"Estou nas palavras, mas estou, sobretudo, nas entrelinhas..."

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Trégua

 Quando me tornei mãe, um dos meus maiores medos era que meu filho colocasse grãos de feijão no nariz ou ouvido. Já tinha ouvido histórias semelhantes na família e aquilo me parecia muito comum, apesar de perigoso. A fase de cometer tal delito passou, e com o passar dos anos, outros medos, igualmente pertinentes ou não, vieram se somar ao meu repertório de mãe atenta, preocupada, precipitada.
 Mas o tempo passa e vamos percebendo que as profecias sombrias nem sempre se concretizam; que o medo paralisa e aprisiona, que podíamos usufruir mais da paz que nos é dada por direito se apenas déssemos uma trégua.

 E percebo agora que o mundo precisa de trégua. Que podíamos ser bem mais felizes se apenas usufruíssemos da vida que Deus nos deu _ como prova de amor _ sem receio de levantar e cair, sem medo de que nossa vida vire de cabeça pra baixo se o outro optar por uma forma de viver que julgamos incorreta, sem enxergar maldade onde há apenas escolha, sem dar nomes obscuros ao que a gente desconhece. Precisamos de trégua; de olhar para o próximo com mais amor e tolerância, sem achar que algumas maneiras _ diferentes das nossas _ de ver o mundo podem contaminar nossos filhos ou as gerações que estão por vir. Trégua pra aceitar as diferenças, trégua pra abraçar o desconhecido, trégua para enfrentar os tabus.

 Estou lendo a biografia de Malala, que ganhei de minha mãe no último fim de semana. Muito além da história da menina que ganhou o Nobel da paz e tornou-se símbolo da luta pelos direitos das mulheres _ principalmente por educação num país massacrado por leis rígidas e religiosidade sufocante_, o livro narra a história de um povo que tem medo. Medo que sua população pense, que os costumes mudem, que as mulheres possam ter direitos iguais aos homens. É Malala quem diz: "Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar."

 O terrorismo no mundo muçulmano é a materialização do medo numa sociedade que não aceita mudanças, que não dá tréguas à evolução e não tolera diferenças ou divergências. Sob o domínio do Talibã, que acima de tudo é uma organização que teme (e por isso espalha o terror), o Paquistão tornou-se terra de desigualdades e distorções dos direitos humanos.

 No Ocidente, o medo também conduz e massacra em nome de uma Verdade pura e intocável. Muitos cristãos _ que conforme o nome diz, deveriam seguir os ensinamentos de Cristo _ ainda têm dificuldade de aceitar os preceitos que esse mesmo Cristo propagou durante sua existência, e colocam restrições a um dos maiores mandamentos :"Amar ao próximo como a ti mesmo", caso esse próximo não se enquadre naquilo que ele julgue certo, ou melhor dizendo, ' do lado do bem'. E se indignam com mudanças, com o novo que chega, como as novas _ e louváveis_ mudanças na igreja católica a partir do grande Papa Francisco.

 O temor que não permite às mulheres o direito à alfabetização no Paquistão (pois desta forma também terão direito ao livre pensamento), é o mesmo medo que faz com que Papa Francisco _ pasmem _ seja rejeitado ou olhado com olhos duvidosos por alguma parcela de religiosos dentro da própria igreja católica.

 O medo de que os limites sejam rompidos _ pois 'o que faremos com nós mesmos se não houverem tais limites?'_ assusta e incomoda, pois reflete a insegurança: 'o que será de nós agora que tudo o que pensávamos que era não é mais?' E mais ainda: 'o que faço com o medo que tenho do mundo que deixaremos para nossos filhos se as barreiras forem quebradas? E se meu filho abraçar aquele que julgo tão diferente de mim? E se meu filho quiser ser, ele mesmo, tão diferente de mim?'

 Mudanças. Ninguém disse que seria fácil assimilá-las. Porém, é a única maneira de não retroceder. O único jeito de descobrir que existem outras formas _ diferentes, e nem por isso erradas_ de enxergar uma mesma situação. Só temos que estar dispostos. Abertos a abrir mão de nossas convicções e aprender a enxergar com o coração, percebendo que nem tudo é negativo; e muito daquilo que julgamos difícil de entender, está aí para nos ajudar a evoluir. 

 Malala e Papa Francisco nos desacomodam. Tiram de nossa zona de conforto e nos colocam a refletir. A dar uma trégua aos temores que assolam nossa existência, e ousar construir um mundo mais igualitário e melhor, onde os verdadeiros Direitos Humanos sejam cumpridos, com dignidade, tolerância e amor. Onde o medo não gere arrogância nem tirania.

 Quanto a mim, prometo dar uma trégua a meus receios maternos também. A fase dos grãos no ouvido passou, mas virão outras inseguranças igualmente preocupantes e claustrofóbicas. Que eu possa dar limites baseada no objetivo de fazê-lo crescer e ser capaz de fazer suas próprias escolhas no futuro; mas nunca, jamais, com o propósito de amedrontá-lo e assim acorrentá-lo a mim.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Mudanças

 Sempre achei que transferir o título de eleitor fosse a conclusão máxima de um projeto de mudança. Semelhante a conseguir se desfazer do guarda roupa na casa dos pais (que continuam morando no interior enquanto você se mudou para a capital), transferir o título de eleitor é admitir que não há mais volta, o adeus foi consolidado, não existe possibilidade de retorno.

 Morando há anos em Campinas, meu título continuava ligado ao sul de Minas, e era sempre uma ótima desculpa para uma viagenzinha de dois dias ao interior, à casa de meus pais.

 Mas nem sempre _ quase nunca _ nossos planos são definitivos. Brisas leves ou ventos súbitos podem mudar nossas órbitas num piscar de olhos. Pensando controlar nossos pontos cardeais com a precisão de bússolas competentes, desconhecemos a força e o empenho do acaso.
 E como guarda-chuvas que se dobram à grandes tempestades, quebrando a armação e revirando o tecido do avesso, é sempre tempo de descobrir que somos mutáveis também. Que muito além do novo corte de cabelo que denuncia grandes mudanças na vida ( quem nunca?), acatar o inesperado desejando boas vindas ao novo é sinal de sabedoria.

 Transferir o título de eleitor é aprender a aceitar o fim de um tempo e o começo de outro. Quem me ensinou isso foi dona Clau, minha mãe.
 A senhorinha, muito mais que mudar o corte de cabelo, abriu as portas para a novidade em sua vida com o vigor de uma jovenzinha. E me ajudou a aceitar a morte de um tempo também, ao dar-me o exemplo de seguir adiante.
 Há dois anos, logo após sua definitiva mudança para Campinas, fomos ao cartório, nós duas, pedir a transferência. Saímos de lá deixando uma parte de nossas vidas definitivamente para trás.

 Porém, ainda assim, ela precisava de uma última decisão. Na semana seguinte me apresentou outro voucher. Não ia viajar, mas tinha comprado uma vaga _ para todos nós _ no cemitério de Campinas. Quase caí pra trás! Mas aos poucos compreendi a realidade _ e a necessidade de seguir em frente.

 Com ela aprendi que a reinvenção de uma história só depende de nossa vontade e coragem de dar o primeiro passo. Lamentar o que aconteceu faz parte _ ninguém é de ferro _ mas daí por diante quem determina o espaço para a alegria ou tristeza somos nós mesmos.

 Nós e nossa capacidade de baixar uma receita nova na internet e preparar um lanche da tarde diferente; nós e nossa vontade de ir ao Ceasa comprar novas mudas de flores e começar um jardim; nós e nossa decisão de nos matricularmos na ginástica, num coral ou numa aula de dança de salão; nós e nosso empenho de frequentar um curso de bordado ou fotografia; nós e nossa decisão de deixar o passado pra trás e começar do zero outra vez.

 Nem tudo é fácil, quase nunca estamos prontos para as medidas mais práticas em relação à vida e à morte. Viver é aprender a conviver com as mudanças que ocorrem com ou sem nosso consentimento, e nos abalam por momentos estreitos ou demorados demais.
 Nem sempre estamos na mesma vibração dos acontecimentos que nos rodeiam, e pode demorar algum tempo até que possamos perceber que estamos no fim de uma história e começo de outra.

 Mudar o corte de cabelo e transferir o título de eleitor podem ser bons começos e rendem ótimos enredos. Pequenos gestos que nos ensinam que crescer não é simples, e deixar partir é doloroso.

 Mas ainda assim, são movimentos que nos fazem caminhar adiante, pois é assim que os relógios giram, as noites acontecem e o sol nasce todas as manhãs.
 Bem vindo à Vida!

                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O ciúme não é só vaidade

 Outro dia, observando a brincadeira barulhenta do filhote e minha mãe, tive vontade de participar. Pedi para entrar no duelo entre dragões e então ouvi a fatídica frase: "Não, essa brincadeira é só minha e da vovó". Naquela hora senti-me a própria menininha de trancinhas recusada pela turma do jardim de infância. Desbancada em minha vaidade de mãe-número-um-no-coração-do-meu-filho, senti a ríspida pontada de ciúmes cutucar meu espírito.

 Lembrei de Woody, do desenho Toy Story. Ele era o boneco favorito de Andy, o garoto que ganha Buzz Lightyear no aniversário e de repente passa a preferir a companhia do mais novo brinquedo ao antigo. Anos mais tarde, no terceiro filme da série, Woody tem que conviver novamente com esse sentimento de perda, pois Andy cresce e vai para a faculdade.

 Ao contrário do que cantava Raul Seixas, o ciúme não é só vaidade, mas tem nascente profunda, ancorada no medo e suas complexas ramificações. Sentir medo é normal. Como não seria normal sentir ciúme? Porém, por mais difícil que seja, temos que dar um jeito de domar esse ferrãozinho que de vez em quando espeta a alma e destrói momentos.

 Como rio turbulento que se converte numa queda d'água de grandes proporções, o ciúme nasce raso e inseguro, mas pode ganhar contornos amplos e indefinidos. 

 A vaidade é irmã do ciúme. Com ele anda de mãos dadas e agrega volumes na mesma proporção. O vaidoso é um inseguro. Precisa reafirmar seu valor diante do espelho e dos outros. Se ressente da falta de aplausos e escassez de elogios ('likes', como preferir). Mas também acusa uma inegável carência. Ele não se basta, porque seu amor próprio é minguado. Não tolera a admiração alheia e se atormenta com o brinde ao qual não foi convidado a brindar.   

 Provocar ciúme também é se banhar num rio de vaidade. Ao instigar ciúme no outro, nos engrandecemos num narcisismo provocativo. Assim como o silêncio é uma forma de domínio, não traduzir-se claramente é manter a vigília sob seu domínio e controle.

 Muito além dos ventos súbitos que balançam as relações por desconfiança, existe aquele sentimento que demonstra carinho, necessidade de atenção e afeição, medo de perder ou ser preterido. É o tipo de ciúme que permeia as relações sadias entre pais e filhos, irmãos, parceiros de teto e afeto, amigos. É ciúme que cobra, mas também demonstra que o outro faz falta. É ciúme que exige explicação, mas no fundo necessita de atenção.
 É ciúme do tempo que passa afobado e leva a infância e a velhice de jeito precipitado. É ciúme de estar longe querendo estar perto; de ser sentido; de fazer sentido.

 Ciúme por desconfiança é outra coisa. A relação balançou, faltou verdade, rompeu-se um elo, os nós desataram, a louça rachou. Nunca mais será a mesma, por melhor que seja a emenda. Desconfiar não é ter ciúme, é viver em corda bamba. É tentar remediar o que não tem conserto.
 Porém, aquele que desconfia sem motivo desconhece que não confia nem em si mesmo. Por motivos claros ou não, perdeu a ligação com a confiança que deveria morar dentro de si. O desconfiado por natureza é vulnerável. Vulnerável aos medos, às ciladas que ele mesmo construiu, aos afetos.

 Desconfiança é prima distante do ciúme. Faz dele um sentimento difícil de aturar e conviver. Desconstrói o cuidado para ser só cobrança. Desnuda a falta para ser só procura de provas.

 Ciúme de verdade não é só vaidade. É sintoma de amor, de saudade, de querer fazer parte. É carinho com beicinho, choro abafado no travesseiro, pedido atrasado de perdão. Como a letra de Rita Lee, um "Auê", sem querer magoar você...

 ... Dias depois, brincando de luta entre dragões em cima da cama com meu filho, assumi minha pontadinha de ciúme. Porém, já prevendo a devolutiva, expliquei: "Ciúme - é - problema - de - quem - tem"
 E continuei com firmeza: "por mais que esse sentimentozinho venha agulhar de vez em quando,há alegria maior em ver meus grandes amores _ você e minha mãe (sua avó)_ em tão perfeita sintonia?"

 Sentindo-me como Woody, finalmente recordo que a vida é feita de ciclos; e por mais que o ciúme permeie nossas despedidas e refaça nosso contrato com o tempo, só assim crescemos e deixamos o outro crescer.

                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A aridez dos dias comuns

 Alguns dias despertam mais áridos que outros.
 Você acorda e nenhuma peça se encaixa, nenhuma roupa tem bom caimento, o cabelo mudou de humor, o espelho traz um reflexo ruim.

 O embaçado das horas toma conta de alguns dias estranhos, mas a gente sabe que vai passar. Se não é depressão _ doença séria que merece medicação_ faz parte do ser humano, de sentir-se vivo, de absorver energias ao nosso redor, de sentir empatia, de estar alinhado a outras consciências, nem sempre conscientes de si.


 Nem todo dia promete, nem toda espera tem o seu encontro, nem tudo se aperfeiçoa dentro da gente.

 Tem dias em que você tem que se deixar pra lá, se relevar, esquecer de tentar ser o mesmo.
 Dias áridos acontecem o tempo todo, pra qualquer um _ até para aqueles que não sofrem de alterações hormonais nem carregam bipolaridades.

 São saudades vazias que voltam pra assolar o peito, desejos insatisfeitos, falta de sentido diante do trivial, percepção do mundo por lentes desfocadas, ausência de fome para o novo.

 Nesses dias tão estranhos não adianta insistir. Nem tentar manter a rotina de antes (você estará diferente por alguns dias, apenas tolere).

 Mude o trajeto, inove na frente do espelho, recolha sua decepção diante daquilo que não vingou _ nem todo projeto se concretiza_ saia da dieta, não faça restrições ao chocolate ou a um bom vinho, assista a um DVD diferente. Esqueça diagnósticos sombrios _ você é como todo mundo, e dias assim acontecem a todo momento (se durar mais que uma semana, procure ajuda).

 Porque chega uma hora em que as janelas querem ser novamente escancaradas, o sol deseja queimar a pele de um jeito novo e o tédio dá lugar à esperança.

 Mas ainda assim, são ciclos. E por mais cansativo que seja, você não está livre de, uma hora qualquer, voltar a habitar o árido que há em você.
 Porém, ao entender que ele existe e não pode ser negado _ apenas enfrentado_ conseguirá aceitar melhor os momentos e a si mesmo.

 Infelizmente forçamos demais a barra para sair do acinzentado dos dias. Só nos permitimos navegar em águas límpidas e remamos desesperados para longe do rio turvo que de vez em quando vem se juntar ao nosso mar. Esquecemos que a existência não é linear. Ao contrário, de vez em quando nossos remos pesam e nossas braçadas ficam mais difíceis. Mas chega uma hora em que, do mesmo jeito que as peças se desalinham, elas também se organizam. E naquele mesmo lugar onde só havia inadequação, começamos a enxergar beleza e verdade. Sem explicação. Sem questão hormonal que explique o peso e a leveza que se intercalam em nossas caminhos ou esquinas...

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Só quem amou entende de saudade

 Terminando de ler "1933 foi um ano ruim", de John Fante, um dos escritores que mais admiro, o livro acaba de tornar-se mais um de meus preferidos.
 Numa passagem, como tantas outras igualmente comoventes, ele diz: "Fiquei lá deitado na noite branca, observando minha respiração subir em plumas enevoadas. Sonhadores, éramos um bando de sonhadores. Vovó sonhava com sua casa na remota Abruzzi. Meu pai sonhava em estar livre das dívidas e assentar tijolos ao lado do seu filho. Minha mãe sonhava com sua recompensa celestial e um marido cordial que não fugisse. Minha irmã Clara sonhava em tornar-se freira, e meu irmãozinho Frederick mal podia esperar para crescer e se tornar um caubói. Fechando os olhos eu podia ouvir o zumbido dos sonhos pela casa, e então caí no sono." 

 Assim como retrata o autor, nossas saudades são costuradas em momentos aparentemente pequenos, que ganharão grandes contornos lá na frente.

 Toda saudade é feita de pequenos instantes que se transformam em grandes momentos.

 O olhar infantil, a voz não amadurecida, as mãos arredondadas, a recusa em obedecer, a risada barulhenta. Meu menino cresce depressa enquanto tento sugar algum tempo de infância. Virá a puberdade, o crescimento repentino, os braços compridos ao lado dos quadris. A voz mais grave, o sorriso sem jeito, a recusa em nos ouvir. Já tenho saudade dos instantes de meninice que hoje fazem parte de nossa rotina. Como filhotinho agitado, corre pela casa e me convida a alcançá-lo. Apesar dos dias que se arrastam cansativos, ainda tenho fôlego para corridas em volta da mesa de centro, pois a saudade se costura nessas fagulhas de tempo.

 Saudade não é só lembrar; é carregar despedidas também. Despedida da vida que se desenrola no presente ou que insiste em se demorar dentro da gente. Saudade da vida que não se concretizou mas permanece criando raízes em nossa mente.  Despedida da infância dos filhos; da saúde dos pais; do cabelo volumoso e colágeno volátil; do frio na barriga, coração acelerado e surpresa de mãos dadas; do namoro que deu certo, da paixão que deu errado. Do amor que pediu casa, do afeto que criou asas. Saudade do que ocorreu, do que deixou de existir, do que a gente quis e o tempo não consentiu. Saudade de perceber que tudo se transforma num piscar de olhos; e por isso querer agarrar os instantes com precisão, desejando que os vapores do tempo não arrastem pra longe aquilo que não nasceu para ser saudade.

 Através dos sonhos localizamos nossas saudades. Os que deram certo e os que não se concretizaram. Os que imaginamos como verdade ou grandes demais para caberem em nossa simplicidade. Sonhos de ir, sonhos de ficar. Saudade dos planos que imaginamos como certo, da vida boa que existia bem de perto.

 Temos saudade do que a mente sonhou e a vida deixou partir. Do que é lembrado com ternura, e permanece existindo como um refúgio invisível dentro de nós. Do que não resistiu como memória palpável, mas jamais deixará de fazer falta. Do que fomos, do que queríamos ser, da parte de nós que teve que ser deixada para trás.

 A gente vive e não sabe do que vai ter saudade. Porque saudade não avisa que o presente vai virar lembrança, e poucas vezes distingue o estável do passageiro. Algumas coisas o tempo leva sem piedade, e a gente antecipa a saudade do que não permanecerá. Talvez seja isso que vem dar sabor_ a noção de que passará _ como a própria vida que chega e sabemos que findará.

 "1933 foi um ano ruim" é baseado em fatos autobiográficos. O livro, assim como "Espere a primavera, Bandini", do mesmo autor, comove por nos confrontar com as impossibilidades da vida humana.

 As impossibilidades que todos nós enfrentamos diariamente, em batalhas dentro ou fora de nós. A saudade é só uma delas. Porém, mesmo denunciando a falta, mesmo doendo, tem um quê de poesia e beleza.

 A beleza que se revela no simples fato de que só quem amou entende de saudade...

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Pipa e Candinha

 Em seu próximo filme, Gregório Duvivier vai dar nome e sobrenome aos seres que nos habitam. Tão presentes e contraditórios, mandões e passivos, escondidos ou escancarados, o ID e o superego serão representados pela dupla personalidade do personagem. Uma hora ele será o certinho Eduardo (superego); outra, o fanfarrão Duca (o ID).

 Se fosse possível opinar, diria que morro de raiva da engomadinha que vive dentro de mim. Com mãos na cintura e pés impacientes, precisa urgentemente de um botox no centro das têmporas e tratamento fonoaudiológico para o tom de suas cordas vocais.

 Durante muito tempo estremeci diante de seus botões hermeticamente fechados até o queixo e saia plissada abaixo do joelho. Feito garota interna, rigidamente educada por freiras, me comportei impecavelmente sem questionar seu domínio, muito menos ousando perguntar se aquela gola engomada não lhe causava claustrofobia. Claustrofóbica vivia eu, tentado ser livre com dona Cândida _ asseada _ dentro de mim.
 Mas tenho descoberto que dona Cândida não é tão poderosa assim. Se a gente souber levar, acaba percebendo que seus botões afrouxam, sua saia sobe e suas rugas de expressão ficam quase imperceptíveis.

 Dento de mim também vive Pipa, um ser tão livre e leve que sobe pelos ares feito pluma dente de leão que a gente sopra e deixa o vento conduzir.
 Pipa não conhece a tirania de dona Cândida. Ao contrario, acha ela um doce e diz que quem exagera sou eu; 'sua voz nem é tão grave assim'...  Pede para que eu alivie a diplomacia e chame-a pelo apelido carinhoso: Candinha. Por desconhecer a sombra de dona Cândida, Pipa consegue sorrir mais, dormir sem pesadelos e desabrochar seu gozo sem medo de ser feliz.

 Pipa não tenta me governar, quer que eu a descubra sozinha. E é verdade que de vez em quando ela vem à tona _ tão descontraída em sua rasteirinha deslizando pelo chão e seu clássico vestidinho de chita _ que não resisto e tomamos uma cervejinha juntas. Nessas horas, meu riso é mais leve; minhas frases, mais confiáveis; meu sono, mais profundo.

 Pipa divide uma beliche com Dona Asséptica. Mas a saia plissada da dona engomada cobre Pipa por inteiro, e por isso quase não lhe ouço a voz nem sinto sua presença. Mas quando durmo profundamente, ela vem me falar aos ouvidos. É certo que nem sempre lembro no dia seguinte, mas sei que ela me conhece mais do que eu mesma. Me diz que preciso me soltar, desabotoar a gola de dona Cândida e ensinar a ela seu lugar. Explicar que sua hora já passou. Foi bom, me orientou por algum tempo, mas agora preciso de mais Pipa e menos Candinha.

 Devagarzinho tenho tentado mudar as duas de lugar. Colocar dona Cândida pra dormir embaixo e Pipa pra dormir em cima. Não é justo que meu governo seja assim tão rígido. Quero mais Pipa em minha vida, me ensinando a voar, a ouvir mais minha intuição, a correr mais riscos, a viajar com menos bagagem.
 Quero aprender a ser conduzida por meus "nãos" também, pois o caminho da liberdade passa por restrições àquilo que não cabe em nossa nova etapa de vida. Que Pipa me ensine a liberdade dos vestidos florais e tiaras no cabelo, o descompromisso com o que não é necessário nem imprescindível, a autonomia que quero e devo ter em minhas escolhas.
.
 Que as regras de dona Cândida sejam ouvidas na sua medida, me colocando no meu devido lugar sem me roubar de mim. Que ela ganhe fala mansa e contornos suaves, e não franza as sobrancelhas quando eu quiser voar. Que me permita ouvir a voz de Pipa, tão melodiosa e difícil de acessar; que me ajude a encontrar meus desejos e neles me enroscar.

 Dona Cândida já não parece tão felina. Era meu olhar que lhe conferia tanta tirania. Pra falar bem a verdade, tem mesmo cara de Candinha, assim, miudinha e faceira, feito espuletinha.

 A gente cresce e percebe que a casa não era tão grande assim, nós é que a enxergávamos enorme. Assim também percebemos que quem deu a medida para o medo, a angústia e a incapacidade de lidar com a própria liberdade fomos nós mesmos.
 E de repente, num dia qualquer, acordamos e percebemos que já podemos arcar com aquilo que julgávamos maior que nós mesmos.
 Não foram os abismos que diminuíram, mas nós que crescemos.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Todos UM

 Somos frágeis. Cada um à sua maneira, somos frágeis. E mesmo tentando evitar, a fragilidade nos alcança, nos incomoda, nos dói.

 O palhaço tropeça no chapéu diariamente em frente ao meu carro, no cruzamento da Andrade Neves com a Barão de Itapura, duas avenidas aqui de Campinas.
 Por mais que evite o contato visual, ele está lá, diante do meu carro confortavelmente fechado, equilibrando quatro bolas que rodopiam sobre sua cabeça coberta com o chapéu.
 A cena se repete todos os dias, e todos os dias evito olhar-lhe nos olhos. Pela repetição do gesto que virá em seguida _ o chapéu se transformando num porta niqueis_ mas principalmente por me lembrar que sou vulnerável como ele.

 Dou-lhe algumas moedas _ sei que no dia seguinte terei que ter novo repertório de trocados_ mas isso não basta. Preciso olhar-lhe nos olhos, conhecer sua história; descobrir se, caso pudesse rechear seu chapéu com notas mais gordas, conseguiria diminuir o peso de nossas fragilidades _ a dele e a minha.
 Não sei se isso ajudará, mas preciso dedicar-lhe tempo. Lembro então que meus sentidos estão impregnados. A presença dos pacientes do Centro de Saúde onde trabalho permanece comigo alguns minutos após a habitual jornada, e meu vestuário está repleto de cansaço.

 O palhaço me recorda que somos frágeis, quebráveis, que estamos vulneráveis à vida e à morte.
 Por isso é tão difícil encará-lo. A vida já é bastante doída para nos doermos mais. Nossas lascas ficam escondidas, enquanto as dele são expostas feito o chapéu que se adianta antes do show.
 Mais fácil escolher logo as moedas no fundo da carteira que ter que justificar nossa pequenez, nossa incapacidade de encará-lo como igual.

 Somos todos iguais. Iguais ao palhaço de rua, iguais ao menino que o quadro do Fantástico representou tão bem no último domingo.
 "Vai fazer o quê?", perguntava a atração, enquanto um ator mirim abordava as pessoas na calçada com um pedido inusitado: "Tio, me dá um livro?"

 Numa sociedade desconfortável perante o clamor das calçadas, ouvir o pedido do menino é mais que escutá-lo. É perceber que ali não se pede dinheiro, nem comida para matar a fome. Mas educação. Um livro. Um pedaço do seu tempo corrido para subir as escadas da livraria e ler algumas páginas para o garoto analfabeto. Um clamor. Um chamado. Uma necessidade de ser visto além dos trapos e do incômodo que provoca por estar ali. Simplesmente por existir.

 Enquanto muitos nem ouviam o que o menino tinha a dizer, outros entravam na livraria e, além de se oferecerem para comprar o livro, liam para o rapazinho. 
 Me surpreendi comovida do outro lado da tela. Comovida como outros tantos que postavam no twitter a mesma emoção. A emoção de perceber que ainda existem pessoas sensíveis ao sofrimento alheio, pessoas que não têm medo de se fragilizar com a fragilidade do outro, pessoas que arriscam seu próprio desamparo ao encarar com coragem o desamparo do menino.

 Hoje quero encarar o palhaço. Quem sabe trocar algumas palavras antes do sinal abrir.
 Sentir-me quase em carne viva ao abordar suas cicatrizes. Mas não vacilar ao olhá-las de frente, assim como devo fazer com as minhas.
 Quem sabe tocá-las, percebendo que somos feitos do mesmo tecido.
 Percebendo que somos um.
 Cada um de um lado do vidro do carro, mas ainda assim, UM.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES