O Tempo da Delicadeza

 (Texto também publicado no jornal "A Folha de São Carlos",edição no. 13.736, 26/10/2012, pág 02) 

                "Pretendo descobrir no último momento um tempo que refaz o que desfez..."




_"Você acredita que nosso amor é capaz de fazer milagres?"
_"Claro, é ele que traz você de volta pra mim todos os dias..."

(Do filme "O Diário de uma Paixão")








 Gosto muito de livros e filmes que retratam recomeços. Deve ser porque lá no fundo a gente esteja sempre recomeçando, mesmo que não perceba.
 Todos os dias estamos fazendo escolhas, decidindo voltar para casa, para os braços de quem amamos, para a vida que vivemos.

 Escolher o mesmo amor todos os dias é um milagre.
 Porque todo afeto é feito de pessoas. E pessoas são incompletas e imperfeitas _ o amor também.
 Tem gente que imagina o amor como solução. Não entendeu que amor é construção.

 Existe um tempo em que o amor amadurece. Chico Buarque chamou esse tempo de "Tempo da Delicadeza", e definiu lindamente como o "tempo que refaz o que desfez".

 Não importa de que matéria é feito seu amor. Você nunca poderá controlar ou evitar que algumas lascas ou rachaduras aconteçam durante o percurso. E quando isso ocorrer, você terá duas opções: partir ou permanecer.

 E é nessa hora, no instante em que você decide ficar, que o amor cria raízes. É nessa hora que você entende que entrou no "Tempo da Delicadeza" e terá que refazer o que foi desfeito_ de que forma for.

 Ter que escolher talvez diga mais sobre você do que não ter que fazer escolha alguma.

 Quando você descobre a razão que te faz permanecer, você começa a decifrar os motivos que te ligam àquela pessoa. Aquilo que faz o amor ser suficiente para você querer voltar para casa todos os dias.

 E são essas novas razões que justificam e validam aquelas outras, antigas... pelas quais seu coração se apaixonou. Pois agora você já não enxerga apenas beleza; você percebe os defeitos e tem consciência das lascas.

 Então você entende de fato o que são "promessas matrimoniais", muito além de "na alegria e na tristeza até que a morte nos separe".

 Permanecer na estabilidade diante das provações do tempo é aceitar o amor como um emaranhado de angústias, intimidade e gentilezas. É compreender a contradição que existe no que gera prazer e dor. É ser paciente com o tempo de esperas, em que o amor atravessa o deserto do tédio e da rotina. É acreditar que ainda há o que se esperar mesmo quando esgotaram-se todas as possibilidades.

 É entender que ninguém completa ninguém. O copo que está pela metade permanecerá meio vazio. O amor vem dar sabor, mas não tem vocação de plenitude.

 O amor moldado pelo tempo ensina. Mas você tem que se permitir vivenciá-lo.

 Tem que serenizar a alma e renovar os votos_ acreditando no tempo que refaz o que desfez...
                                                                                                                               
                                                                                                                              FABÍOLA SIMÕES









6 comentários :

  1. que lindo. sem palavras!

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  2. Muito lindo, parabéns, q delicadeza ao escrever !!



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  3. Hum... lindo, lindo!

    Parabéns!

    Um abraço.

    Pedro Antônio

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  4. O único perigo é qdo sempre acreditamos que o outro dia será diferente pois esquecemos de considerar a vontade do outro. Permanecemos infelizes, muitas vezes, ao ficar... É preciso saber também a hora de sair.

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