"Estou nas palavras, mas estou, sobretudo, nas entrelinhas..."

domingo, 25 de janeiro de 2015

O que aprendi com Anne Frank

 Vinte e sete anos. Foi essa distância que separou o tempo em que li "O Diário de Anne Frank" pela primeira vez _ aos treze anos _ e agora, em que releio com olhos amadurecidos e maior vivência do mundo. Naquela época eu também escrevia um diário e, a exemplo de Anne, apelidei-o de "Kitty". Porém, ainda não tinha vivido o suficiente para entender acerca das impossibilidades da vida humana e de que forma precisamos viver para que a existência adquira algum sentido.

 Para quem não conhece a história, o livro é a edição definitiva do diário da menina Anne Frank no período de 1942 a 1944, época em que tinha de treze a quinze anos de idade. No contexto do nazismo e da guerra, Anne, confinada no que chamou de "Anexo Secreto", experimenta e exterioriza, através da escrita, todos os sentimentos e conflitos inerentes à adolescência, que se tornam mais agudos e intensos por estarem, assim como ela, confinados e destinados a uma existência enclausurada, fugindo do terror da Segunda Guerra Mundial.

 Talvez eu não tivesse consciência aos treze mas, a exemplo de Anne, pude descobrir que escrever me salvaria de diversas formas. Essa foi a primeira _ e grande _ lição que o livro me trouxe. E de alguma forma, durante algum tempo, foi isso o que a salvou também. Por permitir extravasar seus temores e emoções, suas dúvidas e tristezas, sua raiva e desespero, seu amor e verdade interior. Ao recorrer às letras, Anne desaguou sua intensidade em palavras e pôde diminuir a dor dentro de si.

 A segunda lição foi descobrir que em algum lugar no mundo, num tempo distante do que vivemos e em circunstâncias completamente diferentes, uma menina sentia, experimentava e conseguia colocar em palavras toda a gama de sentimentos e contradições que o espírito humano é capaz de vivenciar. Ao se deparar com um mundo de impossibilidades, soube resistir dia a dia, do jeito que lhe era possível, da maneira mais verdadeira e coerente que alguém pode ser e viver.

 Ao contrário do que se poderia imaginar, Anne não fazia o tipo "menina- boazinha- e -obediente". Era tão humana e forte que, mesmo tão jovem, sabia se posicionar diante das pessoas e dos acontecimentos de forma por vezes agressiva e insolente, mas sempre alinhada com suas argumentações interiores. Essa foi outra lição que aprendi, ao perceber que de vez em quando torna-se primordial seguir nossa intuição ou fé, mesmo correndo o risco de, à primeira vista, não favorecer quem amamos. Nem sempre nossos caminhos ou escolhas estão de acordo com o que esperam de nós, mas isso não nos torna pessoas ruins. Querer viver com autenticidade tem um preço, mas os ganhos são inegavelmente favoráveis. Talvez Anne parecesse impaciente e teimosa, com um gênio difícil de controlar, mas como ela mesma revela, "apesar de rir e fingir que não me importo, eu me importo sim. Tem dias que gostaria de ser diferente, mas isso é impossível. Estou presa ao caráter com qual nasci, e mesmo assim tenho certeza de que não sou má pessoa. Faço o máximo para agradar a todos, mais do que eles suspeitariam em um milhão de anos". Não sei se caberiam mais palavras aqui, mas o fato é que me senti mais normal ao ler isso, perdoando minhas ranhuras e aceitando minhas defesas.

 Algumas pessoas ou fatos nos autorizam a viver com mais tolerância ao que somos e ao que carregamos dentro de nós. Descobrir que de vez em quando é normal nossos espinhos aflorarem e nossos fantasmas virem à tona nos apazigua e permite que enfim respiremos com mais leveza. Nem só de perfeição é feita nossa carne; carregamos dúvidas, contradições, melancolia e desesperança, mas isso não nos torna pessoas más. Quando reconhecemos nossas aparentes fraquezas no outro, descobrimos que somos feitos do mesmo tecido, incompletos e profundamente humanos.

 A quarta lição que aprendi com Anne foi referente ao sofrimento. Quando alguém está desiludido, desanimado ou triste, temos o péssimo costume de sugerir que essa pessoa pense no sofrimento dos outros, como se isso fosse diminuir sua própria dor. Quantas vezes não ouvi: "Pense nas pessoas que passam fome, etc, etc...". Para Anne, isso também era absurdo e desnecessário. Assim ela dizia: "Nesses momentos não penso no infortúnio, e sim na beleza que permanece. É nisso que eu e mamãe somos muito diferentes. Seu conselho diante da melancolia é: 'Pense em todo o sofrimento que há no mundo e agradeça por não fazer parte dele'. Meu conselho é: 'Saia, vá para o campo, aproveite o sol e tudo que a natureza tem para oferecer. Saia e tente recapturar a felicidade que há dentro de você; pense na beleza que há em você e em tudo ao seu redor, e seja feliz". 

 Finalmente, eu poderia falar sobre escolhas, resignação e capacidade de adaptação, mas talvez prefira limitar-me à esperança. Havia a guerra e a promessa de seu fim. Havia o "Anexo Secreto" e a confiança de que logo estariam livres dali. Havia o medo e a fé num futuro melhor. Em todas as situações, o que fez cada um resistir foi a esperança.
 A mesma esperança que nos guia dia a dia em busca de sentido para nossa existência.
 Precisamos acordar e simplesmente seguir em frente, e como resistir se não houver esperança? Como avançar nos planos, no encontro com a alegria, nas pequenas realizações rotineiras ou participações voluntárias na própria vida se não houver ao menos um pouco de expectativa?
 É a esperança que nos convida a agir, nos coloca em marcha ou garante que nossa luta diária não será em vão.

 E descobrimos, com Anne e sua esperança, que a liberdade não consiste num espaço _ fora do esconderijo ou longe do lugar onde nos encontramos_, mas sim numa forma de existir. Assim, mesmo confinada, ela descobriu que poderia ser livre ao reagir com fé num futuro melhor. Principalmente, que poderia ser livre através de sua caligrafia certeira e corajosa, acreditando firmemente que um dia suas memórias serviriam para outras gerações se inspirarem e viverem melhor.

 Sim, ela conseguiu.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

Imagem: Via pinterest, em artigo de Mental Floss













quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Júlia

 Há pouco mais de um ano escrevi um texto dando boas vindas à Laura, sua prima, que nascia numa manhã ensolarada como essa, trazendo a noção de que a nova geração de mulheres da família será sempre comparada a raios de sol.

 Depois do trabalho, com o qual revezo escrevendo este texto, irei conhecê-la e abraçar bem forte seu irmãozinho, que ainda cedo me ligou para contar que você lhe deu três novos 'gormits', monstrinhos que ele aprendeu a colecionar com o primo Bernardo, filho dessa tia que hoje lhe escreve. Ele ainda é muito novo para compreender, mas ter irmãos é sentir-se abraçado à distancia, acarinhado em pensamento, entendido na ausência.

 Como você irá perceber, somos uma grande família, irmãos, tios e primos que se querem bem e por vezes se desentendem com ou sem razão, mas acima de tudo com um carinho sem fim. Passamos por alegrias, vitórias e alguns revezes, mas aprendemos que quando deixamos as defesas serem rompidas, a gente consegue se ajudar mais.

 Por enquanto você se sentirá bem protegida e aninhada no braço forte de seu pai e na maciez do colo de sua mãe. Com o tempo, porém, aprenderá a dar os próprios passos, e mesmo com eles na retaguarda, descobrirá que é capaz de cair e se levantar, chorar e sorrir, machucar e se recuperar. Talvez sinta mais os tombos que os recomeços, e eu torço para que não endureça com excesso de zelo ou preocupações. Nessa vida a gente se blinda de diversas maneiras, mas aprender a afrouxar as defesas também nos torna pessoas mais leves e felizes.

 Pode ser que nada disso que eu escrevo faça sentido, seu espírito pode ser leve e descontraído como o de seu irmão, o menino que conta piadas ao telefone e sabe de cor o nome das amigas de sua avó. Do alto de seus cinco anos ele me ensina a não levar a vida tão a 'ferro e fogo', diminuindo a rigidez dos ombros e aumentando a curva dos lábios. Ser mãe é uma dádiva, mas ser tia é um privilégio.

 Como já disse à Laura, o que faz cada um ter uma boa vida é aprender a resistir com serenidade e fé. Porque por mais que a gente seja forte, alguns momentos nos desestabilizam por completo. E é nessas horas que você terá que se empenhar em resistir e suportar, descobrindo que possui dons e talentos que nem sabiam que existiam, mas que podem aflorar lindamente nas horas mais difíceis e necessárias. Talvez você goste de culinária, talvez se aperfeiçoe no ballet. Quem sabe goste de música, por acaso se arrisque no xadrez. Mas também pode ser que se inspire nos 'santos de casa' e pedale como seu pai; vibre com o tênis como sua mãe; cante e ore como vó Clau; corte, pinte e cole como vó Inês; experimente alguns pincéis como tio Léo, comece um diário como tia Fá. Não importam os meios, o importante é que encontre um meio, uma forma de existir que a faça realizada e feliz.

 Por fim, não se esqueça: as pessoas que nos querem bem por vezes nos ferem também. Machucam sem querer machucar, arrancam lágrimas sem querer arrancar. E isso muitas vezes está relacionado mais à vida delas que às nossas. E a gente vai ter que compreender, mesmo preferindo de outro jeito. Isso é amor também, sabe? Saber aceitar a vida do outro, que interfere tanto na vida da gente, mas que ainda assim, é outra vida. Cada um tem uma história, e ainda que muitos capítulos estejam entrelaçados de forma definitiva, cada pessoa carrega em si não somente aquilo que sai dos olhos ou da boca, mas muitas outras coisas que jamais conseguiremos supor por completo.

 Sendo assim Júlia, se ainda posso dar-lhe um conselho, aprenda a perdoar. Não somente aos outros, mas principalmente a si mesma. Não há ganho nenhum em reter arrependimentos ou culpa, mas procurar a reparação é essencial para se viver em paz. Perdoe, aceite, ame. Descubra o presente lindo que é a vida e tente trilhar sua história com coerência e autenticidade. Não perca a fé, ore, agradeça e recorra a Deus quando precisar. Porém, se ainda assim precisar de uma palavra amiga, conte sempre comigo.
 Tias têm a vantagem de não ter tanta censura quanto às mães, e podem ser boas ouvintes e conselheiras de vida e coração.

 Porém, lembre-se que podemos lhe ajudar nessa jornada, mas os pés que irão trilhar o caminho são só seus.
 Seja feliz!
 Bem vinda à vida!
 Com amor,
   
                                                                                                                         tia FABÍOLA SIMÕES

Créditos da imagem: Elena Shumilova









quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A vida acontece pra quem se arrisca

 Desde que comecei o blog, há dois anos, descobri que sou uma pessoa corajosa. Ao oferecer-me ao leitor, quase nua, em letras que traduzem minha vida e meu espírito, rompo uma barreira de juízos e precauções, e arrisco viver sem receio de tropeçar e cair, quase acreditando que posso ser melhor do que imagino.

 Habituamos a nos esconder. Preferimos as condenações aos vôos livres, e nos refugiamos numa vida segura e cheia de reservas. Nos reservamos o direito de calar, de pisar em terreno sólido e firme, de não correr riscos, de avançar dentro de um limite razoável. E esquecemos que o preço de tentar racionalizar tudo é viver pela metade, ignorando que a vida acontece e deve acontecer pra quem simplesmente se deixa em paz.

 Existe uma fábula que conta a história de uma galinha que vivia numa granja e se destacava entre todas as outras por seu espírito de aventura e ousadia. Não tinha limites e andava por onde queria. O dono, porém, estava aborrecido com ela. Suas atitudes estavam contagiando as outras, que já a estavam copiando.
 Um dia o dono fincou um bambu no meio do campo, e amarrou a galinha a ele com um barbante de dois metros. O mundo tão amplo que a ave tinha foi reduzido a exatamente onde o fio lhe permitia chegar. Ali, ciscando, comendo, dormindo, estabeleceu sua vida. De tanto andar nesse círculo, a grama dali foi desaparecendo. Era interessante ver delineado um círculo perfeito em volta dela. Do lado de fora onde a galinha não podia chegar, a grama verde; do lado de dentro, só terra.
 Depois de um tempo, o dono se compadeceu da ave pois ela, tão inquieta e audaciosa, era agora uma apática figura. Então a soltou.
 Agora estava livre! Mas, estranhamente, a galinha não ultrapassava o círculo que ela própria havia feito. Só ciscava dentro do seu limite imaginário. Olhava para o lado de fora mas não tinha coragem suficiente para se aventurar a ir até lá. E assim foi até o seu fim.

 De vez em quando agimos feito a galinha. Preferimos ciscar em nossa zona de conforto a ousar novos contornos. Nos amedrontamos diante de novas possibilidades e construímos círculos fechados onde podemos nos refugiar em segurança. Inventamos desculpas que nos convencem de nossa pouca habilidade e capacidade de sermos melhores ou mesmo diferentes, simplesmente porque não sabemos lidar com a quebra da rotina ou com a exploração de novos terrenos.

 É preciso uma boa dose de 'cara de pau' _ ou coragem de se expôr _ se quisermos existir de verdade. E recordo o candidato Tiririca, cuja falta de senso crítico o fez chegar onde desejava, ainda que sem preparo algum. Quantas pessoas  _ preparadas e cheias de talento _ deixam oportunidades passarem e sonhos serem arquivados simplesmente porque construíram círculos fechados em volta de si mesmos, com receio de expôr aquilo que realmente são, preferindo viver uma vida segura _ e limitada_ a viajar para novos espaços onde a grama é mais verde e o céu mais azul?

 2014 chega ao fim trazendo a promessa de novos dias pra gente escrever a história com sabedoria e jogo de cintura. Talvez seja a hora de nos percebermos capazes. De descobrirmos nossos talentos e aprendermos o poder da autoconfiança, sem subestimar nossos dons, mas aprendendo a usá-los com coragem, arriscando ser mais nós mesmos do que seríamos em nossos abrigos.

 Que em 2015 possamos nos deixar em paz. Que haja coragem de dar o primeiro passo, reconhecendo pouco a pouco que somos capazes de enfrentar os desafios sem medo dos tropeços que acontecem na vida de todos e de cada um. Que possamos romper a barreira do medo e da falta de esperança, descobrindo que também carregamos bençãos, dons que recebemos e poucas vezes temos a coragem de explorar. Que haja fé, esperança e otimismo, por um ano de menos desculpas e mais realizações...

 Feliz 2015!!!


                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

(Imagem: Via pinterest, por Topit.com)

                                                                                                                       





 

  


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A gente tem que continuar...


 Algumas séries me fisgam pelas beiradas. São frases, ditas no meio de um episódio, que me levam a refletir os últimos acontecimentos de minha vida, e de repente estou apaixonada pelas personagens, feito a Teresa, de "Três Teresas", na noite de ontem. Lá pelas tantas, a frase: "O mundo da gente começa a morrer antes da gente... e a gente tem que continuar..." _ Pronto. Foi a deixa para meu pensamento voar, entender alguns desencaixes, suportar certas partidas, colocar algumas peças no lugar.

 A gente tem que continuar mesmo depois que o arroz queima, a água seca, o vinho entorna. A gente continua depois de descobrir que os defeitos pioram com a idade e as qualidades viram hábito no dia a dia. A gente tem que continuar depois do luto, da partida, da despedida. das horas frias, do caminho incerto. A gente continua e aprende a cantar "apesar de você, amanhã há de ser outro dia..." para o amor que não deu certo, para as falhas recorrentes. para nós mesmos que nem sempre somos aqueles que gostaríamos de ser. Apesar de nós mesmos, de nossas fissuras e desencantos, a gente tem que continuar...

 E aprendemos que ter que continuar é muito mais que traçar um caminho que justifique nossa esperança por dias melhores. É saber deixar pra trás com sabedoria, entendendo que a vida é constituída de muitas histórias, e que finalizar um capítulo não significa dar fim ao que somos. 

 O mundo da gente começa a morrer antes da gente, e aceitar nossa responsabilidade em deixar o mundo se modificar, se despedir ou se transformar requer coragem. Coragem de romper com modelos antigos do que fomos e assumir com maturidade novas versões _ muitas vezes melhores _ de nós mesmos. 

 De vez em quando nos habituamos a antigos nós. Preferimos a dificuldade do que é conhecido à facilidade de novos e perfeitos voos. Desdenhamos a felicidade como quem se empenha em ser infeliz e construímos muros a nos proteger da vida que chega trazendo ares de esperança e novidade. Preferimos nos refugiar no que é conhecido, e nem sempre melhor. 

 Muita esperança chega junto ao fim de ano e a promessa de novos dias, limpinhos, pra gente escrever a história da melhor maneira que puder. Talvez precisemos aprender a aceitar as novas realidades que inevitavelmente ocorrerão. 
 Haverá a mãe que terá que se adaptar ao fim da licença maternidade, a adolescente que verá seu namoro ruir, o homem que receberá o pedido de divórcio numa manhã aparentemente comum, a senhorinha que vai enviuvar, os pais que levarão seu menino ao aeroporto para fazer intercâmbio, a menina que verá o fim da infância num teste de gravidez, a decepção do jovem, o casamento da moça dos sonhos, o ninho vazio, as novas dores da maturidade, a traição, o recomeço, a renegociação com a vida.

 Talvez seja isso. Aprender a renegociar com a vida, descobrindo que novas portas estão sendo abertas, mesmo que haja a tendência de nos fixarmos em cadeados fechados. O mundo da gente começa a morrer antes da gente, mas o futuro também guarda boas surpresas, e o que se pode chamar de "nosso mundo" não existe só no passado, mas na realidade que construímos diariamente e somente nós podemos lapidar. 

 A gente tem que continuar. Que 2015 traga o reconhecimento de nossos presentes, dádivas reais que permanecem além da morte de nosso mundo ou de um tempo. O que ninguém nos tira: a capacidade de nos recriarmos em qualquer tempo. A alegria de nos percebermos resistindo, apesar de tudo. A satisfação de percebermos nossa coragem. E finalmente, a paz de nos aceitarmos por inteiro.

                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES

 Imagem: Via pinterest, por Edouard Boubat


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Papéis amassados


 Estou lendo  "O irmão alemão", livro de Chico Buarque que mistura realidade e ficção numa obra em que relata a busca pelo paradeiro de Sergio Ernst, o irmão que só viria saber da existência aos vinte e dois anos, numa conversa trivial com Manuel Bandeira, em 1967.

 Chico nunca chegou a conhecer tal irmão, que passou a vida toda fora do país e chegou a estar sob poder dos nazistas. Porém, isso não diminuiu a inquietação e o desejo de reencontrar aquele que, através da ausência, existiu permanentemente presente dentro dele e de seu pai.

 Em uma das passagens do livro, o autor revela: "Pois ainda que meu pai aprenda todas as línguas e devore todas as bibliotecas do mundo, talvez seja incapaz de concluir a grande obra da sua vida enquanto não suprir essa pequena ignorância dentro dele..."

 E entendemos que algumas falhas, ignorâncias e ausências ecoam mais alto que aquilo que é resolvido e escancarado.
 Alguns acontecimentos podem sobreviver feito bolas de papel amassadas, guardadas num canto de nós mesmos. Resistem ao tempo, às profundidades, às perdas e recomeços. Continuam ali, esperando serem abertos e desamassados feito folha de jornal que guarda a manchete bem no centro.

 Quando Sergio Buarque de Holanda, pai de Chico, desejou manter esse segredo, certamente anulou uma parte de si mesmo, transformando a existência desse filho _ concebido antes de seu casamento_ em uma grande bola de papel amassada.
  Chico dedica seu livro "Para Sergios". E eu dedico esse texto àqueles que já se sentiram um pouco como Sérgio-pai. Para aqueles que não souberam o que fazer com o amor que poderiam ter dado e recebido, com as lembranças que poderiam ter sido construídas, com a vida que poderiam ter vivido e anularam dentro de si.

 De quantos papéis amassados foram feitas as ausências e despedidas, as reservas e os avessos da vida que não se viveu?

 Quando você disse que não tinha nada mais a declarar, fiquei confusa ao perceber que seu semblante revelava aquela conhecida contradição interior. E constatei que estava novamente voltando para aquele lugar, para a biblioteca que construiu feito muros a lhe blindar.
 Uma parte de mim se entristeceu ao perceber que já não podia mais lhe ajudar. Eu bem que quis. Tentei pegar aquela bola de papel que você tanto comprime dentro do peito e desamassar devagarinho, com cuidado para não lhe machucar demais. Mas você não deixou.
 Você cuida de suas feridas da mesma forma que zela por seu bem estar. Vela por elas dia e noite para que nunca ventilem. Descobriu que pode criar espaços para a dor também, e é nesse espaço que nunca deixa ninguém chegar.

 Mas ninguém pode atravessar os caminhos que são seus no seu lugar. Algumas rotas são só nossas, e as chaves que abrem nossos recintos, também. Cabe a cada um dar sentido às suas bolas de papel amassado. 

 Lidar com aquilo que recusamos por tanto tempo pode ser assustador. Requer a coragem de conhecer-se profundamente, e isso pode ser doloroso também. Porém, ao final conseguiremos não somente ter tomado consciência de quem somos realmente, mas ter sim nossas folhas de papel finalmente passadas a limpo...

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

Obs: No rodapé do blog há uma observação sobre as imagens que uso para ilustrar os textos. Não sei a autoria da maioria delas, apenas busco no google, tumblr ou pinterest. Essa eu achei no google. Se você for dono de alguma dessas imagens, por favor entre em contato comigo que faço referência ao seu trabalho. Obrigada! 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Presentes

 Outro dia, distraída pela tevê, assisti a um episódio de "Três Terezas", seriado do GNT. Não lembro o título da história, mas era sobre o aniversário de dezoito anos da Tereza mais nova, filha e neta das outras duas Terezas. O episódio inteiro girou em torno da mesa de café da manhã e a reciclagem de vivências e histórias das Terezas mais velhas ao lembrarem os fatos ocorridos quando elas mesmas tinham dezoito anos. Houve troca de presentes, e a mãe deu a primeira página de jornal _ do dia do nascimento da filha _ enquadrada como lembrança. Tereza mais nova não gostou, achou histórico demais e preferiu o vestidinho que ganhou de Tereza avó. Mesmo não sendo seu estilo, o vestidinho tinha valor, pois fora feito pelas mãos da matriarca.
 Porém, ao relembrarem as boas histórias em volta do bolo de café da manhã, resolveram pegar os diários de Tereza mãe. Ao permitir à filha ouvir a leitura da página em que contava o dia em que fez dezoito anos, Tereza mãe comoveu a todos em volta da mesa e ao final foi abraçada pela filha, que disse ter sido aquele seu melhor presente de aniversário.

 Então resolvi pensar nos presentes que virão com o Natal que se aproxima, e me entristeci ao perceber que minha lista contém encomendas, não presentes.
 E recordei um texto de Martha Medeiros, que se chamava "O melhor presente". Nele, ela dizia que "o melhor presente que podemos oferecer a alguém é um acréscimo de vida. Podemos fazer isso dando uma dica de livro, uma dica de música, uma dica de lugar para conhecer, uma dica de programa de tevê que foge da mesmice, enfim, tornar a vida do outro mais rica através de ideias e de emoções".

 E hoje, chegando para trabalhar, minha mãe me telefona com a voz embargada. É ela e o Peninha, do outro lado da linha. Me pede para esperar um instante e aumenta o som. Segue o refrão: "Mas não tem revolta não, só quero que você se encontre, saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio, a esperança é um dom, que eu tenho em mimmmm..." e eu entendo o que ela quer dizer, pois já me contou essa história inúmeras vezes. Ela diz que a música me traz de volta pequena, aos três anos, em Uberaba. Que tocava na tevê e eu corria para chamá-la pois sabia que ela gostava. E dizia: "Mamãe, é o Peninha! É o Peninha!"
 De repente fico muda com o presente inesperado numa tarde de Centro de Saúde. E sei que não posso falar, pois no trabalho a gente tem que manter a postura, e qualquer lágrima soa como deslize. Desligamos o telefone e penso que já ganhei meu presente, só por sermos 'Duas Simões' que têm uma vida inteira juntas, partilhando desde aquela letra do Peninha num tempo distante até as aulas de pilates nos dias de hoje.

 E se acabo de constatar que minha lista de presentes para o Natal anda materialista demais, com muito mais encomendas que presentes, como o mocassim pra minha mãe e o traje esportivo para o marido, busco agora repensar minhas escolhas e oferecer a vocês, leitores do blog, uma lista com minhas dicas de livros, músicas, filmes, programas de tevê, seriados, viagens... enfim, como disse Martha Medeiros, um presente que traga algum acréscimo de vida.

 Um livro:

 Os livros fazem parte da minha vida desde muito cedo, e por isso essa é uma categoria em que não posso indicar apenas um exemplar.
 Começando lá atrás, em minhas primeiras leituras na infância, indico dois livros para a garotada na faixa dos dez anos, um pouco mais, um pouco menos, ou adultos que ainda se emocionam com boas histórias.

 O primeiro é "Bisa Bia, Bisa Bel", de Ana Maria Machado. que conta a história da menina Isabel, que um dia encontra uma foto de sua bisavó Bel. A partir daí ela inicia uma relação de muitas descobertas com essa pessoa tão importante na vida de sua família e dela própria. Ana Maria Machado conta que escreveu esse livro pela saudade que sentia das avós e queria contar sobre elas para os filhos. Não imaginou que fosse fazer tanto sucesso, chegando a ser considerado um dos dez mais importantes livros infantis do Brasil.

 Outro livro da minha infância é "A bolsa amarela", de Lygia Bojunga. Esse livro marcou minha pré adolescência, pois me identifiquei demais com a história da menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades ( que ela esconde numa bolsa amarela): a vontade de ser gente grande, a de ter nascido menino e a de se tornar escritora. A partir dessa revelação, essa menina sensível e imaginativa ( igualzinha a menina que eu era!) nos conta o seu dia a dia, juntando o mundo real da família ao mundo criado por sua imaginação fértil. Ao mesmo tempo que se sucedem episódios reais e fantásticos, a menina segue rumo à sua afirmação como pessoa.

 Mais velha, ganhei de presente do meu pai "Minha vida de menina", de Helena Morley. Se tornou um dos meus preferidos por ser um diário, de uma garota do final do século XIX, e narrar histórias do cotidiano de forma simples e bem humorada.

 Adulta, posso citar alguns livros que se tornaram meus preferidos, apesar da lista só crescer.
 _ "Médico de homens e de almas", de Taylor Caldwell. Narra a história de São Lucas, médico que escreveu um dos evangelhos, e emociona por nos aproximar da humanidade de Deus.
 _ "O apanhador no campo de centeio", de J.D. Salinger. É um clássico, voltado para adolescentes, sobre os pensamentos e experiências vividas por um garoto de 16 anos. Gostei muito, ri bastante, uma parte de mim se identificou também.
 _ "O sentido de um fim", de Julian Barnes. Já falei desse livro aqui no blog, num post de mesmo nome, link aqui. O livro me fisgou por abordar o tempo numa elaborada reflexão sobre o envelhecimento, a memória e o remorso.
 _ "Espere a primavera Bandini" e "1933 foi um ano ruim", ambos de John Fante. Sensíveis, delicados, humanos. Narram as dificuldades e impossibilidades da vida humana de forma sensível e poética. Me marcaram bastante e o autor tornou-se um dos meus favoritos.
 _"Complexo de Portnoy" , "Patrimônio", "O animal agonizante", "Indignação", todos de Phillip Roth, um dos meus autores preferidos também. Gosto da forma como ele se comunica, e passa ao leitor a sinceridade das emoções.
 _ "Noites azuis" e "O ano do pensamento mágico", de Joan Didion. São livros biográficos, em que a autora narra sua existência a partir de uma tragédia: a morte do marido durante o jantar e a morte de sua única filha de uma doença misteriosa. "Noites azuis" é a continuação de "O ano do pensamento mágico" e ambos são muito bons, ao abordar as lembranças com delicadeza, apesar de toda dor. Adquiri os livros após ler uma indicação num texto da jornalista Eliane Brum. Quem tiver interesse, segue o link.
 Esses dois livros me lembraram "Paula", de Isabel Allende, outro livro que me comoveu bastante.
 _ "A soma dos dias", de Isabel Allende. Também é uma biografia, em que a autora narra uma fase de sua vida, após perdas e sofrimentos, com grandes ensinamentos.
 _ "A menina quebrada", livro de crônicas de Eliane Brum. Foi o melhor livro de crônicas que já li, com variedade de assuntos, profundidade e muita poesia e sensibilidade. Me inspirou muito.

 Um filme:
Ficará na minha lembrança para sempre "Era uma vez na América", filme de 1984 com Robert de Niro. Assistam!

 Uma música:
 Difícil escolher uma, mas fico com "João e Maria" do Chico Buarque; "Luiza" de Tom Jobim; "Giz" de Renato Russo (na verdade ficaria com todas de Renato Russo); "O que se quer", de Marisa Monte ( também ficaria com todas); "Fidelity", de Regina Spektor; U2; Coldplay; etc

 Um seriado:
 Adoro "Anos incríveis", seriado que era exibido pela TV Cultura há alguns anos e que consegui comprar na íntegra pelo Mercado Livre. Recomendo.
 Atualmente continuo seguindo Grey's Anatomy, adoro!

 Uma viagem:
 Não fui mochileira, não fiz intercâmbio, viajei pouco com meus pais. Tenho viajado mais agora, adulta e casada. Mas acredito que para uma viagem se tornar inesquecível, ela tem que acrescentar mais que descanso, sossego e paz. Tem que agregar conhecimento, prazer, descobertas _ não somente dos lugares, mas principalmente de si mesmo; mudança de ares e de humor; quebra da rotina; alguma aventura; um olhar diferente para a vida que se tem e que se quer ter.
 Não sou uma pessoa consumista, por isso fugiria de destinos com o único propósito de gastar. Nunca fui a Nova York mas adorei a Disney esse ano. Também gostei de Buenos Aires e do Chile, apesar de ter me dado muito mal com esqui. No Brasil fico com Noronha e Bonito, dois destinos para os quais quero voltar.

 Bom, acho que é isso. Espero ter agregado algum conhecimento com minhas dicas. E se vale uma sugestão, que tal presentear aquela tia, prima, pai, mãe, amigos, filho, sobrinho... com um dos livros que indiquei, ou um CD bacana, um DVD diferente ou mesmo o livro de viagens da Martha Medeiros ou Danusa Leão.

 ... Hoje, ao me despedir do meu filho para trabalhar, vi suas mãozinhas formarem um coração com os dedos atrás da janela enquanto meu carro afastava da garagem. Terminando de contornar o condomínio, meu pequeno me surpreende mais uma vez, cortando caminho pela grama e indo me reencontrar na saída do portão. Ganho um abraço de urso e agradeço a Deus meu mais valioso presente.

 E vou descobrindo que a Tereza mais nova tinha razão: os melhores presentes são aqueles que comovem mais. Não precisa ser o mais caro, mas aquele que chega na hora certa, e encaixa da maneira exata. Pode ser um abraço _ melhor que mil palavras quando se quer dizer "estamos juntos nessa"; uma música no meio da tarde pra lembrar alguma conexão do passado; um cartão cheio de coraçãozinhos pintados a canetinha; uma foto antiga emoldurada; um pendrive cheio de filmes inéditos; um livro emocionante; uma dica de viagem; um CD original.

 Se chegou até o final desse post, agora desafio você. Deixe aqui nos comentários dicas de livros, filmes, músicas e viagens. Para que possa inspirar outras pessoas também. Para que, de alguma maneira, possa presentear a todos que por aqui passarem.
 Obrigada!
               
                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

domingo, 30 de novembro de 2014

Flores em você

 Essa semana faltou-me inspiração. É claro que aconteceram coisas demais, o trabalho no Centro de Saúde que não pára, as demandas da aula de inglês do filhote, reuniões na escola, aniversário dos sobrinhos, rotina, trânsito, pacientes...

 E no meio disso tudo, a gente até se assusta com os sorrisos, com a simpatia, com os sinais de gentileza pelo caminho.

 Saindo do apartamento da minha mãe na sexta feira, encontro um casal simpático no elevador.
 Em tempos em que um 'boa tarde' é mais que suficiente para as relações num elevador, se deparar com sorrisos amistosos de desconhecidos, perguntando se você vai bem (insistindo nos sorrisos) soa estranho, até desajeitado para seres tímidos como eu.
 Minha mãe mora no terceiro andar, de forma que até o térreo é um pulinho, e nesse intervalo continuei percebendo os olhares do casal simpático, até que ouvi a frase: "Bonita flor no cabelo!".
 Então lembrei. Meu sobrinho de quatro anos havia me dado uma flor grande, natural, minutos antes. Não resisti e fiz uma graça para ele colocando-a no cabelo. Tinha esquecido de retirar.
 Sem jeito, puxei a flor pelo cabinho e sorri cabisbaixa. O mocinho, insistente, continuou simpático: 'Estava bonito... não devia ter comentado, assim você continuava florida...' e eu ali, mantendo firme meu 'risinho - de - timidez - paralisante' até que _ ufa! _ chegamos ao térreo. Voltei pra casa com a historinha trazendo um tanto de poesia ( e simpatia) para o fim daquele dia comum, numa semana extremamente comum, num mês avassaladoramente comum.

 Então hoje é domingo e ontem foi a festinha de um ano da minha sobrinha. Viajamos para São Paulo, nos atrasamos um pouco no trânsito ( São Paulo está ficando difícil de trafegar até no sábado à tarde!) e reencontramos boa parte da família que não se vê todo dia.

 E domingo chegou cheio de confetes coloridos e jujubas por toda a casa. Apesar de colorido, amanhã é segunda novamente. Sem brechas, sem feriados, apenas com a promessa das férias chegando e dos dias que teremos que reinventar, nem que seja com uma flor no cabelo, para poder suportar.

 E mesmo que me falte inspiração, ainda haverão pequenas anedotas para eu relatar aqui. Com flores no cabelo ou não, a vida nem sempre poderá ser contada de forma poética.
 A rotina nos engole sem rodeios, e em algum momento nos sentimos desajustados e desanimados também. Mas aprendi que são ciclos. Tempo de espera, paciência e momentos de florir e transbordar.

 Naquela sexta feira, eu voltava pra casa num trânsito infernal, por isso resolvi parar no apartamento da minha mãe. Mal sabia que sairia dali florida, no sentido mais literal da palavra. E que talvez fosse esse o empurrãozinho que me faltava para entender que posso sim, aceitar os pequenos incidentes como parte do grande todo também. Que quando uma segunda feira desponta, ela traz um monte de responsabilidades , mas agrega também infinitas possibilidades...

 Que venha a semana, que traga dezembro, que hajam flores, que exista poesia. E se faltar inspiração, que a gente possa aceitar também, pois a história é feita de desafios e incertezas, avanços e recuos, invernos e primaveras, desfalecer e florescer...

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES