Nove anos

 Nunca soube de fato quando foi que aprendi a assobiar. O momento em que meus lábios fizeram a curva exata, formando o arco por onde passaria o ar.
 Talvez você vá se esquecer também _ esses singelos trunfos se perdem pelo caminho _ mas agora, na última semana que antecede seus nove anos, o som de seu recente assobio acusa o tempo da simplicidade, os vestígios de uma época que valoriza os pequenos gestos, o encontro com as alegrias miúdas, muitas vezes esquecidas no decorrer da jornada.

 Seu aniversário chegou hoje, me lembrando as horas daquele dia, há nove anos. Eu não sabia, mas descobriria mais tarde que a vida também é feita de assobios, arquitetura de gravetos, aviões de papel e histórias fantásticas ao cair da noite.
 Hoje, o que me move é estar consciente desses momentos, pois são vapores, e o embaçado do tempo deforma as certezas enquanto rapidamente crescemos.

 Hoje no carro, enquanto dirigia a caminho de sua escola, você me disse que estava ao mesmo tempo feliz e triste por seu aniversário. A tristeza vinha do fato de que estava crescendo. Eu lhe respondi que era assim mesmo, por um tempo a gente cresce, depois a gente envelhece... Sim, eu sei, a realidade é crua, mas a sabedoria está em encontrar algum sentido.

 Vivemos em busca de sentido, como você, do alto de seus oito anos, me pedindo explicações "por que é que eu tenho que estudar pra prova, mamãe, se no final todo mundo vai morrer?" e eu lhe dizendo que antes do final a gente vive um bocado também, e é em função desse bocado que a gente estuda, trabalha, ama, escolhe, se arrepende, se ilude, se desilude, magoa, perdoa, arrepende, acredita, tem fé, batalha, vence_ dia a dia, hora a hora...

"Que o amor nos salve da vida..."



 Essa semana recebi o email de uma leitora, brasileira residente em Dallas, contando sua história. Me pediu um texto. Embora não costuma fazer textos sob encomenda, algo me despertou, e recordei a frase atribuída ao poeta e escritor Pablo Neruda (na realidade a frase é de Javier Velaza), que diz:  "Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida"... 

 Pois a vida é uma experiência dura, muitas vezes confusa, incompreensível e incerta; e reconhecer um abrigo no meio de tanta inquietude é acolher o tempo da clareza, em que tudo passa a ser suprido de sentido.

 Alguns amores nos salvam da vida. Por resgatarem quem somos depois que partes de nós mesmos são deixadas pelo caminho. Por fazerem de nossas cicatrizes parte de suas estruturas também. Por acolherem nossa história com delicadeza, transformando o que era imperfeito numa nova possibilidade. Por permitirem o encontro com a esperança, o cortejo com a fé. Por dividirem as angústias do existir, permitindo que nossos fantasmas sejam lapidados, nunca enterrados.

"A gente só enxerga o que já está preparado para ver"


Peguei a frase-título emprestada do escritor Bernardo Carvalho porque hoje tive uma grata surpresa. Descobri, da melhor maneira que eu poderia imaginar, que ainda há fome de poesia e afeto, de gratidão e gentilezas.

 De vez em quando a gente só consegue enxergar aquilo que está escrito em letras garrafais. Relutamos em aceitar as entrelinhas das despedidas, do mesmo modo que demoramos para acatar a irrefutável verdade de que carregamos dons, temos potencial para sermos amados, e somos melhores do que imaginamos.

A primeira prova

 Uma das frases mais marcantes em "Boyhood" foi aquela, dita pela mãe, quase no final do filme: "Eu só achei que haveria mais".
 Sempre achamos que haverá mais. E constatamos admirados, dia após dia, que sempre há. Porém, nunca do mesmo jeito. Apesar de não nos surpreendermos de imediato, chega uma manhã em que nos formamos na faculdade; um dia em que corremos pra maternidade; uma noite em que os filhos crescem; uma hora em que a gente envelhece.

 Hoje meu filho está fazendo sua primeira prova na escola, e mais cedo apontei seu lápis desejando que saiba lidar com o que virá depois. Depois de descobrir que algumas coisas a gente não pode mudar, mesmo que recorra à borracha insistentemente. Depois de perceber que uma hora ou outra vai duvidar de si mesmo, julgando-se pequeno ou incapaz de prosseguir. Depois de descobrir que pode recomeçar, e que existem inúmeros jeitos diferentes de tentar e arriscar.

Números

 Outro dia, relendo "O Pequeno Príncipe" para meu menino, estacionei numa passagem.

 Assim dizia: "As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: 'Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que preferem? Será que ele coleciona borboletas?' Mas perguntam: 'Qual a sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?' Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dissermos às pessoas grandes: 'Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado...' elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: 'Vi uma casa de seiscentos contos'. Então elas exclamam: 'Que beleza!'"