"Estou nas palavras, mas estou, sobretudo, nas entrelinhas..."

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A gente tem que continuar...


 Algumas séries me fisgam pelas beiradas. São frases, ditas no meio de um episódio, que me levam a refletir os últimos acontecimentos de minha vida, e de repente estou apaixonada pelas personagens, feito a Teresa, de "Três Teresas", na noite de ontem. Lá pelas tantas, a frase: "O mundo da gente começa a morrer antes da gente... e a gente tem que continuar..." _ Pronto. Foi a deixa para meu pensamento voar, entender alguns desencaixes, suportar certas partidas, colocar algumas peças no lugar.

 A gente tem que continuar mesmo depois que o arroz queima, a água seca, o vinho entorna. A gente continua depois de descobrir que os defeitos pioram com a idade e as qualidades viram hábito no dia a dia. A gente tem que continuar depois do luto, da partida, da despedida. das horas frias, do caminho incerto. A gente continua e aprende a cantar "apesar de você, amanhã há de ser outro dia..." para o amor que não deu certo, para as falhas recorrentes. para nós mesmos que nem sempre somos aqueles que gostaríamos de ser. Apesar de nós mesmos, de nossas fissuras e desencantos, a gente tem que continuar...

 E aprendemos que ter que continuar é muito mais que traçar um caminho que justifique nossa esperança por dias melhores. É saber deixar pra trás com sabedoria, entendendo que a vida é constituída de muitas histórias, e que finalizar um capítulo não significa dar fim ao que somos. 

 O mundo da gente começa a morrer antes da gente, e aceitar nossa responsabilidade em deixar o mundo se modificar, se despedir ou se transformar requer coragem. Coragem de romper com modelos antigos do que fomos e assumir com maturidade novas versões _ muitas vezes melhores _ de nós mesmos. 

 De vez em quando nos habituamos a antigos nós. Preferimos a dificuldade do que é conhecido à facilidade de novos e perfeitos voos. Desdenhamos a felicidade como quem se empenha em ser infeliz e construímos muros a nos proteger da vida que chega trazendo ares de esperança e novidade. Preferimos nos refugiar no que é conhecido, e nem sempre melhor. 

 Muita esperança chega junto ao fim de ano e a promessa de novos dias, limpinhos, pra gente escrever a história da melhor maneira que puder. Talvez precisemos aprender a aceitar as novas realidades que inevitavelmente ocorrerão. 
 Haverá a mãe que terá que se adaptar ao fim da licença maternidade, a adolescente que verá seu namoro ruir, o homem que receberá o pedido de divórcio numa manhã aparentemente comum, a senhorinha que vai enviuvar, os pais que levarão seu menino ao aeroporto para fazer intercâmbio, a menina que verá o fim da infância num teste de gravidez, a decepção do jovem, o casamento da moça dos sonhos, o ninho vazio, as novas dores da maturidade, a traição, o recomeço, a renegociação com a vida.

 Talvez seja isso. Aprender a renegociar com a vida, descobrindo que novas portas estão sendo abertas, mesmo que haja a tendência de nos fixarmos em cadeados fechados. O mundo da gente começa a morrer antes da gente, mas o futuro também guarda boas surpresas, e o que se pode chamar de "nosso mundo" não existe só no passado, mas na realidade que construímos diariamente e somente nós podemos lapidar. 

 A gente tem que continuar. Que 2015 traga o reconhecimento de nossos presentes, dádivas reais que permanecem além da morte de nosso mundo ou de um tempo. O que ninguém nos tira: a capacidade de nos recriarmos em qualquer tempo. A alegria de nos percebermos resistindo, apesar de tudo. A satisfação de percebermos nossa coragem. E finalmente, a paz de nos aceitarmos por inteiro.

                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES

 Imagem: Via pinterest, por Edouard Boubat


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Papéis amassados


 Estou lendo  "O irmão alemão", livro de Chico Buarque que mistura realidade e ficção numa obra em que relata a busca pelo paradeiro de Sergio Ernst, o irmão que só viria saber da existência aos vinte e dois anos, numa conversa trivial com Manuel Bandeira, em 1967.

 Chico nunca chegou a conhecer tal irmão, que passou a vida toda fora do país e chegou a estar sob poder dos nazistas. Porém, isso não diminuiu a inquietação e o desejo de reencontrar aquele que, através da ausência, existiu permanentemente presente dentro dele e de seu pai.

 Em uma das passagens do livro, o autor revela: "Pois ainda que meu pai aprenda todas as línguas e devore todas as bibliotecas do mundo, talvez seja incapaz de concluir a grande obra da sua vida enquanto não suprir essa pequena ignorância dentro dele..."

 E entendemos que algumas falhas, ignorâncias e ausências ecoam mais alto que aquilo que é resolvido e escancarado.
 Alguns acontecimentos podem sobreviver feito bolas de papel amassadas, guardadas num canto de nós mesmos. Resistem ao tempo, às profundidades, às perdas e recomeços. Continuam ali, esperando serem abertos e desamassados feito folha de jornal que guarda a manchete bem no centro.

 Quando Sergio Buarque de Holanda, pai de Chico, desejou manter esse segredo, certamente anulou uma parte de si mesmo, transformando a existência desse filho _ concebido antes de seu casamento_ em uma grande bola de papel amassada.
  Chico dedica seu livro "Para Sergios". E eu dedico esse texto àqueles que já se sentiram um pouco como Sérgio-pai. Para aqueles que não souberam o que fazer com o amor que poderiam ter dado e recebido, com as lembranças que poderiam ter sido construídas, com a vida que poderiam ter vivido e anularam dentro de si.

 De quantos papéis amassados foram feitas as ausências e despedidas, as reservas e os avessos da vida que não se viveu?

 Quando você disse que não tinha nada mais a declarar, fiquei confusa ao perceber que seu semblante revelava aquela conhecida contradição interior. E constatei que estava novamente voltando para aquele lugar, para a biblioteca que construiu feito muros a lhe blindar.
 Uma parte de mim se entristeceu ao perceber que já não podia mais lhe ajudar. Eu bem que quis. Tentei pegar aquela bola de papel que você tanto comprime dentro do peito e desamassar devagarinho, com cuidado para não lhe machucar demais. Mas você não deixou.
 Você cuida de suas feridas da mesma forma que zela por seu bem estar. Vela por elas dia e noite para que nunca ventilem. Descobriu que pode criar espaços para a dor também, e é nesse espaço que nunca deixa ninguém chegar.

 Mas ninguém pode atravessar os caminhos que são seus no seu lugar. Algumas rotas são só nossas, e as chaves que abrem nossos recintos, também. Cabe a cada um dar sentido às suas bolas de papel amassado. 

 Lidar com aquilo que recusamos por tanto tempo pode ser assustador. Requer a coragem de conhecer-se profundamente, e isso pode ser doloroso também. Porém, ao final conseguiremos não somente ter tomado consciência de quem somos realmente, mas ter sim nossas folhas de papel finalmente passadas a limpo...

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

Obs: No rodapé do blog há uma observação sobre as imagens que uso para ilustrar os textos. Não sei a autoria da maioria delas, apenas busco no google, tumblr ou pinterest. Essa eu achei no google. Se você for dono de alguma dessas imagens, por favor entre em contato comigo que faço referência ao seu trabalho. Obrigada! 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Presentes

 Outro dia, distraída pela tevê, assisti a um episódio de "Três Terezas", seriado do GNT. Não lembro o título da história, mas era sobre o aniversário de dezoito anos da Tereza mais nova, filha e neta das outras duas Terezas. O episódio inteiro girou em torno da mesa de café da manhã e a reciclagem de vivências e histórias das Terezas mais velhas ao lembrarem os fatos ocorridos quando elas mesmas tinham dezoito anos. Houve troca de presentes, e a mãe deu a primeira página de jornal _ do dia do nascimento da filha _ enquadrada como lembrança. Tereza mais nova não gostou, achou histórico demais e preferiu o vestidinho que ganhou de Tereza avó. Mesmo não sendo seu estilo, o vestidinho tinha valor, pois fora feito pelas mãos da matriarca.
 Porém, ao relembrarem as boas histórias em volta do bolo de café da manhã, resolveram pegar os diários de Tereza mãe. Ao permitir à filha ouvir a leitura da página em que contava o dia em que fez dezoito anos, Tereza mãe comoveu a todos em volta da mesa e ao final foi abraçada pela filha, que disse ter sido aquele seu melhor presente de aniversário.

 Então resolvi pensar nos presentes que virão com o Natal que se aproxima, e me entristeci ao perceber que minha lista contém encomendas, não presentes.
 E recordei um texto de Martha Medeiros, que se chamava "O melhor presente". Nele, ela dizia que "o melhor presente que podemos oferecer a alguém é um acréscimo de vida. Podemos fazer isso dando uma dica de livro, uma dica de música, uma dica de lugar para conhecer, uma dica de programa de tevê que foge da mesmice, enfim, tornar a vida do outro mais rica através de ideias e de emoções".

 E hoje, chegando para trabalhar, minha mãe me telefona com a voz embargada. É ela e o Peninha, do outro lado da linha. Me pede para esperar um instante e aumenta o som. Segue o refrão: "Mas não tem revolta não, só quero que você se encontre, saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio, a esperança é um dom, que eu tenho em mimmmm..." e eu entendo o que ela quer dizer, pois já me contou essa história inúmeras vezes. Ela diz que a música me traz de volta pequena, aos três anos, em Uberaba. Que tocava na tevê e eu corria para chamá-la pois sabia que ela gostava. E dizia: "Mamãe, é o Peninha! É o Peninha!"
 De repente fico muda com o presente inesperado numa tarde de Centro de Saúde. E sei que não posso falar, pois no trabalho a gente tem que manter a postura, e qualquer lágrima soa como deslize. Desligamos o telefone e penso que já ganhei meu presente, só por sermos 'Duas Simões' que têm uma vida inteira juntas, partilhando desde aquela letra do Peninha num tempo distante até as aulas de pilates nos dias de hoje.

 E se acabo de constatar que minha lista de presentes para o Natal anda materialista demais, com muito mais encomendas que presentes, como o mocassim pra minha mãe e o traje esportivo para o marido, busco agora repensar minhas escolhas e oferecer a vocês, leitores do blog, uma lista com minhas dicas de livros, músicas, filmes, programas de tevê, seriados, viagens... enfim, como disse Martha Medeiros, um presente que traga algum acréscimo de vida.

 Um livro:

 Os livros fazem parte da minha vida desde muito cedo, e por isso essa é uma categoria em que não posso indicar apenas um exemplar.
 Começando lá atrás, em minhas primeiras leituras na infância, indico dois livros para a garotada na faixa dos dez anos, um pouco mais, um pouco menos, ou adultos que ainda se emocionam com boas histórias.

 O primeiro é "Bisa Bia, Bisa Bel", de Ana Maria Machado. que conta a história da menina Isabel, que um dia encontra uma foto de sua bisavó Bel. A partir daí ela inicia uma relação de muitas descobertas com essa pessoa tão importante na vida de sua família e dela própria. Ana Maria Machado conta que escreveu esse livro pela saudade que sentia das avós e queria contar sobre elas para os filhos. Não imaginou que fosse fazer tanto sucesso, chegando a ser considerado um dos dez mais importantes livros infantis do Brasil.

 Outro livro da minha infância é "A bolsa amarela", de Lygia Bojunga. Esse livro marcou minha pré adolescência, pois me identifiquei demais com a história da menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades ( que ela esconde numa bolsa amarela): a vontade de ser gente grande, a de ter nascido menino e a de se tornar escritora. A partir dessa revelação, essa menina sensível e imaginativa ( igualzinha a menina que eu era!) nos conta o seu dia a dia, juntando o mundo real da família ao mundo criado por sua imaginação fértil. Ao mesmo tempo que se sucedem episódios reais e fantásticos, a menina segue rumo à sua afirmação como pessoa.

 Mais velha, ganhei de presente do meu pai "Minha vida de menina", de Helena Morley. Se tornou um dos meus preferidos por ser um diário, de uma garota do final do século XIX, e narrar histórias do cotidiano de forma simples e bem humorada.

 Adulta, posso citar alguns livros que se tornaram meus preferidos, apesar da lista só crescer.
 _ "Médico de homens e de almas", de Taylor Caldwell. Narra a história de São Lucas, médico que escreveu um dos evangelhos, e emociona por nos aproximar da humanidade de Deus.
 _ "O apanhador no campo de centeio", de J.D. Salinger. É um clássico, voltado para adolescentes, sobre os pensamentos e experiências vividas por um garoto de 16 anos. Gostei muito, ri bastante, uma parte de mim se identificou também.
 _ "O sentido de um fim", de Julian Barnes. Já falei desse livro aqui no blog, num post de mesmo nome, link aqui. O livro me fisgou por abordar o tempo numa elaborada reflexão sobre o envelhecimento, a memória e o remorso.
 _ "Espere a primavera Bandini" e "1933 foi um ano ruim", ambos de John Fante. Sensíveis, delicados, humanos. Narram as dificuldades e impossibilidades da vida humana de forma sensível e poética. Me marcaram bastante e o autor tornou-se um dos meus favoritos.
 _"Complexo de Portnoy" , "Patrimônio", "O animal agonizante", "Indignação", todos de Phillip Roth, um dos meus autores preferidos também. Gosto da forma como ele se comunica, e passa ao leitor a sinceridade das emoções.
 _ "Noites azuis" e "O ano do pensamento mágico", de Joan Didion. São livros biográficos, em que a autora narra sua existência a partir de uma tragédia: a morte do marido durante o jantar e a morte de sua única filha de uma doença misteriosa. "Noites azuis" é a continuação de "O ano do pensamento mágico" e ambos são muito bons, ao abordar as lembranças com delicadeza, apesar de toda dor. Adquiri os livros após ler uma indicação num texto da jornalista Eliane Brum. Quem tiver interesse, segue o link.
 Esses dois livros me lembraram "Paula", de Isabel Allende, outro livro que me comoveu bastante.
 _ "A soma dos dias", de Isabel Allende. Também é uma biografia, em que a autora narra uma fase de sua vida, após perdas e sofrimentos, com grandes ensinamentos.
 _ "A menina quebrada", livro de crônicas de Eliane Brum. Foi o melhor livro de crônicas que já li, com variedade de assuntos, profundidade e muita poesia e sensibilidade. Me inspirou muito.

 Um filme:
Ficará na minha lembrança para sempre "Era uma vez na América", filme de 1984 com Robert de Niro. Assistam!

 Uma música:
 Difícil escolher uma, mas fico com "João e Maria" do Chico Buarque; "Luiza" de Tom Jobim; "Giz" de Renato Russo (na verdade ficaria com todas de Renato Russo); "O que se quer", de Marisa Monte ( também ficaria com todas); "Fidelity", de Regina Spektor; U2; Coldplay; etc

 Um seriado:
 Adoro "Anos incríveis", seriado que era exibido pela TV Cultura há alguns anos e que consegui comprar na íntegra pelo Mercado Livre. Recomendo.
 Atualmente continuo seguindo Grey's Anatomy, adoro!

 Uma viagem:
 Não fui mochileira, não fiz intercâmbio, viajei pouco com meus pais. Tenho viajado mais agora, adulta e casada. Mas acredito que para uma viagem se tornar inesquecível, ela tem que acrescentar mais que descanso, sossego e paz. Tem que agregar conhecimento, prazer, descobertas _ não somente dos lugares, mas principalmente de si mesmo; mudança de ares e de humor; quebra da rotina; alguma aventura; um olhar diferente para a vida que se tem e que se quer ter.
 Não sou uma pessoa consumista, por isso fugiria de destinos com o único propósito de gastar. Nunca fui a Nova York mas adorei a Disney esse ano. Também gostei de Buenos Aires e do Chile, apesar de ter me dado muito mal com esqui. No Brasil fico com Noronha e Bonito, dois destinos para os quais quero voltar.

 Bom, acho que é isso. Espero ter agregado algum conhecimento com minhas dicas. E se vale uma sugestão, que tal presentear aquela tia, prima, pai, mãe, amigos, filho, sobrinho... com um dos livros que indiquei, ou um CD bacana, um DVD diferente ou mesmo o livro de viagens da Martha Medeiros ou Danusa Leão.

 ... Hoje, ao me despedir do meu filho para trabalhar, vi suas mãozinhas formarem um coração com os dedos atrás da janela enquanto meu carro afastava da garagem. Terminando de contornar o condomínio, meu pequeno me surpreende mais uma vez, cortando caminho pela grama e indo me reencontrar na saída do portão. Ganho um abraço de urso e agradeço a Deus meu mais valioso presente.

 E vou descobrindo que a Tereza mais nova tinha razão: os melhores presentes são aqueles que comovem mais. Não precisa ser o mais caro, mas aquele que chega na hora certa, e encaixa da maneira exata. Pode ser um abraço _ melhor que mil palavras quando se quer dizer "estamos juntos nessa"; uma música no meio da tarde pra lembrar alguma conexão do passado; um cartão cheio de coraçãozinhos pintados a canetinha; uma foto antiga emoldurada; um pendrive cheio de filmes inéditos; um livro emocionante; uma dica de viagem; um CD original.

 Se chegou até o final desse post, agora desafio você. Deixe aqui nos comentários dicas de livros, filmes, músicas e viagens. Para que possa inspirar outras pessoas também. Para que, de alguma maneira, possa presentear a todos que por aqui passarem.
 Obrigada!
               
                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

domingo, 30 de novembro de 2014

Flores em você

 Essa semana faltou-me inspiração. É claro que aconteceram coisas demais, o trabalho no Centro de Saúde que não pára, as demandas da aula de inglês do filhote, reuniões na escola, aniversário dos sobrinhos, rotina, trânsito, pacientes...

 E no meio disso tudo, a gente até se assusta com os sorrisos, com a simpatia, com os sinais de gentileza pelo caminho.

 Saindo do apartamento da minha mãe na sexta feira, encontro um casal simpático no elevador.
 Em tempos em que um 'boa tarde' é mais que suficiente para as relações num elevador, se deparar com sorrisos amistosos de desconhecidos, perguntando se você vai bem (insistindo nos sorrisos) soa estranho, até desajeitado para seres tímidos como eu.
 Minha mãe mora no terceiro andar, de forma que até o térreo é um pulinho, e nesse intervalo continuei percebendo os olhares do casal simpático, até que ouvi a frase: "Bonita flor no cabelo!".
 Então lembrei. Meu sobrinho de quatro anos havia me dado uma flor grande, natural, minutos antes. Não resisti e fiz uma graça para ele colocando-a no cabelo. Tinha esquecido de retirar.
 Sem jeito, puxei a flor pelo cabinho e sorri cabisbaixa. O mocinho, insistente, continuou simpático: 'Estava bonito... não devia ter comentado, assim você continuava florida...' e eu ali, mantendo firme meu 'risinho - de - timidez - paralisante' até que _ ufa! _ chegamos ao térreo. Voltei pra casa com a historinha trazendo um tanto de poesia ( e simpatia) para o fim daquele dia comum, numa semana extremamente comum, num mês avassaladoramente comum.

 Então hoje é domingo e ontem foi a festinha de um ano da minha sobrinha. Viajamos para São Paulo, nos atrasamos um pouco no trânsito ( São Paulo está ficando difícil de trafegar até no sábado à tarde!) e reencontramos boa parte da família que não se vê todo dia.

 E domingo chegou cheio de confetes coloridos e jujubas por toda a casa. Apesar de colorido, amanhã é segunda novamente. Sem brechas, sem feriados, apenas com a promessa das férias chegando e dos dias que teremos que reinventar, nem que seja com uma flor no cabelo, para poder suportar.

 E mesmo que me falte inspiração, ainda haverão pequenas anedotas para eu relatar aqui. Com flores no cabelo ou não, a vida nem sempre poderá ser contada de forma poética.
 A rotina nos engole sem rodeios, e em algum momento nos sentimos desajustados e desanimados também. Mas aprendi que são ciclos. Tempo de espera, paciência e momentos de florir e transbordar.

 Naquela sexta feira, eu voltava pra casa num trânsito infernal, por isso resolvi parar no apartamento da minha mãe. Mal sabia que sairia dali florida, no sentido mais literal da palavra. E que talvez fosse esse o empurrãozinho que me faltava para entender que posso sim, aceitar os pequenos incidentes como parte do grande todo também. Que quando uma segunda feira desponta, ela traz um monte de responsabilidades , mas agrega também infinitas possibilidades...

 Que venha a semana, que traga dezembro, que hajam flores, que exista poesia. E se faltar inspiração, que a gente possa aceitar também, pois a história é feita de desafios e incertezas, avanços e recuos, invernos e primaveras, desfalecer e florescer...

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Interestelar

 
  Quarta à noite, véspera de feriado em Campinas, inauguramos um novo tempo aqui em casa e levamos o baixinho para nos acompanhar ao cinema num filme voltado para maiores de dez anos. Apesar dele só ter oito, conseguiu acompanhar as três horas de filme legendado e muito emocionante.
  Por ser uma raridade em tempos que só assistimos animações da DreamWorks, quis vir falar do filme aqui para vocês.
 
 É certo que não vou entrar em pormenores, nem relatar o final, mas como geralmente o que me cativa em qualquer história é o lado humano, é nele que vou focar.

 O filme conta a história de um agricultor, ex piloto de testes da NASA, viúvo, pai de dois filhos, que se vê num dilema: aceitar embarcar numa missão espacial ou não. O maior desafio, porém, está na passagem do tempo. Enquanto para os filhos o tempo transcorrerá normal, hora após hora, ano após ano... para o pai, no espaço, o tempo transcorrerá mais devagar, no compasso de alguns minutos. 
 Num dos momentos, durante a visita a um planeta fictício, os astronautas se atrasam alguns minutos, e com isso perdem vinte e quatro anos no tempo da Terra. Para o pai, tempo precioso ao perceber que perdeu a infância dos filhos.

 Enquanto o filho mais velho envelhece diante da tela do computador, enviando mensagens periódicas ao pai, a filha mais nova, ressentida da partida de seu grande herói, se recusa a enviar mensagens. Até o dia em que percebe que ela e o pai estão muito mais ligados do que poderiam supôr.

 Enfim, entre suspense e lágrimas, reconheci um pouquinho de minha humanidade ali. E por isso me comovi diante da história do pai que perde a linha condutora da vida de seus filhos. De afetos que se perdem pelo caminho, como se o tempo corresse diferente para cada um.

 Sempre imaginamos que teremos mais tempo. Que podemos deixar para depois certas ações, que elas se concretizarão naturalmente, dentro do nosso tempo. Porém, nem sempre o nosso tempo é o tempo que está reservado para nós. E é muita pretensão acreditar que podemos prorrogar nossos passos ou adiantar nossos desejos só porque acreditamos que domamos os relógios da vida e dos acontecimentos. 

 Cooper, personagem central de Interestelar, acreditava que ainda teria tempo de sair em missão e voltar para seus filhos. Acreditava que ainda poderia acompanhar a infância de seus meninos e ser um bom pai. Porém, não é o que acontece ( não, eu não estou contando o final do filme). Infelizmente, para eles é tarde demais. 

 É devastador descobrir que chegamos tarde demais. Que deixamos pra depois o que nunca mais poderá ser realizado. Que adiamos nossas vidas em busca do momento perfeito ou da hora ideal, sem perceber que a vida acontecia no aqui e agora; sem se dar conta que o presente era precioso demais para simplesmente ter sido adiado pra depois. 

 Querendo ou não, tudo gira em torno de uma balança. E definir nossas prioridades ou escolhas se torna essencial para decidir aquilo que não queremos deixar para trás ou chegar atrasados demais. Inconcebível seria chegar tarde para a infância dos filhos, para o relacionamento de nossas vidas, para as chances improrrogáveis ou momentos perfeitos que ditarão a eternidade.

 Interestelar recusa a morte como recusa o fim de um tempo. Cooper, desejando salvar seus filhos _ e a humanidade _ do apocalipse que se aproxima, oferece-se para a missão _ a última chance de fazer aquilo que para ele é sua verdadeira vocação. Porém, ao perceber a velocidade com que o tempo passa para aqueles que ama, arrepende-se da empreitada e descobre que fez a escolha errada. Quer voltar, pois de nada adianta o tempo não passar para ele, se passa e leva embora aqueles que ama.

 Assim, não há remédio que cure a morte de um tempo. Podemos brincar de faz de conta, mas ainda assim, temos que nos adaptar e ajustar ao que resta de nós apesar das perdas e despedidas inerentes a qualquer vida.

 Interestelar é uma ficção que brinca com a ciência, mas acima de tudo fala de amor. Do sentimento que ainda move o homem e conduz suas ações.  Do que motiva alguém a buscar a escuridão _ o buraco negro _ para trazer luz à sua família. 

 Recusamos a morte e queremos que o amor nos salve da vida. Buscamos a escuridão desejando que ela nos traga alguma luz. Desafiamos o tempo almejando desperdiçá-lo e guardá-lo no mesmo instante; corremos riscos para nos sentirmos seguros; nos perdemos para nos encontrarmos. Percebemos enfim que o triunfo da vida está no amor, nem sempre claro, nem sempre explícito, mas ainda assim, real.

 Saí do cinema reconfortada por uma parte de mim ter sido acolhida naquela história. Uma parte de mim que se ressente das perdas, do que o tempo levou e não traz mais, das ausências, dos hiatos que se consolidaram com a distância. Porém, ainda acreditando no amor. Nessa força poderosa que nos torna homens. Que nos torna simplesmente e poderosamente... humanos.
 
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

 
 
 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Leitura do mundo


 Ontem um dos maiores poetas brasileiros faleceu. Manoel de Barros se foi aos 97 anos, deixando como legado sua poesia, seu olhar único sobre o mundo ( é dele a frase:  "há um comportamento de eternidade nos caramujos"), e sua forma nítida de ser e se renovar perante a existência.

 Fabrício Carpinejar, escritor e poeta, publicou um texto lindo em homenagem a Manoel de Barros e lá pelo final arremata: "Manoel de Barros afirmava que o verdadeiro conhecimento está na leitura do mundo".
 Tomei essa frase para mim, assim como grifei um dos poemas de Barros, que diz:
" A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou _ eu não aceito.
 Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva, etc, etc.
 Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.
 Eu penso renovar o homem usando borboletas".

 Somos a leitura que fazemos do mundo. E podemos ler delicadezas, miudezas, singelezas ou, ao contrário, aceitar o espetáculo do medo, da falta de esperança, da ausência de fé.
 Que possamos nos inspirar em Manoel de Barros e ouvir mais canto de passarinho que ronco de motor; acompanhar mais a marcha das lagartixas que notícias bombásticas na tevê; socorrer joaninhas em posição invertida no lugar de dar ouvidos a tanta previsão catastrófica por aí.

 O que sinto é que o mundo poderia nos encantar e nos tirar da mesmice se a gente se detivesse mais ao chão e ao céu que ao espaço intermediário entre esses dois.
 Se a gente aprendesse a importância dos quintais e dos gravetos, do cheiro de suor e terra molhada, bolo de areia e espuma de nuvem.

 Como dizia Manoel de Barros, "poesia é voar fora da asa". É sair da obviedade do seu mundo e viajar para outros espaços de si mesmo.
 Quando viajamos o tempo corre alterado. É que passamos a observar as entrelinhas dos lugares, alcançando suas profundezas.
 Talvez seja isso que nos falte: alcançar as profundidades da vida, desprezando e desbravando mais as próprias fronteiras que os abismos do lado de fora; descobrindo mais de seus mistérios e despropósitos que de suas resoluções e metas para o próximo ano; descobrindo-se mais poesia que poeta; mais ventania que alicerce; mais orvalho que temporal; mais aroma que perfume; mais sabor que paladar.

 Com o tempo a gente aprende: reinvenção é melhor que perfeição.

 E vamos descobrindo que é possível nos reinventarmos todo dia, fazendo nossa leitura do mundo da maneira mais bonita que soubermos, buscando nossas respostas no vazio ou no barulho do vento, na tristeza ou no desbordamento do sorriso.
 Ou então, feito menino de Manoel de Barros, o menino que queria carregar água na peneira e gostava mais do vazio que do cheio _ "falava que os vazios são maiores e até infinitos..." _ descobrindo que quem dá a dimensão para o mundo somos nós. Nós e nossa leitura do mundo, reciclando e renovando a cada dia, nem que seja "usando borboletas"...

                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES

domingo, 9 de novembro de 2014

O especial dos dias

 De vez em quando acontece. Um dia para ser lembrado por muitas outros dias, aumentando, diminuindo, avançando e rebobinando até que a mente se canse e a alma se satisfaça a menor lembrança de tudo que foi vivido.

 Ontem foi uma dessas noites. E senti-me abençoada e recompensada por ter sido escolhida para estar entre pessoas do bem, por uma causa nobre, numa festa onde artistas e crianças deficientes repartiam o mesmo espaço, oportunidades, possibilidades.

 E então a gente entende que a semana pode vir com tudo, que a gente já teve alegria suficiente para repartir por muitos dias; que de vez em quando a quebra da rotina nos torna melhores para cumprir com todo o resto, e que um excesso de realidade pode chocar, mas também nos ajuda a valorizar os milagres cotidianos.

 Deixei meu filho de oito anos em casa e estive bem perto de outras crianças, por volta da idade dele, todas com alguma deficiência. E não pude deixar de me colocar no lugar daquelas mães e famílias que estavam num momento de festa, de alegria, mas que também teriam sua volta à realidade assim que chegassem em casa. E penso que em algum lugar dentro daqueles pacientes, aquela era uma noite especial também; uma noite que poderá ser revisitada nas horas de desânimo e dor, quem sabe trazendo algum alívio, ou simplesmente paz.

 Quanto a mim, acordei com a sensação de ter sonhado. E acredito que mudei um pouquinho também. Por acreditar num mundo que ainda é solidário, em pessoas que seguem fazendo o bem, nem que seja doando cinco reais. E fico grata de ter feito parte desse time, sabendo que fui um grãozinho no meio daquela noite especial.

                                                                                                                              FABÍOLA SIMÕES