"Estou nas palavras, mas estou, sobretudo, nas entrelinhas..."

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Só quem amou entende de saudade

 Terminando de ler "1933 foi um ano ruim", de John Fante, um dos escritores que mais admiro, o livro acaba de tornar-se mais um de meus preferidos.
 Numa passagem, como tantas outras igualmente comoventes, ele diz: "Fiquei lá deitado na noite branca, observando minha respiração subir em plumas enevoadas. Sonhadores, éramos um bando de sonhadores. Vovó sonhava com sua casa na remota Abruzzi. Meu pai sonhava em estar livre das dívidas e assentar tijolos ao lado do seu filho. Minha mãe sonhava com sua recompensa celestial e um marido cordial que não fugisse. Minha irmã Clara sonhava em tornar-se freira, e meu irmãozinho Frederick mal podia esperar para crescer e se tornar um caubói. Fechando os olhos eu podia ouvir o zumbido dos sonhos pela casa, e então caí no sono." 

 Assim como retrata o autor, nossas saudades são costuradas em momentos aparentemente pequenos, que ganharão grandes contornos lá na frente.

 Toda saudade é feita de pequenos instantes que se transformam em grandes momentos.

 O olhar infantil, a voz não amadurecida, as mãos arredondadas, a recusa em obedecer, a risada barulhenta. Meu menino cresce depressa enquanto tento sugar algum tempo de infância. Virá a puberdade, o crescimento repentino, os braços compridos ao lado dos quadris. A voz mais grave, o sorriso sem jeito, a recusa em nos ouvir. Já tenho saudade dos instantes de meninice que hoje fazem parte de nossa rotina. Como filhotinho agitado, corre pela casa e me convida a alcançá-lo. Apesar dos dias que se arrastam cansativos, ainda tenho fôlego para corridas em volta da mesa de centro, pois a saudade se costura nessas fagulhas de tempo.

 Saudade não é só lembrar; é carregar despedidas também. Despedida da vida que se desenrola no presente ou que insiste em se demorar dentro da gente. Saudade da vida que não se concretizou mas permanece criando raízes em nossa mente.  Despedida da infância dos filhos; da saúde dos pais; do cabelo volumoso e colágeno volátil; do frio na barriga, coração acelerado e surpresa de mãos dadas; do namoro que deu certo, da paixão que deu errado. Do amor que pediu casa, do afeto que criou asas. Saudade do que ocorreu, do que deixou de existir, do que a gente quis e o tempo não consentiu. Saudade de perceber que tudo se transforma num piscar de olhos; e por isso querer agarrar os instantes com precisão, desejando que os vapores do tempo não arrastem pra longe aquilo que não nasceu para ser saudade.

 Através dos sonhos localizamos nossas saudades. Os que deram certo e os que não se concretizaram. Os que imaginamos como verdade ou grandes demais para caberem em nossa simplicidade. Sonhos de ir, sonhos de ficar. Saudade dos planos que imaginamos como certo, da vida boa que existia bem de perto.

 Temos saudade do que a mente sonhou e a vida deixou partir. Do que é lembrado com ternura, e permanece existindo como um refúgio invisível dentro de nós. Do que não resistiu como memória palpável, mas jamais deixará de fazer falta. Do que fomos, do que queríamos ser, da parte de nós que teve que ser deixada para trás.

 A gente vive e não sabe do que vai ter saudade. Porque saudade não avisa que o presente vai virar lembrança, e poucas vezes distingue o estável do passageiro. Algumas coisas o tempo leva sem piedade, e a gente antecipa a saudade do que não permanecerá. Talvez seja isso que vem dar sabor_ a noção de que passará _ como a própria vida que chega e sabemos que findará.

 "1933 foi um ano ruim" é baseado em fatos autobiográficos. O livro, assim como "Espere a primavera, Bandini", do mesmo autor, comove por nos confrontar com as impossibilidades da vida humana.

 As impossibilidades que todos nós enfrentamos diariamente, em batalhas dentro ou fora de nós. A saudade é só uma delas. Porém, mesmo denunciando a falta, mesmo doendo, tem um quê de poesia e beleza.

 A beleza que se revela no simples fato de que só quem amou entende de saudade...

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Pipa e Candinha

 Em seu próximo filme, Gregório Duvivier vai dar nome e sobrenome aos seres que nos habitam. Tão presentes e contraditórios, mandões e passivos, escondidos ou escancarados, o ID e o superego serão representados pela dupla personalidade do personagem. Uma hora ele será o certinho Eduardo (superego); outra, o fanfarrão Duca (o ID).

 Se fosse possível opinar, diria que morro de raiva da engomadinha que vive dentro de mim. Com mãos na cintura e pés impacientes, precisa urgentemente de um botox no centro das têmporas e tratamento fonoaudiológico para o tom de suas cordas vocais.

 Durante muito tempo estremeci diante de seus botões hermeticamente fechados até o queixo e saia plissada abaixo do joelho. Feito garota interna, rigidamente educada por freiras, me comportei impecavelmente sem questionar seu domínio, muito menos ousando perguntar se aquela gola engomada não lhe causava claustrofobia. Claustrofóbica vivia eu, tentado ser livre com dona Cândida _ asseada _ dentro de mim.
 Mas tenho descoberto que dona Cândida não é tão poderosa assim. Se a gente souber levar, acaba percebendo que seus botões afrouxam, sua saia sobe e suas rugas de expressão ficam quase imperceptíveis.

 Dento de mim também vive Pipa, um ser tão livre e leve que sobe pelos ares feito pluma dente de leão que a gente sopra e deixa o vento conduzir.
 Pipa não conhece a tirania de dona Cândida. Ao contrario, acha ela um doce e diz que quem exagera sou eu; 'sua voz nem é tão grave assim'...  Pede para que eu alivie a diplomacia e chame-a pelo apelido carinhoso: Candinha. Por desconhecer a sombra de dona Cândida, Pipa consegue sorrir mais, dormir sem pesadelos e desabrochar seu gozo sem medo de ser feliz.

 Pipa não tenta me governar, quer que eu a descubra sozinha. E é verdade que de vez em quando ela vem à tona _ tão descontraída em sua rasteirinha deslizando pelo chão e seu clássico vestidinho de chita _ que não resisto e tomamos uma cervejinha juntas. Nessas horas, meu riso é mais leve; minhas frases, mais confiáveis; meu sono, mais profundo.

 Pipa divide uma beliche com Dona Asséptica. Mas a saia plissada da dona engomada cobre Pipa por inteiro, e por isso quase não lhe ouço a voz nem sinto sua presença. Mas quando durmo profundamente, ela vem me falar aos ouvidos. É certo que nem sempre lembro no dia seguinte, mas sei que ela me conhece mais do que eu mesma. Me diz que preciso me soltar, desabotoar a gola de dona Cândida e ensinar a ela seu lugar. Explicar que sua hora já passou. Foi bom, me orientou por algum tempo, mas agora preciso de mais Pipa e menos Candinha.

 Devagarzinho tenho tentado mudar as duas de lugar. Colocar dona Cândida pra dormir embaixo e Pipa pra dormir em cima. Não é justo que meu governo seja assim tão rígido. Quero mais Pipa em minha vida, me ensinando a voar, a ouvir mais minha intuição, a correr mais riscos, a viajar com menos bagagem.
 Quero aprender a ser conduzida por meus "nãos" também, pois o caminho da liberdade passa por restrições àquilo que não cabe em nossa nova etapa de vida. Que Pipa me ensine a liberdade dos vestidos florais e tiaras no cabelo, o descompromisso com o que não é necessário nem imprescindível, a autonomia que quero e devo ter em minhas escolhas.
.
 Que as regras de dona Cândida sejam ouvidas na sua medida, me colocando no meu devido lugar sem me roubar de mim. Que ela ganhe fala mansa e contornos suaves, e não franza as sobrancelhas quando eu quiser voar. Que me permita ouvir a voz de Pipa, tão melodiosa e difícil de acessar; que me ajude a encontrar meus desejos e neles me enroscar.

 Dona Cândida já não parece tão felina. Era meu olhar que lhe conferia tanta tirania. Pra falar bem a verdade, tem mesmo cara de Candinha, assim, miudinha e faceira, feito espuletinha.

 A gente cresce e percebe que a casa não era tão grande assim, nós é que a enxergávamos enorme. Assim também percebemos que quem deu a medida para o medo, a angústia e a incapacidade de lidar com a própria liberdade fomos nós mesmos.
 E de repente, num dia qualquer, acordamos e percebemos que já podemos arcar com aquilo que julgávamos maior que nós mesmos.
 Não foram os abismos que diminuíram, mas nós que crescemos.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Todos UM

 Somos frágeis. Cada um à sua maneira, somos frágeis. E mesmo tentando evitar, a fragilidade nos alcança, nos incomoda, nos dói.

 O palhaço tropeça no chapéu diariamente em frente ao meu carro, no cruzamento da Andrade Neves com a Barão de Itapura, duas avenidas aqui de Campinas.
 Por mais que evite o contato visual, ele está lá, diante do meu carro confortavelmente fechado, equilibrando quatro bolas que rodopiam sobre sua cabeça coberta com o chapéu.
 A cena se repete todos os dias, e todos os dias evito olhar-lhe nos olhos. Pela repetição do gesto que virá em seguida _ o chapéu se transformando num porta niqueis_ mas principalmente por me lembrar que sou vulnerável como ele.

 Dou-lhe algumas moedas _ sei que no dia seguinte terei que ter novo repertório de trocados_ mas isso não basta. Preciso olhar-lhe nos olhos, conhecer sua história; descobrir se, caso pudesse rechear seu chapéu com notas mais gordas, conseguiria diminuir o peso de nossas fragilidades _ a dele e a minha.
 Não sei se isso ajudará, mas preciso dedicar-lhe tempo. Lembro então que meus sentidos estão impregnados. A presença dos pacientes do Centro de Saúde onde trabalho permanece comigo alguns minutos após a habitual jornada, e meu vestuário está repleto de cansaço.

 O palhaço me recorda que somos frágeis, quebráveis, que estamos vulneráveis à vida e à morte.
 Por isso é tão difícil encará-lo. A vida já é bastante doída para nos doermos mais. Nossas lascas ficam escondidas, enquanto as dele são expostas feito o chapéu que se adianta antes do show.
 Mais fácil escolher logo as moedas no fundo da carteira que ter que justificar nossa pequenez, nossa incapacidade de encará-lo como igual.

 Somos todos iguais. Iguais ao palhaço de rua, iguais ao menino que o quadro do Fantástico representou tão bem no último domingo.
 "Vai fazer o quê?", perguntava a atração, enquanto um ator mirim abordava as pessoas na calçada com um pedido inusitado: "Tio, me dá um livro?"

 Numa sociedade desconfortável perante o clamor das calçadas, ouvir o pedido do menino é mais que escutá-lo. É perceber que ali não se pede dinheiro, nem comida para matar a fome. Mas educação. Um livro. Um pedaço do seu tempo corrido para subir as escadas da livraria e ler algumas páginas para o garoto analfabeto. Um clamor. Um chamado. Uma necessidade de ser visto além dos trapos e do incômodo que provoca por estar ali. Simplesmente por existir.

 Enquanto muitos nem ouviam o que o menino tinha a dizer, outros entravam na livraria e, além de se oferecerem para comprar o livro, liam para o rapazinho. 
 Me surpreendi comovida do outro lado da tela. Comovida como outros tantos que postavam no twitter a mesma emoção. A emoção de perceber que ainda existem pessoas sensíveis ao sofrimento alheio, pessoas que não têm medo de se fragilizar com a fragilidade do outro, pessoas que arriscam seu próprio desamparo ao encarar com coragem o desamparo do menino.

 Hoje quero encarar o palhaço. Quem sabe trocar algumas palavras antes do sinal abrir.
 Sentir-me quase em carne viva ao abordar suas cicatrizes. Mas não vacilar ao olhá-las de frente, assim como devo fazer com as minhas.
 Quem sabe tocá-las, percebendo que somos feitos do mesmo tecido.
 Percebendo que somos um.
 Cada um de um lado do vidro do carro, mas ainda assim, UM.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O teatro da existência


 Tenho descoberto que sou grande interessada em física e filosofia. Fã de Marcelo Gleiser, que tive a alegria de conhecer pessoalmente na fila de autógrafos da última FLIP, o livro "A ilha do Conhecimento", de sua autoria, tem me feito companhia nos últimos dias. Ainda não concluí a leitura _ pela mais pura falta de tempo _ mas, como de praxe, o livro encontra-se severamente sublinhado.

 Numa das partes ele diz: "O teatro da existência se dá no cérebro". E apesar da atividade incessante de nossos neurônios, o "cérebro é cego e surdo para informações que não aumentariam as chances de sobrevivência de nossos antepassados".

 Em outro capítulo diz: "A última palavra é sempre da Natureza: ela pouco se importa com nossos sonhos de perfeição ou beleza estética". 

 O que pode ser um imenso alívio quando se trata de expectativas ou necessidade de controle. E pode explicar alguma coisa em se tratando do acaso ou eventos aleatórios que desencadeiam uma grande ocorrência.

 Ao falarmos sobre o teatro da existência, falamos sobre a percepção que temos do mundo ao nosso redor, e o que esse mundo nos oferece ou deixa de oferecer. Como reagimos ao que falta ou sobra em nossas vidas.

 Nosso cérebro capta uma realidade severamente incompleta, e formula sua concepção diante do todo da forma que lhe é mais conveniente para sua auto proteção e preservação.

 Como no filme "A Culpa é das estrelas", há uma quantidade infinita de números entre o zero e o um, e muito mais entre o zero e o dois. Há o 0,1; o 0,12; o 0,112...

 Assim, por mais que enxerguemos somente o zero, o um e o dois, entre eles há uma outra infinidade de números que também ditam as regras de nossa existência _ os percalços e falhas, as vitórias e a boa sorte _ e nem nos damos conta, acostumados a lidar somente com a realidade a que fomos condicionados a experimentar.

 O teatro da existência consiste na forma como lidamos com aquilo que interpretamos como realidade. Porém, a realidade não é só aquilo que nossos sentidos captam; mas algo muito maior, em constante harmonia ou desarmonia com o Universo. Dar sentido a esse teatro cabe a cada um, do jeito que lhe é mais conveniente.
 Porém, nem sempre encenamos as peças que desejamos.
 Tentar 'dançar conforme a música' é buscar, de algum modo, equilibrar nossas vidas. Porém, colidir diretamente com aquilo que não está fluindo é varrer poeira contra o vento. Mais ou menos como escrever e encenar um teatro desgastante e desnecessário; com muito drama, suor e lágrimas pra pouco conteúdo e consistência.

 "O modo como cada pessoa escolhe se relacionar com essa escuridão define _ ao menos de forma geral _ como cada um vê a vida e seus mistérios" escreveu Gleiser.

 As religiões vieram amparar esse medo perante a Natureza, o Universo, a existência. A fé traz esperança, ao segurar-nos pelas mãos e carinhosamente afirmar que existe uma Verdade Final. O teatro da existência ganha sentido quando acreditamos nessa Verdade, capaz de justificar e amparar todo sofrimento e angústia que 'O Existir' traz.

 O teatro da existência ocorre no cérebro. Dessa forma, deveríamos criar espaços internos que nos permitissem ter um recanto de paz, longe de todo barulho que a realidade dos sentidos traz.
 Nunca fiz meditação e me arrisquei pouco na Yoga, mas imagino que criar espaços internos seja como meditar ou orar.

 Como a oração é a única prática que conheço, acredito que é uma forma de estar em sintonia com a Natureza, com a Verdade, com o Todo a que faço parte.

 Aceitar o desconhecido, aquilo que não fomos condicionados a enxergar, é difícil. Segundo as palavras do filósofo Heráclito: "A Natureza ama esconder-se". Assim, a busca por uma conexão com a Verdade é uma busca corajosa, que implica deixar antigas concepções de lado _ romper o vínculo com o conforto _ e arriscar-se numa profunda e dolorosa mudança de perspectiva.

 O Deus que habita em mim e nO qual acredito, é um Deus de Amor. Um Deus que não pune, mas acolhe. Um Deus que não pede sacrifícios, mas aceita o pecador. Se estar em harmonia com esse Deus me coloca em confronto com alguns dogmas que me ensinaram no decorrer da vida, é perante esses dogmas que minha realidade mudou.

 E mais uma vez cito Adélia Prado, a quem Padre Fábio de Melo dedica seu último livro com a seguinte frase: "Para Adélia Prado que, na intimidade de sua casa, confessou-me um desconsolo comovente: 'Esqueceram de nos contar que Deus é amor'".

 Esqueceram de nos contar que Deus é amor, que nós somos e carregamos a partícula divina; que a Verdade acolhe e não segrega; que o Amor abrange, e não distingue.
 Ao compreender a verdade de que ao pecador também é reservado o direito de sentir-se amado por Deus, sinto-me em paz e amparada por tranquila certeza. 

 O teatro de minha existência tem tido desfechos e novos atos cheios de curiosa busca por conhecimento. Meu desassossego tem me trazido paz, por mais paradoxal que isso seja.
 Por me tirar da zona de conforto, da mansidão do que é conhecido, e me lançar numa interação maior com aquilo que não é reconhecido pelos sentidos, mas que verdadeiramente existe e é.
 Por permitir-me abrir compartimentos trancados de intuição e completude ao Todo que nos rege.
 Por modificar a perspectiva que tenho do mundo e das pessoas.
 Por descobrir que falhas nos permitem avançar.
 E finalmente, por constatar que o que importa realmente é aquilo que ainda não sabemos ou estamos impossibilitados de enxergar _ os tais números entre o zero e o um, ou entre o um e o um milhão."O essencial é invisível aos olhos..."

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES





sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Carta ao Tempo


 Querido tempo:
 Assim como a letra de Maria Gadú, quero fazer um acordo contigo.
 Nosso vínculo não tem sido o dos melhores, e cansei de ser submetida ao seu domínio. 
 Como já disse anteriormente, não desejo mais corridas em minha vida. E por mais que resista, você me faz correr. Por mais que declare independência, você insiste em me submeter.
 Já não quero mais ser controlada por você. O tempo dos relógios me cansa. E me faz perder tempo _ o velho paradoxo em que a vida dos ponteiros nos faz perder tempo na vida...
 Meu cotidiano foi invadido por compromissos, responsabilidades, horários. Tudo isso faz parte, você dirá, e até posso concordar com você _ é assim que educamos nossas crianças, não é? Desde muito cedo com um relógio no pulso e regras rígidas que compõem o que chamamos rotina.

 Mas se damos a mão, você quer o braço. Por isso sinto-me sugada por você, "senhor tão bonito". Não deveria ser assim.
 As regras não deveriam valer para mães, por exemplo _ mães de meninos que crescem depressa, enquanto cumprimos a aceleração dos ponteiros fora de seus horizontes.
 Também não deveriam valer para almoços de família com netos reunidos em volta de uma mesa barulhenta.
 Quebraria suas regras todo e qualquer pai que trabalhasse fora e só lhe restasse a noite para estar com sua família _ o tempo das estrelas poderia durar muito mais, antes dos pijamas chamarem para o sono...

 O senhor tem me feito uma pessoa diferente daquela que planejei. Tenho andado ansiosa, falando rápido e comendo apressada. Me enervo com o motorista lento à minha frente e peço para meu filho não enrolar diante da tv na hora de ir para a escola. Beijo meu marido sem olhar-lhe nos olhos e fico impaciente com as filosofias de minha mãe ao telefone. Aliás, parei de gostar de telefone por sua culpa ( acho que esse foi um ganho... ou não?). 
 Mas o pior é constatar que poderia andar mais devagar, não fosse o senhor me empurrando pra todo canto. Eu poderia escolher um CD bem bacana pra ouvir no carro enquanto o motorista vagaroso desfila à minha frente; poderia assistir ao Tom & Jerry com meu filho antes da escola e rir ao seu lado descontraidamente. Poderia agradar meu marido com uma presença simples, de semblante apaziguador; poderia conversar com minha mãe sem pressa e até gostar de um telefonemazinho de vez em quando.

 Mas sabe? O senhor está me esgotando. Pensando que é dono de meus caminhos e senhor do meu pulso, me conduz sem negociada compaixão. Porém, minhas pulsações cansaram de seguir o tic tac dos segundos em sua cadência compassada e ritmada. 

 Meu compasso é outro, e mesmo que minhas obrigações determinem certas programações, hoje peço-lhe alforria. Quero a paz dos libertos e a serenidade dos escolhidos.
 Não quero o tempo de Benjamim Zambraia _ da obra de Chico Buarque _ cujo prazo se esgotou no momento em que percebeu que poderia ter se detido 'nos momentos que lhe pertenciam, e que antes não soubera apreciar.' Ou que poderia, tarde demais, 'penetrar em espaços que não conhecera, em tempos que não eram o seu, com o senso de outras pessoas'.

 O tempo é relativo, dirão os físicos. Pra mim tem se tornado escasso onde quero demorar-me. E escolhi demorar-me no cheiro de canela, nas páginas de Phillip Roth, no cafezinho cara a cara com minha mãe, nos lençóis com meu marido, na bola rolando despretenciosa com meu filho. Longe dos relógios burocratas e compromissos agudamente pontuais.

 Por isso peço-lhe tempo. Sim, o tempo dos amantes quando se desentendem. Me dê um tempo. Tenho que repensar nossa relação tumultuada, nosso pouco entendimento, meu receio de tornar-me 'Benjamim Zambraia'.

 Pode ser que daqui a algum tempo eu me reconcilie contigo. Mas no momento presente, a pressa me desafia e não desejo afrontá-la.
 Quero apenas os momentos que me pertencem _ todos eles _ inteiros, sugados até o fim. Sem pulsações apressadas que me indiquem que é hora de partir.
 Quero ser dona de minha hora, senhora de meus minutos, consciente de minhas pausas.
 E aí então, pronta para o desfecho final, olhar satisfeita para a existência projetada do começo ao fim e constatar:
 Fui, vi e vivi. Realizada e feliz.
 Apesar do tempo, nesse tempo:
 Fim.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES   

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A você, que me fez enxergar tudo o que eu poderia ter

 Algumas pessoas nos refletem melhor do que somos. São espelhos em que nossa imagem fica mais serena e brilhante do que realmente é. Através de seus olhos, nossa trajetória ganha contornos inusitados, como tela nua em que os pincéis dançam uma coreografia certeira até formar o significativo desenho. Perto delas, nossas cores se mesclam, e mudam do abstrato para o concreto num instante.

 Seu aniversário chega amanhã; e ontem, durante o jantar, tentei pensar no que lhe escrever. Eu, que fiquei devendo o cartão do Dia dos Namorados, não poderia ser duplamente abstinente. Não de você.

 Você, que há quatorze anos me fez enxergar o que eu poderia ter, e mais ainda, me permitiu descobrir o que havia em mim, além daquilo que eu simplesmente me restringia entender.
 Eu não sabia que poderia querer todas essas coisas que hoje fazem parte de nossas vidas juntos. Não sabia que haveria tanto chão em nossos pés e tantas asas em nossos planos. Que nossas mãos se uniriam mais nas dificuldades que na bonança, mas seriam cúmplices de uma alegria sem beiradas, enquanto enfrentariam os dias mais tempestuosos com uma delicadeza abissal e respeitosa à dor.

 Você, que também trouxe dúvidas, mas soube apaziguar as punições do amor com sua certeira generosidade. Você, que chegou quando a vida começou a doer, e trouxe um recanto para minhas fragilidades, uma enseada para meus devaneios tão inconstantes.

  Durante o jantar, não soube o que lhe escrever. Enquanto os garfos batiam nos pratos e bebíamos nosso vinho de todas as noites, nosso menino não parava de falar. Ele tinha desenhado uma fênix e queria colocar mais detalhes no papel. Eu jantava procurando a imagem na internet enquanto você falava sobre o carnê do INSS. Nossa rotina tão particular, tão nossa, interrompia meus pensamentos enquanto eu deixava o prato mais uma vez para atender ao telefone. Você dizia que eu não devia fazer isso _ "hora do jantar não é para ser interrompida"_ e eu concordava atendendo seu pai do outro lado da linha. Assim vivemos, assim envelhecemos juntos (ia escrever 'crescemos', mas percebi que essa fase de crescimento ficou lá atrás, rs!). Mas crescemos também, em nossas conversas, confissões no meio da noite, piqueniques escondidos no quarto de visitas, dificuldades e tempestades que enfrentamos amparados pelas mesmas mãos que hoje se agitam na torcida por nosso pequeno na natação ou no tênis, nas comemorações da escola ou em nossas vitórias tão particulares _ pequenas aos olhos do mundo, gigantes para nós dois.

 Ao pensar-me parte de nós dois, percebo o quanto nossas vidas se entrelaçaram. E lhe agradeço por ter despertado em mim a melhor definição que aquele esboço poderia tomar.
 Por ter permitido que eu trilhasse um caminho coerente comigo mesma; e principalmente, me ajudado a enxergar tudo o que a vida poderia me dar.

 Feliz Aniversário!
 Com amor,
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES



   

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O parto de um nome


 No site de Eliane Brum (http://desacontecimentos.com/nomes/), surgiu o desafio: "Com o sonho de construir um museu vivo de nomes encarnados, Eliane convida vocês leitores a narrar as histórias de seus nomes e como convivem com eles."
 Como sou fã de Eliane, topei o desafio. E ontem, enquanto aguardava na sala de espera do médico, surgiu o ensaio.
 Gostei de aprofundar em meu nome. Da palavra sinto-me surgir mais forte, agora que minhas letras atingiram sua forma menos rebuscada e mais constante, porém nunca definitiva.
 O texto que se segue é a história que narrei e enviei ao site de Eliane. É o texto que divido agora com vocês, e os convido a fazerem o mesmo. Pois como diz Eliane, "o nome nos precede. E contém, de certo modo, a história que vem antes da gente". Qual é a história com seu nome?

 O parto de um nome:

 Meu nome nasceu no entrelaçamento de mãos de meus pais. Enquanto ainda era sonho, fui gerada em apelido: Dobinha, a filha da Dobi _ apelido carinhoso que o pai deu à mãe.

 Um ano depois, já casados, o sonho tornou-se concreto nas contrações da quadragésima segunda semana de minha mãe; e vim ao mundo Fabíola, nome de princesa convertida, personagem título de um livro que meus pais leram em segredo um do outro, antes de se conhecerem. Por coincidência ou destino, grifaram o nome para usarem quando a hora permitisse. O tempo chegou me trazendo primeira numa família de três irmãos _ única mulher, única com nome de princesa mártir do Cristianismo (o título poderia ter sido um fardo, mas nunca dei importância a isso...)

 Cresci percebendo com certa estranheza que carregava um nome raro, por vezes difícil de ser escrito ou pronunciado. Desde muito cedo me habituei a auxiliar a grafia, do cartório à conta da padaria, repetindo com certo orgulho: "Escreve-se com 'O' e acentua-se o 'Í'..."

 Nunca houve outra Fabíola pra dividir a antecedência através do sobrenome na chamada de classe. Também não encontrei nenhuma nos corredores do trabalho ou academia de ginástica. Vez ou outra esbarro em alguma, mas a ausência de repetições me apazigua. Me traz o conforto de perceber-me única.
 Eu, que demorei tanto para separar-me da Claudete, minha mãe, e gerar-me independente, hoje valorizo cada letra do nome que me definiu tão cedo, mas que tem ganhado contornos mais simples e certeiros só agora, em minha narrativa madura, mais constante e menos consoante.

 Ao primeiro nome somaram-se os sobrenomes, e não diminuí nenhum ao arrematar o ponto final com o Lopes, que herdei da família espanhola de meu marido, há treze anos. Me assumi também Lopes, sem deixar de ser Brito ou Simões. Segundo as palavras de Mia Couto: "família não é coisa que exista em porções. Ou é toda ou não é nada".

 Porém, ao ingressar naquilo que hoje também me define _ escrever_ quis assumir-me apenas Simões. Se escolhi o "Simões" acima do "Brito" ou do "Lopes" foi porque esse lado da família ( herdado de minha mãe) me pareceu o mais artístico, cigano, e talvez o maior responsável por pulsar tanta sensibilidade em minhas veias. Imagino que lá atrás tenhamos sido artistas mambembes, saltimbancos ou donos de picadeiro; não conheço a trajetória e por isso deixo o pensamento voar. Tenho assinado mais Simões desde então.

 E lembro meu avô: O Simões da bengala e pão 'Câmbio Negro'. O Simões da Bíblia aberta e jogos de xadrez. O Simões do caráter inabalável e olhar certeiro. O Simões centenário, da barbearia e dos três casamentos. O Simões que enviuvou três vezes, e gerou minha mãe como a filha derradeira da último união. É esse Simões que trago comigo. O Simões da Dona Conceição, o homem que não comia enquanto todos não estivessem servidos.

 Já não sei contar tantas histórias do Vô ( mais vô que vovô) Simões _ era muito idoso quando me fiz Fabíola_ mas de uma forma que não sei explicar, é o sobrenome que escolhi sustentar, e que hoje me define também.

 Se fui gerada apelido, hoje firmo minha assinatura com mais vogais que consoantes, e gosto da forma redonda que ela toma, menos aguda com o passar do tempo, apesar do acento que teima em se manter no meio da palavra. É assim que quero ser: redonda, sem arestas, com mais consistência e maior consciência de mim. Carregando o legado dos Simões, dos Britos; e por convivência, dos Lopes.
 Assim existo, sendo filha do Jarbas de Brito e Claudete Simões, esposa do Luiz Lopes e mãe do Bernardo, que é Simões, Brito e Lopes, como eu.

 Porém, acima de tudo, sou as letras e acentos que compõem e costuram a narrativa única que escrevo de próprio punho, tentando _em vão _ segurar os vapores do tempo de minha própria existência.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES