperdício_ e ia revelar. Nossa, que expectativa pra então perceber que ficou um arraso; que pele, que olhar... ou então que faltou luz; que podia ter fechado a perna; que o fundo estava ruim; que no dente havia um feijãozinho preto.

 Mas então o mundo mudou, tudo foi ficando mais rápido, fácil, dinâmico, moderno, fugaz. E no lugar daquela câmera com rolo 24 poses e flash acoplado, temos celulares que fotografam e imediatamente postam fotos cheias de filtros e efeitos nas redes sociais. Tudo muito luxuoso, prático e indolor. E não percebemos o quanto mudamos também. Porque esquecemos o tempo em que tínhamos que esperar as 36 poses serem gastas _ com dignidade e comedimento_ para depois saber se saímos bem ou não na foto. Esquecemos como tudo era mais lento, simples, arcaico e até romântico...

 Então é de se esperar que a gente acredite que a vida tenha adquirido esse molejo também. E passamos a exigir da vida _ coitada!_ o swing das câmeras digitais. E começamos a cobrar do amor_ esse culpado!_ a eficácia dos flashes embutidos. E ficamos indignados com a vida e emburrados com o amor quando eles não têm essa rapidez, categoria, design e evolução. Como se tudo fosse descartável, substituível, soft e clean. Esquecemos que os tempos mudaram, mas aqui dentro continuamos precários. Muito precários.

 Por dentro ainda somos vitrolas empoeiradas que precisam de corda pra agulha funcionar e tirar algum som do vinil. Somos tão precários que buscamos nos outros aquilo que falta em nós. E falta tanta coisa... E exigimos tanto.... E temos tanta pressa... Queremos ser curados de nossas incompletudes. Curados de nossas precariedades. E quanto mais precários, mais exigentes. Coisa estranha essa, não? Nada nos completa porque nem nós mesmos nos bastamos...

 Daí vem o Chico e canta lindamente: "Não se afobe não, que nada é pra já... O amor não tem pressa, ele pode esperar..."
 E a gente entende que é isso mesmo.
 Que é preciso paciência e até mesmo um certo trabalho
 De entrega e responsabilidade
 Confiança e nenhuma contabilidade.
 Requer tempo.
 Pra construir diariamente. Com moderação e habilidade.
 Perdão e maturidade.
 Pés no chão e força de vontade.

 E Luis Fernando Veríssimo completa: "Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade, tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto, não se alcança o coração de alguém com pressa." 

 Deixar-se conquistar leva tempo também. Requer confiança e descontrole_ entrega, se você preferir. Exige desprendimento e nenhuma contabilidade. Pois se você vive contabilizando, comparando, enchendo de regras aquilo que nem chegou a ser uma relação, melhor desistir. Amor leva tempo e pouco entendimento pra ser construído.

 Vivemos afobados, carentes de respostas, como se tudo na vida fosse assim, feito máquina digital. Esquecemos que lá no fundo, precisamos de corda tanto quanto nossas avós. Só que na época delas não tinha essa de "não gostei, vou deletar"... Era normal entender que o sentimento vinha aos poucos, pequeno, humilde; que devagar se transformava, modelando, revelando.

 É claro que havia muita surpresa indesejada _ como a foto antiga, revelada uma semana depois_ em que a gente percebia que podia ter ficado de boca fechada e perna cruzada.

 Mas havia muita coisa boa também_ que só aparecia depois de provada muita mesa e vivido algum chão.

 Aquilo que acontecia devagar, em etapas, como retrato em sépia que surge lentamente na revelação fotográfica e resiste às distrações da memória e artimanhas do tempo...
                                           
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES




Um casaco mal colocado e algumas considerações


 Mãe não deveria ter medo de chuva.
 Medo de estragar o cabelo recém escovado.
 Pressa com o menino que desajeitadamente coloca o casaco.

 Hoje tive pressa. Perdi a paciência tomando chuva do lado de fora do carro enquanto você decidia se colocava o casaco ou não...
 Mas depois o vi seguindo sem mim, guarda chuva aberto, lancheira nas costas e mochila na outra mão; então reparei no casaco mal colocado, subindo desajeitado, com mangas displicentemente arregaçadas...
Tive o ímpeto de correr e ajeitá-lo. De voltar o relógio do tempo e simplesmente ser paciente. Deixar a chuva molhar meu cabelo e minha calça branca repreensivelmente alvejada enquanto você se aprumava.

 Mães não deveriam ter pressa nem cabelo escovado. Não deveriam usar calças brancas ou sapatos com salto. Principalmente não deveriam ter medo de chuva nem relógios de pulso.
 Qualquer tipo de relógio deveria ser banido do tipo mãe, já que pra elas estes deveriam ser itens supérfluos, dispensáveis, irresponsáveis.
 Pois é uma irresponsabilidade contabilizar minutos de afobamento diante da eternidade que a infância representa.
 Mães não deveriam ter sono e sua fome deveria ser somente de algodão doce, pipoca e quindim.
 Mães deveriam ser somente pacientes_ com casacos difíceis de abotoar, bolsos cheios de tranqueiras, paradas repetitivas para recolher objetos enigmáticos pelo caminho, cadarços desamarrados e preguiça de tomar banho.
 Mães não deveriam ter compromissos oficiais ou judiciais. Seu ofício deveria ser simplesmente adivinhação, mímica, teatro de fantoches e pintura a dedo. Pra elas não deveria ser necessário manicure, depilação ou baby liss. Seu sorriso deveria ser sempre uma risada barulhenta e sua voz, um convite à fantasia...

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES










  

Get Lucky


 Muito do que vi da vida aprendi através dos olhos teus. E reconheço que por diversas vezes duvidei se a irmã mais velha fosse mesmo eu. Porque recebi muito mais do que dei. E tive orgulho_ nunca ciúmes_ da cumplicidade de vocês. Cumplicidade de homens, meninos crescidos que dividem gostos, vontades, esperanças. 

 Partilhei muito também. Mesmo com as diferenças dos primeiros anos _ surrar minha boneca preferida continua sendo golpe baixo_ nossa cumplicidade cresceu, amparada em alegrias e tristezas. Surpreendente constatar como o amor entre irmãos se fortalece mais nas tribulações que na bonança! Nos unimos mais por dividirmos decepções e dores semelhantes; e amadurecemos juntos quando qualquer desilusão de um podia ser explicada à luz da adaptação de outro.

 De vez em quando ligo o rádio do carro e toca "Get Lucky", do Daft Punk. Então sigo meu caminho sorrindo por lembrar a música eleita da vez, trilha sonora dos últimos encontros e tardes regadas à cerveja. Foram tantas canções ao longo dos anos... Ainda crianças, a voz do nosso caçula anunciava a chegada na casa da vovó entoando Roberto: "Meu querido meu velho, meu amigo..." deixando vovô com os olhos marejados e vovó repetindo exaustivamente: "Meu céu é aqui..." Depois veio "Losing my Religion" do R.E.M, "Overkill" do Men at Work e "Blue Sky Mine" do Midnight Oil, entre outros (a memória resgata agora os sucessos mais antigos...)
 Vez ou outra revejo o vídeo do meu casamento e o mais tocante é ver dois homens barbados chorando como meninos desamparados. Repito a cena inúmeras vezes e me emociono junto, assim como toda igreja diante de vocês.

 Hoje, após turbulências e alegrias, nascimentos de nossos filhos, festas de família e despedidas importantes, agradeço a Deus pelo presente de ser a menina de nossa casa. A menina que dava broncas, brincava de ser mãe, corrigia tarefas e escondia os diários da curiosidade de seus olhos; mas que no fundo sempre gostou dessa bagunça, desse amor disfarçado de anarquia, dessa união camuflada de algazarra.

 Algumas coisas são inexplicáveis pra quem está de fora. Existem códigos secretos que só pertencem aos que partilharam a mesma mesa, o mesmo quarto, as mesmas brincadeiras, os mesmos pais. Talvez cumplicidade e camaradagem sejam as palavras certas pra definir esse tipo de amor, que começa com um "não me entrega que eu também não te entrego", e segue vida afora compreendendo os traumas ocultos, as dores disfarçadas, a raiva acumulada, a alegria infantil, a inércia justificada. Mesmo longe, as mãos se reconhecem e se apoiam. Mesmo sem palavras, o entendimento é real. E no fim das contas, é aquele olhar cúmplice ("não me dedura por favor...") que nos levanta e aquece. É aquele olhar que justifica e valida a beleza da vida, do mundo, das pessoas. E, de alguma forma que não sei dizer, traz alívio e paz.

 Não posso imaginar que aquilo que dividimos há tanto tempo me apazigue como fazem essas lembranças. Nada de mim está mais lá, apenas a memória de velhos pijamas de dormir e a voz suave de mamãe contando histórias pra explicar a vida e justificar o amor.

 Obrigada meninos por dividirem tanta vida comigo. Por me permitirem entender que mesmo quando tem bronca, há amor. Mesmo quando tem intromissão, há cuidado. Mesmo quando tem desilusão, sempre haverá alguém entoando "Get Lucky"...
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES






Créditos da primeira foto: Jeanne Lipsey. Do livro "A arte de ter filhos"

 

  

O dia em que parei de mandar minha filha "andar logo"

 De vez em quando publico aqui textos escolhidos que não são de minha autoria mas que têm relevância por compartilharem as mesmas idéias do blog.
 Hoje publico um texto que conheci vagando pela web e me tocou profundamente por falar do tempo e daquilo que fazemos com ele. Corremos tanto, temos tanta pressa, nos afobamos com coisas tão sem importância e me pergunto: "Pra quê?" Nessa busca pelo que realmente importa, esse texto trouxe alguma resposta. E não é destinado somente aos que têm filhos pequenos. Dedico a todos que de uma forma ou de outra, têm bastante pressa e pouca paciência.

 O texto abaixo foi publicado originalmente em inglês no blog “Hands free mama” e é de autoria de Rachel Macy Stafford, uma professora de educação especial. A tradução para o português foi feita pela equipe do Portal Aprendiz.


 Quando se está vivendo uma vida distraída, dispersa, cada minuto precisa ser contabilizado. Você sente que precisa estar cumprindo alguma tarefa da lista, olhando para uma tela, ou correndo para o próximo compromisso. E não importa de quantas maneiras você divide o seu tempo e atenção, não importa quantas obrigações você cumpra em modo multi-tarefa, nunca há tempo suficiente em um dia.
Essa foi minha vida por dois anos frenéticos. Meus pensamentos e ações foram controlados por notificações eletrônicas, toques de celular e uma agenda lotada. Cada fibra do meu sargento interior queria cumprir com o tempo de cada atividade marcada na minha agenda super-lotada, mas eu nunca conseguia estar à altura.
Sempre que minha criança fazia com que desviasse da minha agenda principal, eu pensava comigo mesmo: “Nós não temos tempo pra isso.”
Veja bem, seis anos atrás, eu fui abençoada com uma criança tranquila, sem preocupações, do tipo que para para cheirar flores.
Quando eu precisava sair de casa, ela estava levando seu doce tempo pegando uma bolsa e uma coroa brilhante.
Quando eu precisava estar em algum lugar há cinco minutos, ela insistia em colocar o cinto de segurança em seu bichinho de pelúcia.
Quando eu precisava pegar um almoço rápido num fast-food, ela parava para conversar com uma senhora que parecia com sua avó.
Quando eu tinha 30 minutos para caminhar, ela queria que eu parasse o carrinho e acariciasse todos os cachorros em nosso percurso.
Quando eu tinha uma agenda cheia que começava às 6h da manhã, ela me pedia para quebrar os ovos e mexê-los gentilmente.
Minha criança sem preocupações foi um presente para minha personalidade apressada e tarefeira – mas eu não pude perceber isso. Ó não, quando se vive uma vida dispersa, você tem uma visão em forma de túnel – sempre olhando para o próximo compromisso na agenda. E qualquer coisa que não possa ser ticada na lista é uma perda de tempo.
Sempre que minha criança fazia com que desviasse da minha agenda principal, eu pensava comigo mesmo: “Nós não temos tempo pra isso.” Consequentemente, as duas palavras que eu mais falava para minha pequena amante da vida eram: “anda logo”.
Eu começava minhas frases com isso:
Anda logo, nós vamos nos atrasar.
Eu terminava frases com isso:
Nós vamos perder tudo se você não andar logo.
Eu terminava meu dia com isso.
Anda logo e e escove seus dentes. Anda logo e vai pra cama.
Ainda que as palavras “anda logo” fizessem pouco ou nada para aumentar a velocidade de minha filha, eu as dizia de qualquer maneira. Talvez até mais do que dizia “eu te amo”.
Anda logo!
A verdade machuca, mas a verdade cura… e me aproxima da mãe que quero ser.
Até que em um dia fatídico, as coisas mudaram. Eu havia acabada de pegar minha filha mais velha de sua escola e estávamos saindo do carro. Não indo rápido o suficiente para o seu gosto, minha filha mais velha disse para sua irmã pequena, “você é lenta”. E quando, após isso, ela cruzou seus braços e soltou um suspiro exasperado, eu me vi – e foi uma visão de embrulhar as tripas.
Eu fazia o bullying que empurrava e pressionava e apressava uma pequena criança que simplesmente queria aproveitar a vida.
Meus olhos foram abertos; eu vi com clareza o dano que minha existência apressada estava causando às minhas duas filhas.
Com a voz trêmula, olhei para os olhos da minha filha mais nova e disse: “Me desculpe por ficar fazendo você se apressar, andar logo. Eu amo que você, tome seu tempo e eu quero ser mais como você”.
Ambas me olharam surpresas com a minha dolorosa confissão, mas a face da mais nova sustentava o inequívoco brilho da aceitação e do reconhecimento.
“Eu prometo ser mais paciente daqui em diante”, disse enquanto abraçava minha filha de cabelos encaracolados. Ela estava radiante diante da promessa recém-descoberta de sua mãe.
Foi bem fácil banir o “anda logo” do meu vocabulário. O que não foi tão fácil foi adquirir a paciência para esperar pela minha vagarosa criança. Para nos ajudar a lidar com isso, eu comecei a lhe dar um pouco mais de tempo para se preparar se nós tivéssemos que ir a algum lugar. Algumas vezes, ainda assim, ainda nos atrasávamos. Foram tempos em que eu tive que reafirmar que eu estaria atrasada, nem que se fosse por alguns anos, se tanto, enquanto ela ainda é jovem.
Quando minha filha e eu saíamos para caminhar ou íamos até a loja, eu deixava que ela definisse o ritmo. Toda vez que ela parava para admirar algo, eu afastava os pensamentos de coisas do trabalho e simplesmente a observava as expressões de sua face que nunca havia visto antes. Estudava com o olhar as sardas em sua mão e o jeito que seus olhos se ondulavam e enrugavam quando ela sorria. Eu percebi que as pessoas respondiam quando ela parava para conversar. Eu reparei como ela encontrava insetos interessantes e flores bonitas. Ela é uma observadora, e eu rapidamente aprendi que os observadores do mundo são presentes raros e belos. Foi quando, finalmente, me dei conta de que ela era um presente para minha alma frenética.
Minha promessa de ir mais devagar foi feita há quase três anos e ao mesmo tempo eu comecei minha jornada de abrir mão das distrações diárias e agarrar o que importa na vida. E viver num ritmo mais devagar demanda um esforço concentrado. Minha filha mais nova é meu lembrete vivo do porquê eu preciso continuar tentando. E de fato, outro dia, ela me lembrou de novo.
Nós duas estávamos fazendo um passeio de bicicleta, indo para uma barraquinha de sorvetes enquanto ela estava de férias. Após comprar uma gostosura gelada para minha filha, ela sentou em uma mesa de piquenique e observou deliciada a torre gélida que tinha em suas mãos.
De repente, um olhar de preocupação atravessou seu rosto. “Devo me apressar, mamãe?”
Eu poderia ter chorado. Talvez as cicatrizes de uma vida apressada nunca despareçam completamente, pensei, tristemente.
Enquanto minha filha olhava para mim esperando para saber se ela poderia fazer as coisas em seu ritmo, eu sabia que eu tinha uma escolha. Poderia continuar sentada ali melancolicamente lembrando o número de vezes que eu apressei minha filha através da vida… ou eu poderia celebrar o fato de que hoje estou tentando fazer as coisas de outra forma.
Eu escolhi viver o hoje.
“Você não precisa se apressar. Tome seu tempo”, eu disse gentilmente. Toda sua cara instantaneamente abrilhantou-se e seus ombros relaxaram.
E então ficamos sentadas, lado a lado, falando sobre coisas que crianças de 6 anos que tocam ukelele gostam de falar. Houve momentos em que ficamos em silêncio, sorrindo uma para a outra e admirando os sons e imagens ao nosso redor.
Eu imaginei que ela fosse comer todo o sorvete – mas quando ela chegou na última mordida, ela levantou uma colheirada repleta de cristais de gelo e suco para mim. “Eu guardei a última mordida pra você, mamãe”, disse orgulhosa.
Enquanto aquela delícia gelada matava minha sede, eu percebi que consegui um negócio da China. Eu dei tempo para minha filha e em troca ela me deu sua última mordida de sorvete e me lembrou que as coisas tem um gosto mais doce e o amor vem mais dócil quando você para de correr apressada pela vida.
Seja comendo sorvete, pegando flores, apertando o cinto de bichinhos de pelúcia, quebrando ovos, encontrando conchinhas, observando joaninhas ou andando na calçada.
Nunca mais direi: “Não temos tempo pra isso”, pois é basicamente dizer que não se tem tempo para viver.

Tomar seu tempo, pausar para deleitar-se com as alegrias simples da vida é o único jeito de viver de verdade – acredite em mim, eu aprendi da especialista mundial na arte de viver feliz.

Erótica é a alma


 Adélia Prado certa vez escreveu: "Erótica é a alma". Além de poética, a frase é redentora, pois alivia o peso da sensualidade a qualquer custo, a busca desenfreada pela juventude perdida, a corrida pelos últimos lançamentos da indústria cosmética.

 E nos autoriza a cuidar mais da alma, a viajar pro interior, a descobrir o que nos completa. Pois se os olhos são as janelas da alma, de que adianta levantar pálpebras se descortinam um olhar de súplica?

 Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios; erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.

 Porque não adianta sex shop sem sex appeal; bisturi por fora sem plástica por dentro; lifting, botox, laser e preenchimento facial sem cuidado com aquilo que pensa, processa e fala; retoque de raiz sem reforma de pensamento; striptease sem ousadia ou espontaneidade.

 Querendo ou não, iremos todos envelhecer_faz parte da vida. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos_ se você permitir.

 O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior_ tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte pra suportar.

 Não tem problema cuidar do corpo. É primordial ter saúde e faz bem dar um agrado à auto estima. O perigo é ficar refém do espelho, obcecado pelo bisturi, viciado em reduzir, esticar, acrescentar, modelar_ até plástica íntima andam fazendo!
 Aprenda: Bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.

 Vivemos a era das emergências. De repente tudo tem conserto, tudo se resolve num piscar de olhos, há varinha de condão e tarja preta pra sanar dores do corpo, alma e coração. Como canta Nando Reis, "O mundo está ao contrário e ninguém reparou..." Desaprendemos a valorizar aquilo que é importante, o que é eterno, o que tem vocação de eternidade.
 E de tanto lustrar a carapaça, vivemos a "Síndrome da Maça do Amor": Brilhantes por fora e podres por dentro.
 O tempo tornou-se escasso, acreditamos que "perdemos tempo" quando lemos um livro inteiro, quando passamos horas com nossos filhos, quando oramos ou viajamos com a família. E nos iludimos achando que poderemos "segurar o tempo" cuidando da flacidez, esticando a pele, preenchendo espaços.

 Cuide do interior. Erotize a alma. Enriqueça seu tempo com uma nova receita culinária, boas conversas, um curso de canto ou dança. Leia, medite, cultive um jardim. Sinta o sol no rosto e por um instante não se preocupe com o envelhecimento cutâneo. Alongue-se, experimente o prazer que seu corpo ainda pode lhe proporcionar. Não se ressinta das novas dores, da pouca agilidade, dos novos vincos. Descubra enfim que a alegria rejuvenesce mais que o botox.
 E não se esqueça: em vez de se concentrar no lustre da maçã, trate de aproveitar o sabor que ela ainda é capaz de proporcionar...

                                                                                                                              FABÍOLA SIMÕES