"Estou nas palavras, mas estou, sobretudo, nas entrelinhas..."

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O parto de um nome


 No site de Eliane Brum (http://desacontecimentos.com/nomes/), surgiu o desafio: "Com o sonho de construir um museu vivo de nomes encarnados, Eliane convida vocês leitores a narrar as histórias de seus nomes e como convivem com eles."
 Como sou fã de Eliane, topei o desafio. E ontem, enquanto aguardava na sala de espera do médico, surgiu o ensaio.
 Gostei de aprofundar em meu nome. Da palavra sinto-me surgir mais forte, agora que minhas letras atingiram sua forma menos rebuscada e mais constante, porém nunca definitiva.
 O texto que se segue é a história que narrei e enviei ao site de Eliane. É o texto que divido agora com vocês, e os convido a fazerem o mesmo. Pois como diz Eliane, "o nome nos precede. E contém, de certo modo, a história que vem antes da gente". Qual é a história com seu nome?

 O parto de um nome:

 Meu nome nasceu no entrelaçamento de mãos de meus pais. Enquanto ainda era sonho, fui gerada em apelido: Dobinha, a filha da Dobi _ apelido carinhoso que o pai deu à mãe.

 Um ano depois, já casados, o sonho tornou-se concreto nas contrações da quadragésima segunda semana de minha mãe; e vim ao mundo Fabíola, nome de princesa convertida, personagem título de um livro que meus pais leram em segredo um do outro, antes de se conhecerem. Por coincidência ou destino, grifaram o nome para usarem quando a hora permitisse. O tempo chegou me trazendo primeira numa família de três irmãos _ única mulher, única com nome de princesa mártir do Cristianismo (o título poderia ter sido um fardo, mas nunca dei importância a isso...)

 Cresci percebendo com certa estranheza que carregava um nome raro, por vezes difícil de ser escrito ou pronunciado. Desde muito cedo me habituei a auxiliar a grafia, do cartório à conta da padaria, repetindo com certo orgulho: "Escreve-se com 'O' e acentua-se o 'Í'..."

 Nunca houve outra Fabíola pra dividir a antecedência através do sobrenome na chamada de classe. Também não encontrei nenhuma nos corredores do trabalho ou academia de ginástica. Vez ou outra esbarro em alguma, mas a ausência de repetições me apazigua. Me traz o conforto de perceber-me única.
 Eu, que demorei tanto para separar-me da Claudete, minha mãe, e gerar-me independente, hoje valorizo cada letra do nome que me definiu tão cedo, mas que tem ganhado contornos mais simples e certeiros só agora, em minha narrativa madura, mais constante e menos consoante.

 Ao primeiro nome somaram-se os sobrenomes, e não diminuí nenhum ao arrematar o ponto final com o Lopes, que herdei da família espanhola de meu marido, há treze anos. Me assumi também Lopes, sem deixar de ser Brito ou Simões. Segundo as palavras de Mia Couto: "família não é coisa que exista em porções. Ou é toda ou não é nada".

 Porém, ao ingressar naquilo que hoje também me define _ escrever_ quis assumir-me apenas Simões. Se escolhi o "Simões" acima do "Brito" ou do "Lopes" foi porque esse lado da família ( herdado de minha mãe) me pareceu o mais artístico, cigano, e talvez o maior responsável por pulsar tanta sensibilidade em minhas veias. Imagino que lá atrás tenhamos sido artistas mambembes, saltimbancos ou donos de picadeiro; não conheço a trajetória e por isso deixo o pensamento voar. Tenho assinado mais Simões desde então.

 E lembro meu avô: O Simões da bengala e pão 'Câmbio Negro'. O Simões da Bíblia aberta e jogos de xadrez. O Simões do caráter inabalável e olhar certeiro. O Simões centenário, da barbearia e dos três casamentos. O Simões que enviuvou três vezes, e gerou minha mãe como a filha derradeira da último união. É esse Simões que trago comigo. O Simões da Dona Conceição, o homem que não comia enquanto todos não estivessem servidos.

 Já não sei contar tantas histórias do Vô ( mais vô que vovô) Simões _ era muito idoso quando me fiz Fabíola_ mas de uma forma que não sei explicar, é o sobrenome que escolhi sustentar, e que hoje me define também.

 Se fui gerada apelido, hoje firmo minha assinatura com mais vogais que consoantes, e gosto da forma redonda que ela toma, menos aguda com o passar do tempo, apesar do acento que teima em se manter no meio da palavra. É assim que quero ser: redonda, sem arestas, com mais consistência e maior consciência de mim. Carregando o legado dos Simões, dos Britos; e por convivência, dos Lopes.
 Assim existo, sendo filha do Jarbas de Brito e Claudete Simões, esposa do Luiz Lopes e mãe do Bernardo, que é Simões, Brito e Lopes, como eu.

 Porém, acima de tudo, sou as letras e acentos que compõem e costuram a narrativa única que escrevo de próprio punho, tentando _em vão _ segurar os vapores do tempo de minha própria existência.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Uma vida sem protocolo

 Há oito anos venho tentando minha redução de carga horária. Trabalhando 36 horas semanais num Centro de Saúde da rede pública de Campinas (atuo como dentista), tento protocolar meu pedido desde que meu filho nasceu. Porém, a solicitação deve seguir um caminho árduo, requerendo assinaturas desde minha chefia imediata, passando pelo Distrito de Saúde até ao secretário_ o último da cadeia geográfica dos postos burocráticos dentro da prefeitura.
 Durante os últimos oito anos, andei com minha solicitação em mãos, de coordenador em coordenador, pedindo gentilmente que assinassem meu pedido. Porém, alegando demanda reprimida no setor, nenhum visto, nenhum passaporte, nenhum carimbo, nenhuma rubricazinha sequer ocorria. Pra piorar, observações escritas em caligrafia tensa denunciavam minha importância imprescindível e irrevogavelmente reduzível.
 Essa semana, porém, uma pessoa próxima ao secretário dispôs-se a me ajudar. Me pediu o número do protocolo. Eu não tinha. Tentei explicar. Ela disse: "Sem número de protocolo, nada feito". Expliquei novamente. Sem chance. Então decidi redigir uma carta. Uma carta sincera, sem protocolo, uma carta direta ao secretário. Você envia? Envio. Obrigada. De nada.

 (Essa não é a carta que enviei, mas poderia ter sido.)

  Prezado Sr Secretário de Saúde:

 Eu não acredito que a profissão de uma pessoa seja a porção mais importante de sua vida. Não, eu nunca pude concordar com isso, e embora tenha aprendido que estudar, fazer uma faculdade e exercer um trabalho com dignidade seja o norte de qualquer vida, ainda assim, não concordo com o peso que alguns cargos ou ofícios possam ter no decorrer dos dias, meses e anos da existência de alguém.

 Busquei uma vida segura. Fui a pessoa mais básica desse planeta; desde os históricos do ensino fundamental até a prova do vestibular para odontologia numa faculdade federal no sul de Minas Gerais. Entrei para as aulas de anatomia e materiais dentários aos dezessete anos e aos vinte e um, já formada, prestei concurso para a prefeitura de Campinas. Passei. Fui designada para um 'postinho' pequeno na periferia, onde cumpria uma jornada comprida, até às dez da noite. Haviam dias em que as luzes dos corredores se apagavam e permaneciam apenas eu, o paciente, e o guarda que fazia a segurança noturna. Não, eu não me queixava. Era o início, e no começo a gente tem aquele gás, aquela vontade de mudar o mundo, de não recusar uma dor, de aceitar tudo o que lhe é posto no caminho. Além do mais, eu só tinha 21 anos, não possuía casa própria, nem marido, muito menos filho. Meu único desejo era ser a melhor profissional possível para aquela população carente. Me especializei aos 22 anos. Aos 23, me candidatei a um cargo como especialista e passei. Fui trabalhar num outro Centro de Saúde, maior e mais desorganizado (sim, des- organizado), próximo ao hospital público da cidade. Também dei tudo de mim. Precisava ser melhor a cada dia naquilo que fazia, e tratar os canais dos dentes da população, impedindo sua perda precoce, era o que me realizava na vida.

 Mas os anos passam, doutor. E embora continuasse me dedicando com afinco à cadeira odontológica, outros interesses vieram se somar à minha vida. Uma vida sem protocolos, mas muito valiosa para mim.

 Para o senhor ter uma pequena noção do tempo que me dedicava ao trabalho em sua prefeitura, quero lhe contar que conheci meu marido nos corredores do Centro de Saúde. Casamos, tivemos um filho.
 Mas sabe, as datas correm, as prioridades mudam.

 Chega uma hora em que é preciso fazer o caminho de volta. E embora eu tenha apenas quarenta anos _ sim, apenas, pois a expectativa de vida aumentou e portanto estou jovem ainda _ já vivi o suficiente para perceber que o quanto antes eu perceber que devo trilhar esse retorno, tanto antes posso me sentir mais realizada e feliz.

 Meus maiores presentes não se encontram dentro de uma carreira profissional, mesmo que isso me dê muita satisfação. Meus maiores presentes estão do lado de fora, em minha casa, no ninho que levei alguns anos de trabalho árduo para construir. É no meu refúgio que vejo meu filho crescer, e me entristeço quando passo o dia todo trabalhando e percebo que só tenho as últimas horas da tarde para usufruir de sua risada barulhenta e mãozinhas carinhosas, que crescem sem noção do desenrolar de minhas horas distante de casa.

 Não doutor, eu não quero uma vida em que o sol fique fora da janela e a voz de meu filho seja ouvida apenas pelo telefone. Quero sentir o vento nos cabelos e conversar olhos nos olhos com meu marido na hora do almoço.
 Eu preciso de uma vida sem protocolos, uma vida em que o respeito a mim mesma e aos que amo venha acima dos ganhos salariais.

 Ganhar menos para mim é ganhar mais, muito mais. Ao estabelecer minhas prioridades, percebo que não posso continuar numa carreira que não me ama como eu aprendi a me amar. Num trabalho que não aceita meus valores como parte do meu ofício também. Não quero me demitir. Gosto do que faço, já lhe disse isso? Gosto dos meus pacientes e da expressão de alívio que eles têm quando a dor vai embora. Gosto de ver a arcada recuperada e o sorriso preenchido outra vez.

 Mas também tenho uma vida fora dos jalecos. E preciso valorizar essa vida que lutei tanto pra construir. Meu pai e minha mãe trabalharam muito, sabia? E meu pai, principalmente, colocava o trabalho acima de tudo. Ele queria que seu pai, meu avô, se orgulhasse dele. Mas não deu certo da maneira que ele pensou que daria. E eu assisti a tudo, doutor. Assisti à glória e à decadência do império que ele construiu. E por isso tento trilhar um caminho diferente. Um caminho onde a família e os afetos vêm em primeiro lugar. Porque no final das contas, de que adianta todo sucesso e dinheiro do mundo se for para brindar sozinho? De que adianta bens e ações sem uma vida para usufruir? Não, doutor. Salário alto não me interessa agora.

 Consegui mais do que pretendia e como disse, é hora de fazer o caminho de volta. Quero caminhar na Lagoa com meu menino, aproveitar o resto do dia no meu quintal, atender aos telefonemas de minha mãe com menos impaciência aos detalhes. Quero deixar meu filho comer em paz sem mandá-lo "andar logo", como tenho feito nos últimos anos.

 Quero mais tempo doutor. Tempo tornou-se artigo raro e preciso daquilo que muita gente chama de supérfluo, mas que pra mim é luxo: ler um livro na rede, conversar com a D. Jandira que trabalha lá em casa, tomar um cafezinho na padaria com minha mãe, ouvir Caetano cantando um dueto lindo com Maria Gadú e me emocionar na parte "Ah... Neguinha... Deixa eu gostar de você..."

 Entende doutor? Ainda não? Não tem problema, eu não o culpo. Muita gente que conheço ainda não entendeu também. Mas é porque a vida ensina de diferentes maneiras, e eu tive a sorte de ter sido espectadora desse tipo de "falta de tempo pra vida" ainda muito menina, como lhe disse. Eles tinham que ir, para provar que eram capazes. E isso tem sua beleza também. Mas o preço é alto, e sorte de quem percebe isso antes do tempo.

 Minha hora chegou. Tenho quarenta anos e não desejo mais corridas em minha vida. A única corrida que anseio é contra o tempo. Aproveitá-lo com quem eu amo e segurá-lo em meus registros de memória é o combustível que me move. Escrever sobre o que vejo também. Por isso doutor, diminua o peso em minhas mãos envolvidas em luvas de borracha. Me permita reduzir o tempo nos jalecos e aumentar a poeira em meus cabelos. Que minha existência seja inundada por milagres cotidianos, aqueles que só os que têm uma vida sem protocolos são capazes de enxergar.
 Com meus sinceros agradecimentos,
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES


Imagem do post: Phoebe Wahl




    

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Carta ao Pai

 Não, essa não é uma carta densa, apesar do título fazer alusão ao livro de Kafka, que você deve conhecer. Confesso que não lembrava mais dele; e só agora, ao trabalhar as idéias, me veio a recordação do livro que não li, mas cujo teor conheço em parte.

 Acredito que para um pai sempre permanecerá a sensação de que foi o ator coadjuvante, o parceiro invisível de nossas mães, a presença acolhida sempre como segunda opção. Mas não se ressinta dessa posição, só assim aprendemos a importância do trabalho nos bastidores, das mãos que ajudam sem fazer alarde, do amor generoso mesmo não escancarado.

 Crescemos como observadores de sua presença. E embora percebêssemos (os filhos sempre percebem mais do que queremos revelar) o peso que sua profissão representava dentro de suas prioridades, fomos lhe descobrindo aos poucos _ mais pelo que queríamos desvendar em você, do que pelas coisas que era capaz de nos mostrar.

 Assim, revirando os baús de minha mãe, lhe descobri mais sensível do que supunha, revelado nas letras e poemas dedicados a ela, em momentos que lhes eram especiais. No silêncio do quarto ela me contava suas histórias, enredos que conheci através de uma narrativa detalhada, nem sempre fiel aos fatos, mas claramente defensora do amor de vocês.

 Sua caligrafia miúda, até hoje semelhante a formiguinhas em fileira, me ensinou o gosto pela escrita, a única capaz de desnudar e expôr espíritos introspectivos como os nossos. Sim pai, reconheço nossas semelhanças... Portanto, aqueles livrinhos datilografados ou escritos em letra cursiva caprichosa, cheios de ilustrações e separados por papel manteiga que a mamãe guardava com tanto cuidado, foram meus primeiros livros. Literatura escrita por você numa época em que eu nem havia nascido. E me inspirava também, ao imaginá-lo surpreendendo, elaborando frases tão complexas para minha infância, dedicando tanto de si. Esse foi meu jeito de conhecer o homem atarefado que habitava nossa casa.

 Também gostava de ouvir seus discos em nossa vitrolinha vermelha, lembra dela? Eu ouvia Vinícius, Chico, Sá & Guarabira, Os Pholhas e Abba; entre tantos outros sucessos da década de setenta.
 E até hoje lembro seus momentos de descontração, toalha de banho na cintura, imitando Ney Matogrosso, enquanto na minha imaginação eu podia jurar que vocês dois eram parecidos... (Desculpa pai, essa foi pra descontrair!).

 Apesar das horas difíceis, também tivemos momentos bons. E hoje consigo entender porque. Nesses momentos você estava lá. Verdadeiramente. Não só pela presença física, mas com cabeça, olhos e coração voltados para o momento presente. Nos olhando nos olhos. Gostando de participar. Desejando fazer parte. Como nas comemorações do Natal em que se vestia de Papai Noel. Um Papai Noel magro, de pescoço fino, pele morena e sorriso conhecido. Um Papai Noel tão meu.

 Dos livrinhos escritos por você, fui alcançando outros em nossa estante cheia de volumes com os mais variados títulos. Assim, entre placas com seu nome gravado ( você era paraninfo de todas as turmas de medicina!), conheci Rubem Alves, Milan Kundera, J.D Salinger, Anton Tchekhov, Tolstói. E você sabe, algumas coisas não mudam, até hoje nossos assuntos giram em torno dos livros _ talvez seja essa a raiz de nosso vínculo.

 Através de seus alunos descobri o homem por trás do pai. Talvez você oferecesse a eles algo que não podia revelar em casa _ sua disponibilidade, leveza e liberdade. Ao ser confrontado com as exigências de uma família _ educação, disciplina e direcionamento de nosso caráter _ talvez tenha percebido que não poderia correr o risco de expôr suas vulnerabilidades. Mas sabe pai, hoje sei que o que torna um homem forte é justamente ter a coragem de se mostrar vulnerável. De confiar. De oferecer a si mesmo, inteiro, àqueles que ama. Com seus alunos você foi um cara mais generoso. E isso nos espantava também. Porque seus alunos o idolatravam. Você era o cara. E lá em casa você ocultava esse homem tão bacana e disponível.

 Hoje a maturidade me trouxe um entendimento maior acerca do mundo e das pessoas. E assim consigo compreendê-lo melhor. Mais do que isso, consigo aceitar e concordar com a busca por um caminho de maior autenticidade. Você precisava de uma vida em que pudesse olhar-nos nos olhos, e acho que conseguiu.

 O pai que só de vez em quando estava presente, agora me liga no meio da manhã para falar sobre os livros que está lendo, para me contar que leu minha última crônica e por isso baixou "O andar do bêbado", de Leonard Mlodinow, no computador. Me conta que está fazendo fisioterapia, diz que o problema de hérnias é genético e aproveita para me orientar a comprar meias compressivas, pois nossa família tem tendência a varizes...

 Sabe pai, nem sempre os caminhos que buscamos vão agradar a todos. Algumas vezes ferimos quem amamos ao decidir encontrar o que nos realiza; mas eu já disse outras vezes e repito: quando tudo parecer difícil e errado do lado de fora, escolha somente fazer-se bem. É isso que eu sei que você está fazendo, e só isso já me deixa mais em paz também.

 Pra finalizar, uma frase que li no livro "O animal agonizante", de Phillip Roth e que agora divido com você: "Os pais desempenham um papel lendário na cabeça dos filhos". É por isso que, embora você fosse o terceiro ou quarto braço lá em casa, ainda assim, era uma lenda para cada um de nós, seus filhos. Uma lenda que aumentávamos e diminuíamos de acordo com nossas expectativas e anseios tão infantis. Pra mim você era indecifrável, uma espécie de zorro misterioso, cheio de fases. Queria tirar-lhe a máscara dos olhos e acho que hoje consegui. Cresci, amadurecemos juntos, e enfim consigo enxergá-lo mais humano e menos herói.

 Hoje consigo revelá-lo além das aparências, seguindo seu próprio conselho. O conselho de um homem cujas palavras numa dedicatória antiga, já revelavam que podia ser muito mais do que meus sentidos podiam alcançar.
 Reproduzo aqui suas palavras ( no livro"Minha Vida de Menina", de Helena Morley):

 "Querida filha,
 Que bom seria se pudéssemos usar uma carapaça que nos tornasse invisíveis, capazes de sondar o interior das coisas e das pessoas. Provavelmente descobriríamos o que há muito já se sabe. Que somos uma mistura de coisas opostas tais como "bem" e "mal" e que somos ás vezes um pouco o que desejamos aflorar, outras somos o que querem ver. Ou seja, as circunstâncias ás vezes nos revelam por um lado, outras por outro. Mas repetir esses dados pra quê? Lulu já disse tão sonoramente: "Não existiria som se não houvesse o silêncio. Não haveria luz se não fosse a escuridão. A vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim..." Desejo, mesmo assim, que você encontre a sua carapaça mágica que lhe ajude cada vez mais a enxergar as pessoas e que também escreva sobre o que você vê. Um grande beijo do seu pai que lhe ama muito. Feliz Aniversário"


FELIZ DIA DOS PAIS! Da filha que o ama incondicionalmente,
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES  

terça-feira, 29 de julho de 2014

Meu luxo é clichê

 Ontem acabaram minhas férias, quinze dias de puro luxo.
 Como já disse Danuza Leão, existem luxos e luxos.
 Obedecendo a cartilha da colunista, estive em Buenos Aires com o livro "De malas prontas" debaixo do braço, cheio de dicas.
 Seguimos a recomendação de tomar o chá da tarde no Alvear, hotel tradicional do bairro Recoleta. Sentados diante de uma mesa com porcelana centenária e canapés minimalistas, olhava para os lados e me perguntava quem é que estava se divertindo ali. Tudo bem, de vez em quando é bom entrar no clima, tomar uma taça de champagne no meio da tarde com o marido, mas aquilo de beliscar micro-sanduichinhos e comer tortinhas decoradas com frutas em compotas, certamente não faz parte de minha natureza nem do meu "requinte".

 Dias depois, de volta ao meu ninho, o frio chegou a Campinas. Numa tarde de puro ócio com meu filho, partimos para o clássico piquenique na cama. Ele decidiu fazer uma barricada de almofadas e cobertor, enquanto preparei pão de queijo e chocolate quente. Um clichê luxuoso acompanhado da série "Anos Incríveis" (tenho os episódios gravados da 'Cultura', e meu menino não conhecia). A poesia do seriado nos preencheu duas tardes inteiras, e lá pelas tantas perguntei afirmando: "Nosso lanche tá melhor que aquele chá do hotel chique em Buenos Aires, não é?" , ao que ele respondeu de boca cheia: "Bemmm melhor..."

 Cheguei à conclusão que meu luxo é clichê. Não tem relação com dinheiro, e sim com a forma de usufruir a rotina ou simplesmente pausar o instante a fim de percebê-lo melhor.

 Meus luxos são clichês, tão comuns como assistir "Anos Incríveis" na cama, numa tarde chuvosa.
 Buscar o filho na escola e comprar um saquinho de pipoca na saída; tomar um café fresco na xícara de estimação enquanto escuto Chico Buarque cantar "Carolina" e pensar que poderia chamar-me Carolina também, e ter aqueles olhos tristes cheios de sentimento e poesia; assistir pela milionésima vez "Era uma vez na América" e me encantar_ de novo _ com Robert de Niro, com a trilha sonora e com a emoção que o filme desperta; ganhar de presente um livro novo, de um autor desconhecido, ficar embasbacada com a forma que ele escreve e querer escrever assim também; tomar uma taça de vinho no jantar, mesmo sendo segunda feira, e ficar engraçada de repente, fazendo o marido rachar de rir; ouvir um elogio sincero; ter vontade de fazer um elogio sincero; colocar o filho pra dormir e ganhar um abraço de urso; sol de inverno no rosto; quentão e vinho quente em copinho térmico na festa junina; lavar a louça do almoço de família enquanto minha mãe enxuga os pratos e confidencia bafos e babados de uma época feliz; assistir à reprise das novelas no "Viva" e perceber que o tempo não poupa ninguém; encontro de primos; visitar a rua que moramos na infância e reparar que a antiga residência continua igualzinha àquela que a memória guardou; ler cartas antigas e relembrar uma amizade verdadeira que ficou pra trás; réveillon na casa daquele tio saudosista que adora vinho e tangos; ganhar florzinha colhida pelo sobrinho pra enfeitar o cabelo; ligar para a avó e ela te tratar como uma criança trinta anos mais jovem; acertar a receita da lasanha e impressionar os sogros e as cunhadas; acordar no meio da noite para cobrir o filho e não perder o sono depois disso; pedir para o cabeleireiro cortar só dois dedinhos e ele cortar só dois dedinhos; receber email do pai; voltar do trabalho pra casa ouvindo Eric Clapton e pensando 'como a vida faz sentido quando se ouve Change the World...'  ; ir à terapia e notar o olhar orgulhoso da terapeuta comunicando: 'como você progrediu...'; andar no shopping de mãos dadas com meu menino de oito anos e perceber que logo logo ele irá crescer e esse costume vai passar; ajeitar o cabelo fino de minha mãe e descobrir que preciso ter mais tempo para ajeitar o cabelo fino de minha mãe; ganhar um desenho do filho em que ele me retrata mais linda e mais sorridente do que posso supôr; fazer uma lista de luxos e constatar que tenho tido uma vida luxuosa, ou _ melhor dizendo_ uma vida feliz...

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES 

  

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Efeito Borboleta

 Tem vida que a gente escolhe, e tem vida que escolhe a gente.
 Qualquer um já deve ter reparado nisso. De vez em quando pequenas mudanças no curso de um dia, ou minúsculas alterações no trajeto da rotina podem desencadear uma sequência de eventos que modificam tudo, como se a vida tivesse seu próprio roteiro, e você estivesse sendo empurrado por ventos fortes numa direção, escolhido para viver alguma situação.

 Ainda não terminei a leitura do livro "O andar do bêbado", de Leonard Mlodinow, mas corri as páginas, ansiosa por entender como o acaso determina nossas vidas. E me deparei com o chamado "Efeito Borboleta", assim denominado pela física, que determina o impacto dos eventos aleatórios em nossas vidas. Eventos aparentemente inconsequentes que levam a grandes mudanças. O que se descobriu foi que "ínfimas alterações atmosféricas, como as causadas pelo bater das asas de uma borboleta, poderiam ter um grande efeito nos subsequentes padrões atmosféricos globais. Essa noção pode parecer absurda _ é equivalente à idéia de que a xícara de café que você tomou de manhã poderia levar a alterações profundas em sua vida. No entanto, isso é efetivamente o que acontece _ por exemplo, se o tempo gasto tomando a bebida fizer com que você cruze o caminho de sua futura mulher na estação de metrô, ou evitar que você seja atropelado por um carro que atravessou um sinal vermelho." (extraído do livro "O andar do bêbado).

 Assim, tem coisas que a gente não procura, elas nos acham. E nos surpreendem distraídos, em momentos de pouca expectativa e muita abertura ao acaso.

 Foi por acaso que minha casa me achou. Por acaso que me perdi numa rua, três anos antes de morar na dita cuja, voltando do shopping num trajeto conhecido. Por que me perdi? Não sei, assim como não sei explicar que impulso me fez pedir transferência do emprego e esbarrar com meu futuro marido nos corredores do posto de saúde pra onde fui transferida.
 O fato é que me perder numa rua num dia comum me levou a ler a placa "vende-se" num condomínio cujos cômodos estavam distantes de um dia fazerem parte da minha vida; mas três anos depois, desejando me mudar pra uma casa, lembrei-me do fato: eu perdida, indo pedir informações, aproveitando a pausa para conhecer a casa à venda, sem imaginar que aquelas paredes estavam me escolhendo muito mais do que eu a elas.
Hoje, morando nessa casa, quando penso na história, vem a ideia de que se não saísse aquele dia para comprar um vestido para o casamento do meu irmão, se não me perdesse na volta, se não decidisse estacionar o carro e entrar no condomínio, talvez estivesse morando em outro lugar neste momento. Em qualquer outro lugar que não seria tão perfeito em mim quanto a casa que me escolheu. A casa cujas escadas subi, sem me dar conta que repetiria aquela ação muitas e muitas outras vezes, com tanta gratidão.

 São movimentos mínimos, como o bater das asas de uma borboleta, que determinam os desfechos de nossas vidas. E na maioria das vezes, não percebemos. Desintegrados da matéria invisível que é feita nossa existência, pensamos calcular nossas ações esperando resultados coerentes, o que nem sempre ocorre. E não ocorre porque muitos outros eventos _ mínimos _ estão se somando ao nosso redor o tempo todo, e são esses eventos mínimos, como o tempo transcorrido entre uma xícara de café e outra, que determinarão grandes rumos. O que quero dizer é que esbarrar no grande amor tem muito mais chances de ocorrer quando você pega um engarrafamento na volta do trabalho, desvia o caminho por uma rua totalmente nova e decide tomar um café numa padaria no meio do trajeto pra aliviar o stress; do que quando contabiliza momentos, chega em casa na hora certa e se arruma toda (com cílios postiços e lingerie nova), esperando e torcendo para que o barzinho da moda lhe traga o grande amor.
 Querer engravidar do marido, numa lua de mel programada de acordo com o período fértil e novena pra Santa Rita segue a mesma cartilha, quem nunca ouviu falar?
 O fulano que sumiu da sua vida, as frases que você espera dizer quando ele se arrepender, a decisão de bater a porta na cara do bendito... sabe quando ele se arrependerá? Tem ideia?
 A casa dos sonhos, o terreno pra construção, o ponto para o negócio... podem estar numa rua desconhecida, distante e aparentemente inatingível, mas se tiver que ser seu, o acaso lhe levará até lá.

 De vez em quando é necessário deixar nossos rumos ao sabor do vento. Estar preparados sim, reconhecer as dádivas, também. Mas como os "lírios do campo", entender que na maioria das vezes, a vida não dança ao sabor único de nossas intenções, e desejar não é o bastante para que a vida que escolhemos escolha a gente também.

 Sendo assim, é impossível conhecermos ou controlarmos precisamente as circunstâncias de nossas vidas.  Assim como o bater das asas da borboleta, pequenas diferenças levam a alterações imensas no resultado. E no que diz respeito a nossas conquistas particulares _ empregos, amigos, amores ou finanças_ todos devemos muito mais ao acaso do que somos capazes de perceber.

 No fundo, a vida é incerta. E essa incerteza é o que dá sentido também, pois se fôssemos capazes de prever e controlar tudo, que graça haveria? Que possamos dar asas à intuição, pois essa sim, ainda que imprecisa, pode nos dar rumos muito além daqueles que supomos determinar ou controlar.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES









sexta-feira, 11 de julho de 2014

O que nossos olhos quiseram enxergar

 Tem um texto de Lya Luft que gosto muito intitulado "Pensar é transgredir". Num dado momento ela diz:
 "O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada."

 O que gosto nessa frase é a constatação de que nosso olhar confere identidade, constrói enredos, atribui sentimentos, projeta desejos, anula frustrações e elabora desfechos conforme suas próprias necessidades _ nem sempre legítimas_ mas que dão algum sentido dentro dos limites que podemos suportar.

 Terça feira, o jogo entre Brasil e Alemanha terminou na maior derrota do futebol brasileiro. As crianças, mais confiantes, sofreram na proporção de seus sonhos. Como tenho repetido em dois posts seguidos, mais uma vez meu menino chorou. Chorou como outros milhões de meninos que confiaram na seleção de braços abertos e coração disponível. Talvez, mais do que isso, enxergaram na seleção a materialização de suas expectativas, vontades, sonhos, alegrias. E é esse olhar, mais do que a realidade, que se evaporou. É esse olhar, que conferia tanta identidade àqueles garotos-jogadores, que deixou de existir.

 Porque como dizem por aí, as coisas não são como são, e sim como as vemos. E assim, cada criança imaginou estar diante de uma seleção campeã, e projetou essa visão imatura sobre aqueles jogadores talentosos, mas despreparados taticamente.
 Se compramos a ideia de que eram fenômenos futebolísticos, acreditamos nessa ideia porque era o que nossos olhos precisavam acreditar. Portanto, quem traiu esse olhar fomos nós mesmos. Nós e nossas expectativas irreais, nós e nossos desejos de ver a seleção _ ainda que despreparada _ campeã.

 E é assim também que projetamos em nossas relações aquilo que nossos olhos querem ou conseguem ver. E quando algo não sai conforme o nosso combinado (combinado com aquilo que criamos, imaginamos, esperamos, desejamos), inicialmente é mais fácil acusar _ como fazemos com a seleção_ e só depois, devagar, absorver nossos lutos até a possível aceitação (quem sabe com humor, como tem feito o brasileiro, ao transformar a complexidade de seus sentimentos contraditórios em riso e criatividade _ um banquete nas redes sociais!).

 A verdade é que muitas vezes não conseguimos enxergar os sinais. Talvez enxerguemos, mas preferimos ver a vida por filtros_ que nós mesmos acrescentamos_ do que encarar as dificuldades, desistências, turbulências e desilusões; numa tentativa de preservar nossa jornada dos tropeços e incompletudes, inerentes a qualquer percurso.

 Os sinais sempre estiveram lá, mas preferimos ignorar, pois não faziam parte do script. Do script que nós mesmos escrevíamos e incluíamos quem não pediu para ser incluído. Quem não queria sequer fazer figuração na nossa história. E agora a gente acha que o roteiro foi bagunçado por culpa da seleção, por culpa da Dilma, por causa do Fred, por causa do fulano que nos abandonou, da beltrana que não quer o nosso perdão... até do viaduto que caiu e do SUS que a gente nunca frequentou.
 Ou você se esquece que esses jogadores que hoje são um fracasso, até ontem eram gigantes para você? Será que as pessoas mudam, "a Copa foi vendida"blá blá blá... ou somos nós que passamos a enxergar a realidade sem as lentes de aumento?

 Claro, é bem mais confortável dizer que foi a realidade que mudou, não nós. Mas quer saber? Chega uma hora em que nossos olhos se habituam com a claridade, com os flashes que revelam bem mais do que gostaríamos... E mesmo que a vontade seja a de voltar para dentro da caverna, para nossos velhos paradigmas que nos serviam tão bem como antigos pijamas conhecidos, já não há mais volta; e a gente sabe disso. Por isso é tão sofrido.

 Mas faz parte do crescimento. E não há que se falar em traumas. Não há nada de traumático em nossas crianças que choram a derrota da seleção. Elas estão simplesmente aprendendo a lidar com a quebra de contratos. Contratos que cada um sela por sua própria conta consigo mesmo. Quando esses contratos falham, faz parte também. E crescemos um tanto também. Pois percebemos que nossos olhos quiseram enxergar algo que não havia lá. Ao constatar que demos importância demais àquilo que não merecia tanto, vivemos um luto. Mas como tudo, ele também chega ao fim.

 Finalmente percebemos que apesar do brilho ter diminuído, nosso olhar ainda é capaz de acreditar novamente; mas certamente com novas programações, como a frase de Lya Luft: "Viver é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada."  

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES












sábado, 5 de julho de 2014

Quando um craque se quebra

 Ontem o jogo terminou com comemoração e incerteza. Ainda não sabíamos o que significava a dor de Neymar, e enquanto torcíamos por uma contusão ou luxação, os exames revelavam uma fratura de vértebra lombar.

 Assistimos ao jogo na casa do meu primo, e já de volta pra casa, acompanhando as notícias pelo JN, o quadro grave foi confirmado pela voz embargada de Galvão Bueno. Meu menino veio me abraçar e sem soltar os braços do meu pescoço, mais uma vez nessa copa, chorou.

 Não era só Neymar que quebrava. Ali percebi que junto com o craque, muitos outros brasileiros, meninos ou não, quebravam também. A fratura de Neymar ressoava em cada casa, em cada torcedor que até aqui acreditou no garoto que se tornou, assim como Pelé, o rei da geração a que pertence meu filho, oito anos de muita fé, esperança e inspiração. Os meninos não só admiram Neymar, eles querer ser Neymar _ basta ver as poses, cortes de cabelo, ginga e determinação . E assim como Neymar, toda uma geração sente a dor da despedida. A despedida do craque, que felizmente ainda terá outras Copas pela frente, mas que pra sempre deixará as marcas de ter sido punido pelas costas.

 Os meninos choram por Neymar como se eles próprios tivessem sido feridos. E de certa forma foram. De certa forma é assim que estão aprendendo que até mesmo Neymar, o rei, se quebra. E que é preciso se conformar com as pausas, com a frustração de não continuar uma Copa, com as demoras que a vida impõe _ pra qualquer um.

 Torcemos pela recuperação de Neymar. Torcemos para que venham novas partidas e muitas outras vitórias. Porque certamente Neymar voltará a campo, mas sem dúvida alguma, será um menino diferente depois de saber-se inteiro, mas colado. Depois de descobrir que somos vulneráveis, ainda que heróis.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES