O estatuto que me rege




"Anseio por compreender o estatuto que me rege... A lei interior que me distingue e ao mesmo tempo me assemelha a uma parte da humanidade..."
(Pe. Fábio de Melo)


 Você pensa que é dono do seu nariz. Que tem maturidade para tomar decisões, que é livre para escolher.

 Mas você não conta com o inesperado, com aquilo que vem de repente, te pega de surpresa, aparece no meio da calmaria..._ para te ensinar.

 Para lhe mostrar que você ainda não entende nada, que toda experiência que você pensa que acumulou não vai lhe proteger; para lhe mostrar que existe um lado seu que ainda não foi explorado e chegou a hora de conhecer. 

 A vida lhe dá novas chaves e você tem que abrir compartimentos trancados, há muito tempo escondidos. 

 Então você percebe que a vida tem seu próprio roteiro, e você ousou achar que seria diferente, ousou acreditar que poderia escrever sua história como bem entendesse.

 A vida impõe suas próprias regras, rasga contratos antigos que você havia selado por sua conta com a paz, lhe faz amar a dor. A dor de ser e estar vivo. 

 E então você aprende que entrar no ritmo da vida é uma questão de sabedoria. 
 Aprende a aceitar as viradas de página, a acatar os tsunamis. 

 E você descobre que é capaz, e que em algum lugar no seu íntimo existe uma força que te sustenta quando tudo o mais desmorona...

                                                                                                                          FABÍOLA SIMÕES

Não importa o quanto você se importa...



Existe uma parábola africana chamada "O Sapo e o Escorpião". Nela, o ferrão do escorpião é mais forte que sua empatia pelo sapo, e não importa quão amigos eles tenham se tornado, em algum momento a "natureza" do escorpião fala mais alto que a amizade e o reconhecimento pelo sapo.

A parábola:

Certa vez, um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio.
O escorpião vinha fazer um pedido:

"Sapinho, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo?" 
O sapo respondeu: "Só se eu fosse tolo! Você vai me picar, eu vou ficar paralizado e vou afundar."
Disse o escorpião: "Isso é ridículo! Se eu o picasse, ambos afundaríamos."
Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, enquanto nadava para atravessar o rio.
No meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo.
Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: "Por quê? Por quê?"
E o escorpião respondeu: "Por que sou um escorpião e essa é a minha natureza."



 Infelizmente existem sapos e escorpiões. E com o tempo a gente aprende que tem que se proteger. Porque não dá para passar a vida toda levando ferroadas. Porque não dá para passar toda uma existência esperando afeto, recompensa ou reconhecimento de onde nunca virá. Porque cada um tem uma "natureza", e você nem sempre encontrará pessoas que se importam; nem sempre esbarrará em almas carregadas de empatia ...

 Algumas pessoas simplesmente não se importam. E sua função nesse mundo não é tentar mudá-las, não é tentar fazê-las agir diferente.
 Sua missão é aprender a se proteger, a se resguardar, a manter certa distância do perigo. Porque se você não aprende isso, se não entende isso, certamente vai se machucar, certamente vai ter dor.

 Tem gente que não sabe se cuidar. Seja por inocência, imaturidade ou inconsciência. Não protege a si mesma nem aos seus. E sem querer é conivente com o escorpião. Autoriza sua natureza, permite seu veneno, imagina-se capaz de domá-lo.

 Supondo que conosco será diferente, que nosso amor bastará para neutralizar o veneno do escorpião, agimos feito sapos _ e morremos em vão...


"Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência..."

(Lenine)











Quando o olho brilhou, entendi...


 Quando tudo em mim era incerto, você agregou certezas, direções, alicerces. Quando eu só percebia insignificâncias ao meu redor, você trouxe significado, razão, motivo. Quando já não procurava mais, você me achou e insistiu, acreditou em nós, perdoou minhas falhas, cuidou dos meus medos, enfrentou comigo as tempestades.

 Com você aprendi a confiar na delicadeza, a entender que dois somam um, a aceitar um amor inteiro que acolhe minhas cicatrizes_ internas e externas.

 Quando achei que sabia tudo, que conseguia proteger minha solidão, você driblou minhas defesas, controlou o dano de minhas feridas, lidou bem com meus traumas. Me fez improvisar novos sorrisos, renovar os abraços, experimentar sua doação. Descobri novas versões de mim mesma, alegrias amparadas na segurança do seu amor.

 Quando tudo em mim era ausência, você se fez presença. Presença quando eu merecia ou não, quando eu pedia ou não, quando era viável ou não. Quando tudo em mim era abandono, vazio e perda você preencheu os espaços com afeto, paciência e perdão. Mas acima de tudo, você se importou.

 Se importou quando eu disse que meu corpo doía e precisava descansar; se importou quando lhe contei chorando meus pesadelos, quando guardou meus segredos; se importou quando eu quis sua mão segurando a minha na sala de cirurgia _ quando sua dor e medo foram maiores que os meus_; se importou quando lhe pedi um filho; se importa ainda quando freia minha impulsividade e salva minha vida...

 Se importa todos os dias quando pergunta como foi meu dia e ouve atentamente os detalhes rotineiros; quando acolhe meu cansaço, minhas duvidas, minha imaturidade. Quando lava a louça do jantar e coloca a mesa do café da manhã; quando digo que estou com frio e aumenta a temperatura do ar condicionado; quando acaricia minhas costas enquanto deito no seu peito antes de dormir. Quando me avisa discretamente que a rúcula do almoço agora adorna meu sorriso; quando pergunta se tomei o remédio, se agendei o médico. Se importa quando leva meu carro para a revisão e me deixa tomar conta do controle remoto da TV; quando lê o que escrevo e comenta entusiasmado...
Se importa quando me permite te amar do meu jeito, nem sempre certo, nem sempre fácil...
Quando conhece meus limites_ além do que eu mesma conheço_ e me protege de mim mesma...
Quando não me deixa mesmo quando estou prestes a me deixar...

 "E assim, no teu corpo eu fui chuva; ... jeito bom de se encontrar!
  E assim, no teu gosto eu fui chuva; ... jeito bom de se deixar viver!"

À você_ meu aconchego, abraço macio e amor verdadeiro_ parabéns pelo seu aniversário, felicidades sempre !!!!










O tempo traz a poda

 A poda é necessária para a planta se fortalecer e equilibrar _ o luto ensina e amadurece.

 Ensina que existe tempo para tudo, e que alguns ramos irão se soltar durante a vida, modificando o vigor da espécie;
 Ensina que os mais fortes são aqueles que se adaptam_ justamente como dizia Darwin;
 Ensina que alguns galhos são supérfluos, ainda que não haja compreensão no momento;
 Ensina a modificarmos nossa tendência de produzir mais folhagem que frutos_ a buscarmos novas alternativas, ter coragem, humildade.

 Enquanto tivermos sorte, permanecermos jovens, belos e bem nascidos o acaso nos protegerá, mas permaneceremos mais selvagens_ folhagem e vegetação.

 E não descobriremos quem realmente somos.

 O tempo traz a poda. E a cada tesourada descobrimos que algumas feridas nunca se curam e você terá que se ajustar a uma forma de vida completamente nova.

 Mesmo que seu coração tenha sido quebrado em mil pedaços, uma hora você perceberá que é capaz de amar de novo e, se tiver sorte, amará melhor.

 Já perdi amigos, me separei de pessoas insubstituíveis, sofri decepções absurdas, descobri que ninguém é perfeito. Fui feliz, me atirei de cabeça, confiei demais, me frustrei na mesma proporção, tive dúvidas, morri de arrependimento.
 Fui podada pela vida, aparada em minhas arestas, corrigida em minhas estruturas. Descobri novos arranjos, me equilibrei com as perdas e decepções, formulei novos caminhos. Aprendi que continuamente sofremos um processo de renovação natural _ como as plantas. Faz parte da vida, do processo de nos tornarmos melhores com o tempo, extraindo os ramos ruins e mantendo os bons...

 Aprendendo a perdoar, a pedir perdão; a entender que o tempo leva pessoas especiais e deixa algumas nem tão perfeitas assim; que o coração é capaz de amar de novo, mas antes deve permitir-se chorar e enterrar o amor antigo bem fundo para que ele não ressuscite de tempos em tempos; aprendendo a valorizar o presente, a entender que tudo é passageiro_os bons e maus momentos; aprendendo que algumas pessoas simplesmente não percebem o mundo como você, e que isso não as torna mais cruéis. Aprendendo a ter compaixão, a separar seus medos antigos dos atuais.

 O tempo molda as pessoas de formas diferentes, e alguns endurecerão ainda mais com o passar dos anos. Nem todo mundo aprende, não importa quantos tombos leve. E você não pode basear sua vida por essas pessoas.

 A vida é muito curta e o roteiro só depende de você. É assim que você se mantém vivo. Quando dói a ponto de não dar pra respirar, é assim que você sobrevive. Decidindo ser melhor a cada dia, se permitindo chorar, se autorizando ter raiva, se justificando por estar sem forças. Mas ainda assim acreditando que uma hora, de alguma maneira que seria impossível, você não se sentirá assim. Não vai doer tanto...

                                                                                                                            FABÍOLA SIMÕES









A disponibilidade do amor




Talvez o amor o encontre imaturo, lutando por um lugar no mundo, buscando seus projetos profissionais, seu reconhecimento como homem, seu crescimento financeiro. Diante do mundo que começa florescer, como dar conta da vida que irrompe, invadindo a madrugada e os dias, com suas cólicas, necessidades de amparo, afeto e proteção?

 O amor de um pai pode não estar disponível, permanecendo anos e vidas em modo de espera, aguardando a diminuição do compasso para enfim florescer de verdade. Mas filhos não são presentes à espera da noite de Natal. Filhos crescem independente da disposição para o amor. E enquanto a vida se desenrola, um hiato de incertezas se consolida.

 Pode ser que o amor se torne disponível tarde da noite, quando as festas de aniversário e comemorações da escola não passem de fotos amarelas no porta retrato da sala. E você perceba que esteve distraído enquanto conduzia o carro a caminho do ballet; desatento, quando seu pequeno o desenhava maior que o mundo e pouco a pouco descobria que você já não era tão grande assim; estressado com tempo e dinheiro enquanto a bola rolava sozinha no quintal.

 Crianças não esperam a disponibilidade e disposição para o amor.

 Adultos, podem encontrar disponível aquele amor que tanto careciam ; e nunca será tarde demais para recomeçar _ ainda que de trás pra frente...

 Segue o trailer do filme "Estão todos bem", com Robert de Niro.
 Aos filhos e pais crescidos, fica a dica para assistirem ao filme e se inspirar!
 Ao meu pai, meu amor...sempre!

                                                                  FELIZ DIA DOS PAIS!!!





ENLOUCRESÇA



 Já fui complicada. Quer dizer, BEeeem complicada... Atualmente só complicadinha, principalmente naquela fase difícil do mês...TPM. Mas fora isso tenho tentado complicar menos e ser cada vez menos perfeitinha.

 Outro dia no programa "Saia Justa" a Teté Ribeiro descomplicou dizendo mais ou menos assim: "engole, digere e expele". E tenho adotado esse mantra prás dificuldades e tombos. Porque somos muito mimados. Diante dos problemas preferimos dramatizar como se a vida fosse novela. Mas o fato é que nada é facinho, facinho... e a gente tem que aguentar sim, senão não vive. Sem negar os fatos_ porque negar é o mesmo que complicar_ a gente tem que engolir, igual remédio amargo... e bola prá frente sem draminha.

 Porque a gente amadurece, ou mehor, envelhece. E à medida que vêem as ruguinhas e os cabelos brancos, as complicações têm que diminuir também, senão não sobra nada de bom...

 Meu sogrinho tem 82 anos. E resolveu descomplicar. No carnaval vestiu-se de monstro_  máscara nojenta, capa e luvas de borracha_ e saiu sozinho com uma garrafinha de água disfarçada de pinga prá zoar o pessoal do baile da terceira idade. Se divertiu horrores, depois trocou-se e retornou ao baile fingindo não saber de nada... Parecia louco, mas nunca teve tanto juízo.

 Picasso já dizia: "Leva-se muito tempo para ser jovem"... porque quando a gente é mais novo adora "sarna prá se coçar" : a roupa não combina, o telefone não toca, o cabelo não fica bom, a unha quebrou. Parece que tudo é motivo prá chilique, uma neura desgraçada, o fim do mundo.

E daí que tá todo mundo olhando? E daí que vão falar que você enlouqueceu? E daí que vão dizer que você é melosa, brega ou tem cabelo ruim? E daí que já passou da idade para aprender a dançar, conhecer o grande amor ou pular de paraquedas? E daí ? ...

 Depois que a gente passa por uns perrengues verdadeiros, uns "presta atenção" prá valer, pára de se apegar às pequenas desgracinhas cotidianas e manuais de etiqueta sem graça.

 E descobrimos que bom mesmo é morrer de amor. Amor pelo Jude Law, pela Natalie Portman, pelo novo filme do Woody Allen, por um livro impossível de largar, pelo cheirinho do filho, por uma taça de vinho numa noite chuvosa, pelo momento antes de dormir aconchegada nos braços de quem se ama... Amor pelo momento presente_ é isso.

 Como no poema de Drummond:
 "Ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança...Saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada... Enlou-cresça!"

 Desejo_ a exemplo de Victor Hugo _ que você aprenda a se divertir mais e complicar menos. E que vivendo, possa morrer de amor...