"Estou nas palavras, mas estou, sobretudo, nas entrelinhas..."

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Interestelar

 
  Quarta à noite, véspera de feriado em Campinas, inauguramos um novo tempo aqui em casa e levamos o baixinho para nos acompanhar ao cinema num filme voltado para maiores de dez anos. Apesar dele só ter oito, conseguiu acompanhar as três horas de filme legendado e muito emocionante.
  Por ser uma raridade em tempos que só assistimos animações da DreamWorks, quis vir falar do filme aqui para vocês.
 
 É certo que não vou entrar em pormenores, nem relatar o final, mas como geralmente o que me cativa em qualquer história é o lado humano, é nele que vou focar.

 O filme conta a história de um agricultor, ex piloto de testes da NASA, viúvo, pai de dois filhos, que se vê num dilema: aceitar embarcar numa missão espacial ou não. O maior desafio, porém, está na passagem do tempo. Enquanto para os filhos o tempo transcorrerá normal, hora após hora, ano após ano... para o pai, no espaço, o tempo transcorrerá mais devagar, no compasso de alguns minutos. 
 Num dos momentos, durante a visita a um planeta fictício, os astronautas se atrasam alguns minutos, e com isso perdem vinte e quatro anos no tempo da Terra. Para o pai, tempo precioso ao perceber que perdeu a infância dos filhos.

 Enquanto o filho mais velho envelhece diante da tela do computador, enviando mensagens periódicas ao pai, a filha mais nova, ressentida da partida de seu grande herói, se recusa a enviar mensagens. Até o dia em que percebe que ela e o pai estão muito mais ligados do que poderiam supôr.

 Enfim, entre suspense e lágrimas, reconheci um pouquinho de minha humanidade ali. E por isso me comovi diante da história do pai que perde a linha condutora da vida de seus filhos. De afetos que se perdem pelo caminho, como se o tempo corresse diferente para cada um.

 Sempre imaginamos que teremos mais tempo. Que podemos deixar para depois certas ações, que elas se concretizarão naturalmente, dentro do nosso tempo. Porém, nem sempre o nosso tempo é o tempo que está reservado para nós. E é muita pretensão acreditar que podemos prorrogar nossos passos ou adiantar nossos desejos só porque acreditamos que domamos os relógios da vida e dos acontecimentos. 

 Cooper, personagem central de Interestelar, acreditava que ainda teria tempo de sair em missão e voltar para seus filhos. Acreditava que ainda poderia acompanhar a infância de seus meninos e ser um bom pai. Porém, não é o que acontece ( não, eu não estou contando o final do filme). Infelizmente, para eles é tarde demais. 

 É devastador descobrir que chegamos tarde demais. Que deixamos pra depois o que nunca mais poderá ser realizado. Que adiamos nossas vidas em busca do momento perfeito ou da hora ideal, sem perceber que a vida acontecia no aqui e agora; sem se dar conta que o presente era precioso demais para simplesmente ter sido adiado pra depois. 

 Querendo ou não, tudo gira em torno de uma balança. E definir nossas prioridades ou escolhas se torna essencial para decidir aquilo que não queremos deixar para trás ou chegar atrasados demais. Inconcebível seria chegar tarde para a infância dos filhos, para o relacionamento de nossas vidas, para as chances improrrogáveis ou momentos perfeitos que ditarão a eternidade.

 Interestelar recusa a morte como recusa o fim de um tempo. Cooper, desejando salvar seus filhos _ e a humanidade _ do apocalipse que se aproxima, oferece-se para a missão _ a última chance de fazer aquilo que para ele é sua verdadeira vocação. Porém, ao perceber a velocidade com que o tempo passa para aqueles que ama, arrepende-se da empreitada e descobre que fez a escolha errada. Quer voltar, pois de nada adianta o tempo não passar para ele, se passa e leva embora aqueles que ama.

 Assim, não há remédio que cure a morte de um tempo. Podemos brincar de faz de conta, mas ainda assim, temos que nos adaptar e ajustar ao que resta de nós apesar das perdas e despedidas inerentes a qualquer vida.

 Interestelar é uma ficção que brinca com a ciência, mas acima de tudo fala de amor. Do sentimento que ainda move o homem e conduz suas ações.  Do que motiva alguém a buscar a escuridão _ o buraco negro _ para trazer luz à sua família. 

 Recusamos a morte e queremos que o amor nos salve da vida. Buscamos a escuridão desejando que ela nos traga alguma luz. Desafiamos o tempo almejando desperdiçá-lo e guardá-lo no mesmo instante; corremos riscos para nos sentirmos seguros; nos perdemos para nos encontrarmos. Percebemos enfim que o triunfo da vida está no amor, nem sempre claro, nem sempre explícito, mas ainda assim, real.

 Saí do cinema reconfortada por uma parte de mim ter sido acolhida naquela história. Uma parte de mim que se ressente das perdas, do que o tempo levou e não traz mais, das ausências, dos hiatos que se consolidaram com a distância. Porém, ainda acreditando no amor. Nessa força poderosa que nos torna homens. Que nos torna simplesmente e poderosamente... humanos.
 
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

 
 
 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Leitura do mundo


 Ontem um dos maiores poetas brasileiros faleceu. Manoel de Barros se foi aos 97 anos, deixando como legado sua poesia, seu olhar único sobre o mundo ( é dele a frase:  "há um comportamento de eternidade nos caramujos"), e sua forma nítida de ser e se renovar perante a existência.

 Fabrício Carpinejar, escritor e poeta, publicou um texto lindo em homenagem a Manoel de Barros e lá pelo final arremata: "Manoel de Barros afirmava que o verdadeiro conhecimento está na leitura do mundo".
 Tomei essa frase para mim, assim como grifei um dos poemas de Barros, que diz:
" A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou _ eu não aceito.
 Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva, etc, etc.
 Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.
 Eu penso renovar o homem usando borboletas".

 Somos a leitura que fazemos do mundo. E podemos ler delicadezas, miudezas, singelezas ou, ao contrário, aceitar o espetáculo do medo, da falta de esperança, da ausência de fé.
 Que possamos nos inspirar em Manoel de Barros e ouvir mais canto de passarinho que ronco de motor; acompanhar mais a marcha das lagartixas que notícias bombásticas na tevê; socorrer joaninhas em posição invertida no lugar de dar ouvidos a tanta previsão catastrófica por aí.

 O que sinto é que o mundo poderia nos encantar e nos tirar da mesmice se a gente se detivesse mais ao chão e ao céu que ao espaço intermediário entre esses dois.
 Se a gente aprendesse a importância dos quintais e dos gravetos, do cheiro de suor e terra molhada, bolo de areia e espuma de nuvem.

 Como dizia Manoel de Barros, "poesia é voar fora da asa". É sair da obviedade do seu mundo e viajar para outros espaços de si mesmo.
 Quando viajamos o tempo corre alterado. É que passamos a observar as entrelinhas dos lugares, alcançando suas profundezas.
 Talvez seja isso que nos falte: alcançar as profundidades da vida, desprezando e desbravando mais as próprias fronteiras que os abismos do lado de fora; descobrindo mais de seus mistérios e despropósitos que de suas resoluções e metas para o próximo ano; descobrindo-se mais poesia que poeta; mais ventania que alicerce; mais orvalho que temporal; mais aroma que perfume; mais sabor que paladar.

 Com o tempo a gente aprende: reinvenção é melhor que perfeição.

 E vamos descobrindo que é possível nos reinventarmos todo dia, fazendo nossa leitura do mundo da maneira mais bonita que soubermos, buscando nossas respostas no vazio ou no barulho do vento, na tristeza ou no desbordamento do sorriso.
 Ou então, feito menino de Manoel de Barros, o menino que queria carregar água na peneira e gostava mais do vazio que do cheio _ "falava que os vazios são maiores e até infinitos..." _ descobrindo que quem dá a dimensão para o mundo somos nós. Nós e nossa leitura do mundo, reciclando e renovando a cada dia, nem que seja "usando borboletas"...

                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES

domingo, 9 de novembro de 2014

O especial dos dias

 De vez em quando acontece. Um dia para ser lembrado por muitas outros dias, aumentando, diminuindo, avançando e rebobinando até que a mente se canse e a alma se satisfaça a menor lembrança de tudo que foi vivido.

 Ontem foi uma dessas noites. E senti-me abençoada e recompensada por ter sido escolhida para estar entre pessoas do bem, por uma causa nobre, numa festa onde artistas e crianças deficientes repartiam o mesmo espaço, oportunidades, possibilidades.

 E então a gente entende que a semana pode vir com tudo, que a gente já teve alegria suficiente para repartir por muitos dias; que de vez em quando a quebra da rotina nos torna melhores para cumprir com todo o resto, e que um excesso de realidade pode chocar, mas também nos ajuda a valorizar os milagres cotidianos.

 Deixei meu filho de oito anos em casa e estive bem perto de outras crianças, por volta da idade dele, todas com alguma deficiência. E não pude deixar de me colocar no lugar daquelas mães e famílias que estavam num momento de festa, de alegria, mas que também teriam sua volta à realidade assim que chegassem em casa. E penso que em algum lugar dentro daqueles pacientes, aquela era uma noite especial também; uma noite que poderá ser revisitada nas horas de desânimo e dor, quem sabe trazendo algum alívio, ou simplesmente paz.

 Quanto a mim, acordei com a sensação de ter sonhado. E acredito que mudei um pouquinho também. Por acreditar num mundo que ainda é solidário, em pessoas que seguem fazendo o bem, nem que seja doando cinco reais. E fico grata de ter feito parte desse time, sabendo que fui um grãozinho no meio daquela noite especial.

                                                                                                                              FABÍOLA SIMÕES





sábado, 8 de novembro de 2014

Inclusão,AACD e Teleton 2014

 Há aproximadamente dois meses, fui convidada para participar da bancada dos blogueiros ( em posição stand by) do programa Teleton 2014, do SBT, em prol da entidade AACD.

 Infelizmente nunca pude acompanhar o programa, e por isso fiquei na dúvida se aceitava o convite ou não; mas hoje, dia em que devo me integrar ao time Teleton, agradeço a oportunidade de participar dessa corrente do bem, que visa angariar fundos para a entidade AACD.

 Pesquisando sobre essa Associação, descobri que já existe há 64 anos e tem como objetivo não apenas curar os portadores de deficiências físicas, mas reabilitá-los e, mais do que isso, integrá-los à sociedade, ao meio de trabalho, ao convívio social.

 Porém, o que mais me chamou a atenção foi a preocupação com a inclusão, para que a igualdade seja alcançada da melhor maneira possível. Além disso, acreditam numa sociedade que convive com a diferença, porque reconhece em cada indivíduo sua capacidade de evoluir e contribuir para um mundo mais humano.

 A AACD foi fundada por um médico _ Dr Renato da Costa Bonfim _  que em 1950 reuniu um grupo de idealistas e fundou o primeiro centro de reabilitação na cidade de São Paulo.

 Meu objetivo nesse post não é apenas divulgar o trabalho da AACD e solicitar doações, mas acima de tudo, esclarecer e informar (a quem não tem ideia _ assim como eu não tinha), o que representam as doações e o programa Teleton.

 Convidada, e agora orgulhosa de participar, fui atrás das informações e sinto-me honrada do convite. Certa de que posso acrescentar parte de mim a esse trabalho, peço aos leitores do blog e seguidores da página no facebook e instagram que tirem um pouquinho do seu tempo para acompanharem o programa hoje pela TV ( SBT, TV Cultura, Fox Life e Nickelodeon) e se inteirem da necessidade de serem solidários, nem que seja com cinco reais.

 Ficam aqui os telefones para as doações:

 Para doar 5 reais: 0500 12345 05
 Para doar 15 reais: 0500 12345 15
 Para doar 30 reais: 0500 12345 30

 Ou acesse: teleton.org.br

 Estarei hoje, no SBT, a partir das 19:00 horas.

 Desde já o meu muito obrigada!!!
                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Aviões de papel

 Minha casa foi invadida por aviões de papel. Na mesa da sala, nos degraus da escada, no quarto de brincar e de dormir... os modelos, dos mais variados tipos e potências, aterrizaram em nossos passos e espaços.
 Meu menino, que também adora tevê e videogame, anda descobrindo o prazer da simplicidade.

 O tempo passa e permanecem as coisas mais simples. Como peão que rodopia e traz pra perto do filho a infância dos pais, a simplicidade ensina que a eternidade mora nos detalhes; na cauda do avião de papel milimetricamente ajeitada pelo avô e na mancha de farinha que colore o colo da mãe. Simplicidade de presença sentida e ausência sofrida, pés no chão e olhos atentos, vontade e verdade _ intercaladas e misturadas _ trazendo a noção de que ser simples é estar inteiro. Não necessita retoque, glamour, etiqueta. Não exige aprovação, só adivinhação. Desapegado se faz do consentimento alheio, dos comentários digitais, dos olhares de recriminação. A simplicidade gosta de rascunhos sinceros, poeira varrida pelo vento, fotos desbotadas pelo tempo, verdade escrita pela caligrafia da honesta presença e sinceridade ilesa de retoques corretivos.

 Os aviões de papel mostram que nem tudo que parece perfeito será sempre melhor. Que a imperfeição e escassez de luxo podem ser reconfortantes e causar saudades permanentes. Que nos momentos onde a madeira lasca, a água é escassa e o feijão e café, mais ralos, a lembrança torna-se mais aguda, e _ apesar de toda ranhura _ mais bonita.

 Muita história de amor foi construída sob um teto de dificuldades; estante da sala de caixotes de feira, paredes caiadas de tinta diluída, café da manhã com pão amanhecido. E arrisco acreditar que as adversidades tenham feito o amor mais forte, apesar de simples.

 Tenho saído todas as manhãs para caminhar num parque perto de casa. Sim, sou abençoada por ter uma lagoa linda pra contornar, e uma paisagem exuberante pra me acompanhar. Hoje cedo, a fonte, numa das margens do lago, estava ligada. Tocava Frank Sinatra e durante minha passagem fui presenteada com duas músicas que adoro, Moon River e Cheek to Cheek. De repente percebi que a felicidade se constrói assim, não de uma vida perfeita _ e ilusória _ mas de momentos simples e concretos. Sozinha, agradecida por ter meu corpo funcionando perfeitamente, tendo a facilidade de frequentar esse parque que se avizinha à minha casa, sentindo o sol e o vento em meu rosto, senti-me premiada com o script e a trilha musical extremamente clichês e simplesmente perfeitos.

 Pode demorar algum tempo para percebermos que a simplicidade carrega dádivas. Que um aviãozinho de papel num dia de vento pode ser mais prazeroso que um quarto cheio de brinquedos. Que caminhar sem preocupação por uma paisagem exuberante traz mais resultados pra saúde que correr doze quilômetros em uma hora de esteira na academia; que um bolo simples, sem recheio ou cobertura, saído do forno acompanhado de café quentinho é mais gostoso que a torta holandesa da confeitaria; que o rosto recém lavado, saído do banho, pode ser mais sexy que o olho preto com cílios postiços e delineador fatal; que um elogio sincero e inesperado levanta mais a relação que o presente obrigatório no dia especial; que a presença verdadeira _ sem relógio, celular ou plano de fuga _junto aos filhos traz saldos muito mais positivos à infância que qualquer tablet repleto de apps.

 Meu filho continua inventando modelos de aviões de papel. Pesquisando na internet ou recebendo a ajuda do porteiro do condomínio (um exímio construtor de aviões), vai aprendendo que qualquer folha bem dobrada pode modificar um fim de tarde comum.
 E eu sigo como observadora de sua corrida atrás dos aviões de papel, percebendo que a vida pode sim, ser mais simples _ se a gente quiser... e permitir.

                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES










  

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Trégua

 Quando me tornei mãe, um dos meus maiores medos era que meu filho colocasse grãos de feijão no nariz ou ouvido. Já tinha ouvido histórias semelhantes na família e aquilo me parecia muito comum, apesar de perigoso. A fase de cometer tal delito passou, e com o passar dos anos, outros medos, igualmente pertinentes ou não, vieram se somar ao meu repertório de mãe atenta, preocupada, precipitada.
 Mas o tempo passa e vamos percebendo que as profecias sombrias nem sempre se concretizam; que o medo paralisa e aprisiona, que podíamos usufruir mais da paz que nos é dada por direito se apenas déssemos uma trégua.

 E percebo agora que o mundo precisa de trégua. Que podíamos ser bem mais felizes se apenas usufruíssemos da vida que Deus nos deu _ como prova de amor _ sem receio de levantar e cair, sem medo de que nossa vida vire de cabeça pra baixo se o outro optar por uma forma de viver que julgamos incorreta, sem enxergar maldade onde há apenas escolha, sem dar nomes obscuros ao que a gente desconhece. Precisamos de trégua; de olhar para o próximo com mais amor e tolerância, sem achar que algumas maneiras _ diferentes das nossas _ de ver o mundo podem contaminar nossos filhos ou as gerações que estão por vir. Trégua pra aceitar as diferenças, trégua pra abraçar o desconhecido, trégua para enfrentar os tabus.

 Estou lendo a biografia de Malala, que ganhei de minha mãe no último fim de semana. Muito além da história da menina que ganhou o Nobel da paz e tornou-se símbolo da luta pelos direitos das mulheres _ principalmente por educação num país massacrado por leis rígidas e religiosidade sufocante_, o livro narra a história de um povo que tem medo. Medo que sua população pense, que os costumes mudem, que as mulheres possam ter direitos iguais aos homens. É Malala quem diz: "Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar."

 O terrorismo no mundo muçulmano é a materialização do medo numa sociedade que não aceita mudanças, que não dá tréguas à evolução e não tolera diferenças ou divergências. Sob o domínio do Talibã, que acima de tudo é uma organização que teme (e por isso espalha o terror), o Paquistão tornou-se terra de desigualdades e distorções dos direitos humanos.

 No Ocidente, o medo também conduz e massacra em nome de uma Verdade pura e intocável. Muitos cristãos _ que conforme o nome diz, deveriam seguir os ensinamentos de Cristo _ ainda têm dificuldade de aceitar os preceitos que esse mesmo Cristo propagou durante sua existência, e colocam restrições a um dos maiores mandamentos :"Amar ao próximo como a ti mesmo", caso esse próximo não se enquadre naquilo que ele julgue certo, ou melhor dizendo, ' do lado do bem'. E se indignam com mudanças, com o novo que chega, como as novas _ e louváveis_ mudanças na igreja católica a partir do grande Papa Francisco.

 O temor que não permite às mulheres o direito à alfabetização no Paquistão (pois desta forma também terão direito ao livre pensamento), é o mesmo medo que faz com que Papa Francisco _ pasmem _ seja rejeitado ou olhado com olhos duvidosos por alguma parcela de religiosos dentro da própria igreja católica.

 O medo de que os limites sejam rompidos _ pois 'o que faremos com nós mesmos se não houverem tais limites?'_ assusta e incomoda, pois reflete a insegurança: 'o que será de nós agora que tudo o que pensávamos que era não é mais?' E mais ainda: 'o que faço com o medo que tenho do mundo que deixaremos para nossos filhos se as barreiras forem quebradas? E se meu filho abraçar aquele que julgo tão diferente de mim? E se meu filho quiser ser, ele mesmo, tão diferente de mim?'

 Mudanças. Ninguém disse que seria fácil assimilá-las. Porém, é a única maneira de não retroceder. O único jeito de descobrir que existem outras formas _ diferentes, e nem por isso erradas_ de enxergar uma mesma situação. Só temos que estar dispostos. Abertos a abrir mão de nossas convicções e aprender a enxergar com o coração, percebendo que nem tudo é negativo; e muito daquilo que julgamos difícil de entender, está aí para nos ajudar a evoluir. 

 Malala e Papa Francisco nos desacomodam. Tiram de nossa zona de conforto e nos colocam a refletir. A dar uma trégua aos temores que assolam nossa existência, e ousar construir um mundo mais igualitário e melhor, onde os verdadeiros Direitos Humanos sejam cumpridos, com dignidade, tolerância e amor. Onde o medo não gere arrogância nem tirania.

 Quanto a mim, prometo dar uma trégua a meus receios maternos também. A fase dos grãos no ouvido passou, mas virão outras inseguranças igualmente preocupantes e claustrofóbicas. Que eu possa dar limites baseada no objetivo de fazê-lo crescer e ser capaz de fazer suas próprias escolhas no futuro; mas nunca, jamais, com o propósito de amedrontá-lo e assim acorrentá-lo a mim.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Mudanças

 Sempre achei que transferir o título de eleitor fosse a conclusão máxima de um projeto de mudança. Semelhante a conseguir se desfazer do guarda roupa na casa dos pais (que continuam morando no interior enquanto você se mudou para a capital), transferir o título de eleitor é admitir que não há mais volta, o adeus foi consolidado, não existe possibilidade de retorno.

 Morando há anos em Campinas, meu título continuava ligado ao sul de Minas, e era sempre uma ótima desculpa para uma viagenzinha de dois dias ao interior, à casa de meus pais.

 Mas nem sempre _ quase nunca _ nossos planos são definitivos. Brisas leves ou ventos súbitos podem mudar nossas órbitas num piscar de olhos. Pensando controlar nossos pontos cardeais com a precisão de bússolas competentes, desconhecemos a força e o empenho do acaso.
 E como guarda-chuvas que se dobram à grandes tempestades, quebrando a armação e revirando o tecido do avesso, é sempre tempo de descobrir que somos mutáveis também. Que muito além do novo corte de cabelo que denuncia grandes mudanças na vida ( quem nunca?), acatar o inesperado desejando boas vindas ao novo é sinal de sabedoria.

 Transferir o título de eleitor é aprender a aceitar o fim de um tempo e o começo de outro. Quem me ensinou isso foi dona Clau, minha mãe.
 A senhorinha, muito mais que mudar o corte de cabelo, abriu as portas para a novidade em sua vida com o vigor de uma jovenzinha. E me ajudou a aceitar a morte de um tempo também, ao dar-me o exemplo de seguir adiante.
 Há dois anos, logo após sua definitiva mudança para Campinas, fomos ao cartório, nós duas, pedir a transferência. Saímos de lá deixando uma parte de nossas vidas definitivamente para trás.

 Porém, ainda assim, ela precisava de uma última decisão. Na semana seguinte me apresentou outro voucher. Não ia viajar, mas tinha comprado uma vaga _ para todos nós _ no cemitério de Campinas. Quase caí pra trás! Mas aos poucos compreendi a realidade _ e a necessidade de seguir em frente.

 Com ela aprendi que a reinvenção de uma história só depende de nossa vontade e coragem de dar o primeiro passo. Lamentar o que aconteceu faz parte _ ninguém é de ferro _ mas daí por diante quem determina o espaço para a alegria ou tristeza somos nós mesmos.

 Nós e nossa capacidade de baixar uma receita nova na internet e preparar um lanche da tarde diferente; nós e nossa vontade de ir ao Ceasa comprar novas mudas de flores e começar um jardim; nós e nossa decisão de nos matricularmos na ginástica, num coral ou numa aula de dança de salão; nós e nosso empenho de frequentar um curso de bordado ou fotografia; nós e nossa decisão de deixar o passado pra trás e começar do zero outra vez.

 Nem tudo é fácil, quase nunca estamos prontos para as medidas mais práticas em relação à vida e à morte. Viver é aprender a conviver com as mudanças que ocorrem com ou sem nosso consentimento, e nos abalam por momentos estreitos ou demorados demais.
 Nem sempre estamos na mesma vibração dos acontecimentos que nos rodeiam, e pode demorar algum tempo até que possamos perceber que estamos no fim de uma história e começo de outra.

 Mudar o corte de cabelo e transferir o título de eleitor podem ser bons começos e rendem ótimos enredos. Pequenos gestos que nos ensinam que crescer não é simples, e deixar partir é doloroso.

 Mas ainda assim, são movimentos que nos fazem caminhar adiante, pois é assim que os relógios giram, as noites acontecem e o sol nasce todas as manhãs.
 Bem vindo à Vida!

                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES