"Estou nas palavras, mas estou, sobretudo, nas entrelinhas..."

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Nossas vidas não vividas

 Acabo de ler "O que você é e o que você quer ser", do psicanalista Adam Phillips. O livro questiona e desaloja, ao propôr reflexões que pouco fazemos, enquanto simplesmente seguimos nossas rotinas, construindo uma vida satisfatória, ou não. Num dado momento ele diz: "Qualquer ideal, qualquer mundo desejado, é uma forma de perguntar qual o tipo de mundo em que estamos vivendo que faz do mundo ideal uma solução (nossas utopias nos dizem mais sobre nossas vidas vividas e suas privações do que sobre nossas vidas sonhadas); ou, para abordar mais clinicamente a questão: qual teria de ser o sintoma para que esse mundo (ideal) fosse uma forma de cura?"

 É claro que parei pra pensar na minha vida (real) e naquela não vivida, na qual há a tendência a fantasiar que existiria uma versão muito melhor e menos frustrada de mim (nós) mesma (os). Haveria algum lugar em que seríamos mais realizados e satisfeitos?
 Será que carregamos um tanto do sonho de Ícaro, desejando voar tão alto que não percebemos a matéria perene de que são feitas nossas asas? Até que ponto estaríamos tão insatisfeitos de modo que nossas vidas não vividas sejam mais importantes que aquelas nas quais estamos inseridos?

 Interpretamos nossas vidas não vividas com mais glamour do que ela jamais teria. Recordamos o que deixamos pra trás com uma nostalgia digna dos clássicos de cinema. Fantasiamos os destinos não alcançados ignorando os percalços e perdas inerentes a qualquer vida. Imaginamos nós mesmos naquele lugar distante de nossas vidas reais sempre tão satisfeitos e realizados como jamais conseguimos estar naquilo que construímos e vivenciamos diariamente. E finalmente nos refugiamos nesse mundinho de ilusão capaz de nos ludibriar e convencer de que somos maiores e melhores do que realmente somos. No fundo precisamos acreditar que em algum lugar (longe de nós mesmos), seríamos melhores, mais bem sucedidos, menos frustrados. Porque só assim a vida poderia ser mais suportável. Só assim a vida poderia ser mais prazerosa.

 Porém, existirá prisão maior que viver de buscas? De sentir-se impelido a remar, remar, remar... sempre desejando, nunca alcançando? Jamais percebendo que chegou?

 "Nossas utopias nos dizem mais sobre nossas vidas vividas e suas privações do que sobre nossas vidas sonhadas..." Dessa forma, o que importa não é propriamente o desejo, e sim a falta. E aqueles que vivem de utopias, seriam os mais carentes?
 Sempre me desacomodei diante dos demasiadamente sonhadores, não aqueles que realmente vão atras daquilo que acreditam _ o que não seria utopia, e sim objetivo _ mas sim aqueles que almejam uma vida impossível, ou ao menos inviável. Não seria essa uma maneira de justificar a infelicidade? Ou de ludibriar a pequenez de que é (somos) feito(s)? De se autossabotar, já que o impossível nunca é alcançado, e portanto justificaria uma vida imperfeita, encobrindo o sintoma_ a incapacidade de ser feliz_ ainda que inconsciente? Assim, o sonhador seria uma espécie de eterno frustrado?

 Construindo um mundo em que o que não foi vivido ganha mais destaque do que aquilo que é real, nos protegemos da satisfação, a qual pode ser tão perturbadora quanto a frustração. Sempre haverão defesas a nos proteger da satisfação. Viver de sonhos é uma delas. Mas o que estaria escondido por trás dessa incapacidade de se satisfazer?

 De qualquer forma, existem os dois lados da moeda. Assim, também corremos o risco de abdicar demais do sonho por medo da frustração. E então, aquele que vive de ilusões e não as realiza (mas lamenta a vida que não viveu) sofreria do mesmo sintoma que aquele que evita sonhar e resiste, adaptando-se à custa de uma vida virtuosa, mas descuidada _ e afastada_ de si mesma.

 Estaremos adaptados demais aos ambientes prejudiciais que criamos e mantemos para nos proteger da satisfação? Que tipo de vida criamos, ou estamos inseridos e o que elas podem dizer sobre nós mesmos?

 O homem que trabalha num ambiente ruim, com uma chefia insuportável e continua seguindo para esse emprego todos os dias porque precisa sustentar a família, ou manter um padrão socio econômico, ou por não enxergar outra perspectiva, estará nessas condições porque não há outra alternativa ou porque, no íntimo _ talvez inconsciente_ haveriam ganhos também? Assim, o trabalho ruim não seria o problema (real), e sim o álibi, o sintoma de uma vida negligenciada?
 A mulher casada com um marido agressivo, que não se separa por causa dos filhos, estaria blefando consigo mesma e distanciando da única verdade, nem sempre fácil de enxergar_ a  falta de coragem? Coragem de assumir a dificuldade de ser amorosa consigo mesma, de olhar para a própria vida com mais autonomia, de conduzir seus dias com mais segurança e doçura?
 A pessoa que mente _ para si e para os outros_ e diz que faz isso porque na infância era punido por dizer a verdade, mais uma vez está mentindo. Nenhum adulto pode justificar suas ações por fatos que ocorreram na infância. O caráter se constrói na vida adulta, e a coragem de assumir nossos atos também. Somos os únicos responsáveis pelas vidas que vivemos e pelas que deixamos passar. Não nos cabe acusar nada nem ninguém por aquilo que não tivemos coragem de assumir ou mudar.
 Mudar de emprego, separar da esposa (marido), atravessar o Canal da Mancha, pôr e tirar o silicone, preencher e esticar a pele, fazer um retiro na Índia, percorrer o caminho de Santiago, ... Tudo isso só faz sentido se a mudança maior acontecer dentro. Caso contrário, vamos viver de sonhos e suspirar feito Amélie Poulain: "São tempos difíceis para os sonhadores..."

 Pensando nisso, divaguei sobre meu ambiente de trabalho, meu casamento, a casa onde moro, a opção por um filho único, os cuidados que tenho com minha alimentação, atividade física e tratamentos médicos, minha vaidade, as escolhas que fiz e tenho feito, meus planos e projetos.

 Dizer que tudo é exatamente do jeito que eu queria é mentira, e igualmente imperfeito. Não há satisfação sem conflito, nem desejo sem falta. Então a falta e a frustração são essenciais para uma vida satisfatória, e portanto perfeita. Desse modo, nossas vidas não vividas é que fazem nossa vida real ser prazerosa, pois em certo grau, a frustração nos dá direção. E por mais que seja nobre ser e estar grato, temos que agradecer a Deus por não termos tudo. Agradecer aos céus por ainda vivermos incompletos e carentes. Em maior ou menor grau, precisamos nos sentir frustrados para que ainda possamos seguir adiante.

 Por muito tempo desejei um segundo filho, trabalhar trinta horas semanais ao invés das trinte e seis atuais, ser mais cuidadosa com minha saúde, me alimentar melhor, seguir uma atividade física com disciplina, morar em casa e não apartamento, ser emocionalmente mais leve, entre outras coisas. Meu emprego consome mais meu tempo do que eu gostaria, e o segundo filho não veio; mas tenho percebido que essas faltas não podem justificar o desfalque em todo o resto. Jamais poderia acusar a carga horária excessiva pelo meu desleixo com a saúde, ou a falta de tempo para me exercitar. Inconsciente, eu estacionava um por um dos meus desejos devido a não realização daqueles que eu julgava "principais". Ledo engano. Ás vezes, um tapa no visual ou uma reforma no guarda roupa podem fazer tanto por nós quanto qualquer outro_ grande_ objetivo que possamos ter. Então dei a largada. Fiz meu check up, me inscrevi no pilates, marquei RPG semanal, passei a acordar mais cedo. A casa onde moro é um sonho realizado, e de vez em quando tomo um vinho sozinha, sentada no sofá e agradeço a Deus cada parede, cada acabamento, cada pedacinho do meu (nosso) plano concretizado. Vejo meu filho crescendo com saúde, já são oito anos, e penso que se o segundo filho não veio, essa foi minha história, não havia outra versão. Então tá faltando coisa na minha vida? Claro que tá, como na de todo mundo. Mas a gente tem que ir se reinventando todo dia. Tem coisa que a gente lamenta, mas não pode jogar a culpa noutra coisa ou pessoa além de nós mesmos. Em alguns casos, o que falta é serotonina, dopamina, reposição hormonal,esse tipo de coisa. Então faz parte de se reinventar procurar ajuda, ir ao médico, se tratar. O que não pode é chorar as horas, lamentar o tempo e acusar as paredes pela vida não vivida.

 Existem sonhos e fugas. Saber diferenciá-los e buscá-los define quem somos realmente. No fundo o que precisamos é de coragem. Coragem para assumir o quão pequenos somos, e saber lidar com essa pequenez, essa falta, essa imperfeição. Sem culpar o tempo, a infância, a TPM, o chefe, o emprego, a esposa, o marido, os filhos. Você é responsável pelo lugar em que está. E muitas vezes não adianta mudar a paisagem, escalar muros, atravessar desertos, transpôr oceanos. O que se busca não está fora, mas dentro. Depende de você. Somente você.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES



quarta-feira, 2 de abril de 2014

Diários

 Dia desses, em busca de uma leitura amena, baixei "Nu, de botas", do Antonio Prata no celular. Foi tiro certo. O livro é leve e engraçado, e para aqueles que, como o autor, viveram a infância nos anos 80, um prato cheio daquilo que vivenciamos e experimentamos num tempo em que "não se usava cinto de segurança nem protetor solar, pessoas não andavam por aí com garrafinhas d'água, como se fosse o elixir da vida eterna, fazíamos cinzeiros de argila para os pais nas aulas de artes e o colesterol era apenas uma vaga ameaça de gente paranoica, como a CIA ou a KGB."

 Impossível não se identificar com as lembranças e infortúnios típicos da infância, fase em que tudo ganha dimensões gigantescas diante da inabilidade de lidar com a realidade.

 Toda infância é carregada de riqueza e dor. Uma dor sem nome, que revela todo o desamparo e fragilidade de uma época sem defesas consolidadas. Minha memória não é tão boa quanto a de Antonio Prata, mas fui uma menina de diários. Aos oito anos, morando na casa de minha avó, numa rua onde todos os moradores eram meninos, além de meus dois irmãos e três primos, todos homens, descobri que podia me refugiar escrevendo. Foi então que surgiu meu primeiro diário, infelizmente extraviado. Mas depois deste, vieram outros, e hoje, meu "acervo" conta com historias desde o longínquo ano de 1984, retratadas com riqueza de detalhes e deturpações fantásticas da realidade.

 Meu pai é médico patologista, necropsista e professor. Quando éramos crianças, não era raro meus irmãos e eu passearmos no hospital ou faculdade de medicina. Porém, não visitávamos os doentes, e sim os mortos. O cheiro de formol era familiar, e a visão dos corpos nus, boiando na substância, corriqueira. Também gostávamos de ver os bebês que viviam nos vidros, frutos de abortos, em geral com anomalias. E não nos assustava abrir os latões e ali encontrarmos pernas ou outros membros amputados. Digo isso não para chocar, mas para mostrar que aquilo que é natural numa família, não o é em outra, de modo que só quando ingressei na faculdade de odontologia, e fui estudar anatomia, é que descobri, diante do assombro de meus colegas (que tremiam ao ver uma peça anatômica) que aquilo não era comum, muito menos normal pra maioria. Só hoje, com mais vivência, percebo a riqueza de ter crescido num ambiente assim.

 Muitas páginas dos meus diários foram escritas no departamento de patologia do hospital. Mas não falavam de doenças, mortos, ou cheiro de formol. Como eu disse, aquele era meu mundo, e por isso não me afligia. Meus pais tratavam disso com naturalidade e assim, normal pra gente também. Porém, outros assuntos eram colocados na pauta do dia com emoção _ boa ou ruim _ e eu, ainda muito nova pra saber lidar com as emoções dos adultos, me via angustiada e aflita de modo exagerado perante aquilo que eu considerava "uma grande catástrofe" na vida de nossa família.
 Uma tarde por exemplo, me vi num dilema existencial muito grande, porque era Sexta Feira da Paixão e no andar de baixo, mais precisamente na cozinha, meu pai se fartava de melancia sem culpa ou arrependimento. Os gomos eram partidos e engolidos com vontade, o caldo vermelho e suculento escorrendo pelos lábios, nos fazendo salivar à distância imaginando seu paladar, seu prazer, sua liberdade. Enquanto minha mãe nos ensinava o catequismo e orientava para que fizéssemos sacrifícios, aquele homem ousava comer melancia e ser feliz na Sexta Feira da Paixão!!!! Por incrível que pareça, aos dez anos de idade, aquilo pra mim era o sinal dos tempos; a emoção de minha mãe tomava conta de mim com intensidade cem vezes maior que a real, e assim eu não sabia mais o que esperar daquele homem que ousava contrariar as leis de Deus e de mamãe. É claro que mais tarde aprendi a enxergar os dois lados, sem dramatizar ou julgar.

 No ano seguinte, passeando pelo Playcenter, meu pai levou meus dois irmãos ao Colossus, uma montanha russa gigantesca para os padrões da época, com looping e descida radical. Eu não sabia, mas gostava de adrenalina. Porém, como minha mãe morria de medo e eu não queria apavorá-la sendo a quarta pessoa da nossa família a despencar lá de cima, morrendo junto com meu pai e os dois irmãos, mantinha-me firme a seu lado ouvindo-a murmurar "que horror..." e, em silêncio, murmurava solidária "que absurdo..." até que os três retornavam _ sorriso no rosto, audaciosos e vencedores _ para então voltarmos a respirar normalmente. Anos mais tarde, cheia de opinião e coragem, saltei de paraquedas enquanto minha mãe assitia_ apavorada_ em terra. Foi meu jeito de descobrir quem sou e do que gosto realmente.

 É claro que haviam assuntos sérios também. Como o dilema de ter que explicar às minhas amigas que número de ovo de Páscoa eu havia ganhado, quando na verdade não havia ovo algum _ "Querida Kitty (Inspirada por Anne Frank, também apelidava o diário de "Kitty")
Como foi de Páscoa? Eu passei muito bem. Nada de ovo de Páscoa. Mamãe não gosta de nos dar ovos, diz que Páscoa não tem nada a ver com chocolate e sim com a ressurreição de Jesus. Eu bem que queria, ás vezes fico até com vergonha das minhas amigas quando perguntam o número do ovo que ganhei, mamãe bem que podia repensar isso..."; ou as incontáveis queixas contra meus irmãos, dois meninos no auge da pré adolescência cujo maior prazer era infernizar a vida da irmã mais velha.

 Além de hilários, meus diários são provas concretas do amadurecimento ao longo dos anos, mas não deixo de ter compaixão pela menina responsável_ demais_ que fui. Hoje, mais ciente de minhas certezas, diria para essa adolescente simplesmente relaxar, viver a própria idade com leveza, não assumir tanta perfeição somente pelo desejo de agradar e ser amada.

 Mas também aprendo muito com ela. Ao ler a apresentação do diário de 1986, me comovi com os sonhos _ esquecidos_ da menina de 11 anos: "Meu maior sonho é ser uma atriz um dia, conhecer a Disneylândia, e principalmente continuar feliz. Minha comida predileta é sorvete de morango. Nunca viajei de avião, mas acho que ainda viajarei..."

 Voltando do almoço, caminhando pelos corredores do Centro de Saúde onde trabalho, me deparo com a dor estampada em cada olhar abatido que me segue com alguma esperança. Os sonhos da menina (relidos agora há pouco para escrever esse post) ecoam no meu pensamento e engulo a seco_ quanta coisa mudou de lá pra cá...
 Finalmente recordo Eliane Brum e o prefácio do livro "A menina quebrada":
 "Escrevo porque a vida me dói, porque não seria capaz de viver sem transformar dor em palavra escrita. Mas não é só dor o que vejo no mundo. É também delicadeza, uma abissal delicadeza, e é com ela que alimento a minha fome..."

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES



quarta-feira, 26 de março de 2014

Oito anos

 Já passa da meia noite e portanto depois de amanhã é seu aniversário de oito anos. Ainda há pouco você veio ao nosso quarto se queixando da falta de sono; me impacientei porque a noite já ia alta, e agora sou eu que permaneço insone.

 Fazem oito anos e passou tão depressa... Sábado você se divertiu ao lado de seus amigos na Caça ao Tesouro. E talvez tenha percebido que a busca é mais prazerosa que o encontro; a satisfação maior ocorre durante o trajeto e reconhecimento das pistas, a expectativa pela surpresa final. Do mesmo modo que outro dia você falou, enquanto construía um brinquedo Lego: "O gostoso é montar, né mamãe?" e percebi que você havia pegado o espírito da coisa. Assim será por toda a vida, meu menino. A busca tem a sua parcela de alegria, e quanto mais nos frustramos nessa jornada, mais valorizamos nosso desejo por aquilo que buscamos. Por isso torna-se tão necessário descobrir o que é importante pra você.
 Uma hora talvez você descubra que os melhores tesouros são os mais difíceis de serem encontrados.
Lembre-se disso quando sentir seu coração bater mais forte por alguém. Preserve-se, não vá com tanta sede ao pote. Caminhe sem pressa e valorize sua essência. Porém, quando chegar a hora, partilhe sua vida e alegre-se por ter chegado ao cume da montanha. Reconhecer suas dádivas é primordial para viver uma vida satisfatória.

 Deixe sua imaginação voar, te levar por caminhos desconhecidos, te refugiar nos momentos difíceis. Mas aprenda a reconhecer suas frustrações, para que descubra quais são seus desejos também. Ainda estou engatinhando nesse terreno, mas devagar venço minhas resistências e quem sabe me torno uma mãe mais leve pra você também...

 Um dia você vai descobrir que adultos não têm tantas convicções quanto parece. Ao contrário, se desejamos evoluir, muitas vezes patinamos nas incertezas de nossos conceitos e verdades, que nunca foram absolutos. Aprendo muito com você, principalmente quando insiste, coisa que nunca fui capaz de fazer. No fundo, no fundo, achava que lidava bem com minhas frustrações mas era só um jeito diferente de negá-las. Sim, meu menino, sou como essas crianças que não podem ter a mochila da moda e, em vez de se entristecerem com a impossibilidade, optam por agir com desdém. Mas leva tempo pra gente descobrir os próprios mecanismos, e estou percebendo isso só agora, junto com os primeiros cabelos brancos e rugas de expressão.
 Você não vai esperar tanto. Pois sabe o que deseja, e luta _ nossa, como luta!_ para conseguir. Mas certamente virão outros mecanismos_ de defesa ou proteção_ que lhe farão seguir por caminhos igualmente difíceis, pra só depois, lá na frente, perceber que poderia ter tomado a estrada mais simples. Mas não liga não, é isso que faz a gente crescer.

 E você está crescendo tão rápido... A gente abre os álbuns e se depara com tanta alegria, tantos momentos bons e inesquecíveis, que só temos que agradecer a Deus pelo presente da sua vida, sua saúde, sua presença cheia de mistérios e vivacidade.

 Faltou tempo para estrearmos o skate, a vida anda tão corrida e as lições da escola triplicaram de um ano pro outro. Assim você irá perceber o tempo. Ele nos engole sem pedir licença, e estabelecer nossas prioridades torna-se fundamental para aquilo que hoje chamamos Qualidade de Vida. Se esforce para dividir bem suas horas, e, acredite em mim, priorize suas relações. É isso o que permanece _ o som das vozes quando as luzes se apagam, o cheiro do perfume conhecido, as mãos que nos cobrem delicadamente ao cair da noite, as viagens onde o sol é mais dourado, a chuva mais divertida, o frio mais acolhedor; a disposição para andar na ponta dos pés enquanto os adultos dormem e a casa é só nossa; as noites do pijama acampando no chão do quarto com os primos; as histórias de terror inventadas por esses mesmos primos na hora de dormir; a simplicidade de nossas rotinas _ essas que um dia serão só lembranças de uma casa com desenhos espalhados pela porta da geladeira e exibições do Pokémon ao meio dia.

 A gente cresce e vive de saudades também. Mas isso pode ser tão penoso... como se somente o que passou tivesse vocação de felicidade. Por isso, não viva de buscar tesouros. Preserve o que é seu para não se frustrar em demasia. Desejar é bom, nos mantém alertas e vivos, mas chega uma hora em que é preciso somente agradecer. Mesmo sem saber rezar, não tenha pudores em dobrar os joelhos e dizer obrigado. Na vida saímos esfolados vezes demais, mas o saldo é sempre positivo. Só tenha paciência de esperar, pois mesmo sendo difícil, há beleza. Mesmo machucando, há prazer. Mesmo frustrando, há satisfação.

 Parabéns pelos oito anos... Amo você, de um jeito que só as mães conseguem sentir e compreender...

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES



sexta-feira, 14 de março de 2014

Atmosferas

 Na minha infância, era popular um programa apresentado por Silvio Santos chamado "Porta da Esperança". Minha avó era espectadora assídua, e de vez em quando me sentava a seu lado para juntas assistirmos ao espetáculo das portas se abrindo e o sonho se concretizando, com direito a música emocionante, choro de alegria, aplausos e muita publicidade. Na sua simplicidade, minha avó sempre dizia que iria escrever ao programa e pedir aos patrocinadores um piano para mim. Eu devia ter oito ou nove anos, fazia aulas de piano, mas secretamente, o que desejava realmente _ no lugar do imponente instrumento _ era uma viagem à Disney.
 Hoje minha avó faz falta, e recordar esses momentos traz de volta um tempo em que a atmosfera da minha vida era outra.

  Atmosferas... Talvez seja isso o que permeia e modela os acontecimentos e memórias, pra melhor ou pior.
 De repente você se apaixona por alguém muito mais pelas circunstâncias que envolveram esse encontro _ as alegrias ou dificuldades que enfrentaram juntos, as viagens que fizeram, as paisagens que visitaram, a música que tocava... _ do que pela pessoa propriamente dita. Por isso acredito que o amor muda dependendo das circunstâncias _ e da paisagem vigente.

 Talvez seja isso, a necessidade de fugir da própria atmosfera, que nos impulsiona a viajar_ pra dentro ou pra fora_ e fantasiar, vivenciando tantas vidas no curto espaço de uma existência.
 É necessário sonhar, reconhecer que nossa realidade pode ser composta de nuances diferentes, nem sempre palpáveis ou nomeáveis, mas que ainda assim nos permitem sobreviver além da história que supomos conhecer ou controlar.

 Vivemos de realidades, mas também de fantasias. Como minha avó, sonhamos com a "Porta da Esperança" ou alguma ilusão que nos roube daquilo que supomos ser nossa vida ou nós mesmos.
 Ainda que alguns sonhos sejam considerados irrelevantes ou até fúteis, fazem parte daquilo que nos constitui e de como encaramos nosso terreno.

 Ao lembrar a menina sentada no sofá, tentando traduzir as imagens da TV à avó quase cega, numa cidade do interior de Minas onde só os muito afortunados viajavam para o exterior, recordei um sonho antigo, porém arraigado em mim, de me desconectar da realidade e viver outras histórias, visitar outros mundos, desvendar antigos mistérios... recriados por atmosferas que traduzissem aquilo que seria impossível no mundo real.
 Contrariando Martha Medeiros, que em seu texto "Casa de Vó" se diz perturbada com adultos que escolhem passar a lua-de-mel na Disney, embarquei nessa aventura, me ofertando essa brincadeira de presente pelos quarenta anos que chegam em abril, junto com os oito de meu menino, que se aproximam esse mês.

 Em meio a jardins coloridos, construções fantásticas e personagens perturbadoramente reais, concluí que o que ainda encanta e faz adultos e crianças desejarem brincar de faz de conta, tendo ao fundo o Castelo de Cinderela, não é o simples fato de voltarem à infância, deslizando em brinquedos que prometem um mundo de sensações. O que encanta e fascina é a possibilidade de recriar-se ou reelaborar-se a partir do sonho que se concretiza na atmosfera lúdica e irreal.
 Eliane Brum, em seu ótimo texto "A realidade da fantasia", nos fala: "A ficção nos ajuda a lidar com nossa realidade mais profunda. E só pode nos ajudar porque é real. Se não fosse, filmes, livros e seriados que marcaram a vida de muitos não teriam sucesso nem ganhariam permanência. Não se trata de entretenimento, algo menor e menos importante, mas de nossa própria carne. Os vampiros da série literária Crepúsculo, ainda que mais palatáveis e limpinhos que seu bisavô imortal, o Drácula de Bram Stoker, só vivem em nós _ ainda que mortos _ porque a relação entre sexo e morte faz parte do que somos e do que nos inquieta no que somos. Engana-se quem pensa que fantasiar é algo incompatível com a vida adulta. Ao contrário. O que fazemos por nossa existência inteira é justamente inventar uma vida. Que sempre será em boa medida uma ficção... Acolher a fantasia no cotidiano pode nos tornar pessoas menos enrijecidas _ ou menos paralisadas_ por medos que não conseguimos nomear."

 Autorizar-se perder o controle e acreditar que tudo é possível é um exercício que nos remete à infância, à época em que o presente era tudo o que tínhamos e conseguir viver esse tempo de forma plena não era assim tão complicado.

 Embora tivesse sonhos de menina, nunca pertenci à turma simpatizante das princesas, fadinhas ou afins. Mas gostava da Alice e suas peripécias num mundo novo e desconhecido, cheio de surpresas e descobertas. Porém, de todas minhas fantasias infantis, a que sempre me encantou e mobilizou _ ou imobilizou_ foi a história do E.T. Imaginar-me como Elliot, o menino que representou toda uma geração de crianças, e deparar-me com o universo que provocava espanto e adoração, seria a materialização de um mundo que só existia nos meus devaneios ou durante a vigília do sono. Reviver a atmosfera de um dos primeiros filmes que assisti no cinema _ na época tinha cerca de oito anos_ foi como experimentá-lo novamente pela primeira vez. Ainda na fila, me emocionei com a floresta escura e o objeto que Elliot cria para entrar em contato com a família E.T. Depois, ao sobrevoar a cidade numa das bicicletas, com a lua cintilante num céu cheio de estrelas, tendo ao lado meu menino cheio de fascínio e medo _ do mesmo modo que fiquei quando tinha a idade dele _ recriei minha fantasia esquecida e reconectei-me com uma parte de mim que ainda consegue voar e se deslumbrar.

  É sobre isso que falo. Atmosferas...  Como transformar um dia comum em um dia mágico _ nem que seja com uma roupa nova, um cabelo arrumado, uma porcelana colorida, uma musica bacana ou luz diferente...
 De permitir-se encantar com os detalhes. De criar climas. De aceitar a fantasia como parte do jogo. De entrar na dança, sem negação ou preconceito, aceitando que ainda temos um pouco de meninos e meninas em nós; que sabem voar, que acreditam em sonhos, ou apenas têm esperança...

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A vida continua aos quarenta

 Começaram as comemorações. Os amigos do tempo de faculdade e outros, nascidos em 74, que me acompanhem no brinde a essa data simbólica que, dizem por aí, assinala um novo tempo.
 Sábado passado nos reunimos em Limeira, interior de São Paulo, para a festa de um amigo. Alguns deixaram as crianças em casa, outros vieram sozinhos, mas grande parte da "turminha" compareceu. Brindamos, dançamos, dissemos e ouvimos muitas vezes: "Como você está bem"!, mas sabemos que não somos os mesmos da Alfenas de 1992, ano em que a vida começava realmente.

 Ao contrário do slogan "A vida começa aos quarenta", meu divisor de águas foi aquele início de ano letivo, na faculdade, em 92. Ali reinventei minha história, mudei o rumo de antigas aflições, superei minha inadequação. Com dezessete ou dezoito, me descobri dona de inúmeras possibilidades e responsável pelo bem ou mal que me aconteceria. Ainda que só tenha adquirido essa noção muito depois, minhas atitudes deixavam claro o desejo de me reinventar.

 Sábado passado, enquanto a banda tocava algum sucesso que agora não me recordo, numa conversa animada com duas amigas, alguns fatos que antecederam 1992 vieram à tona através dos olhos de uma pessoa querida, testemunha do tempo na cidade em que nascemos. Naquela época não se falava em bullying ou coisa parecida, mas a gente sabia o que acontecia a quem não se enquadrava. E nessa linha invisível que define os mundos, algo semelhante assinalou meus anos de colegial _ hoje, ensino médio. Sábado, conversando com essas amigas lembrei, com certo pesar, o que já tinha esquecido de lembrar. Mas ainda assim, parte da minha história. E principalmente, parte daquilo que me tornei.

 Ás vezes, uma história ruim é o gatilho para os bons enredos que estão por vir. E por mais que se lamente o que aconteceu, a liberdade _ e responsabilidade_ de virar a página cabe somente a nós.
 Não me ressinto daqueles que na época me julgaram menor do que eu realmente era. Talvez eu fosse mesmo, por não me posicionar adequadamente diante da vida e das pessoas. Mas talvez, exatamente por isso, eu tenha entendido que reconhecer e revindicar meu verdadeiro papel ou lugar na minha própria história despenderia empenho.
 Empenho de sair de uma existência nublada e mostrar-me em cores vivas, feito Frida Kahlo; disposição para romper o vício de uma bondade explícita mas com muito pouca tolerância interna e revelar-me imperfeita, mas inteira.

 Encarar minha timidez foi desatar o primeiro nó que me impediria de viver por inteiro os primeiros anos de faculdade. Hoje, lidar com minha liberdade e ter a consciência de que sou totalmente responsável por tudo o que se refere a mim, incluindo aquilo que _ principalmente_ me afeta ou incomoda, é o que me desafia. Pois cabe a nós dar remédio àquilo que nos dói. Não há culpa nem culpados, apenas situações que permitimos ou não que aconteçam.

 Se a vida começou aos dezoito, ela se desenrolou nesses mais de vinte anos que se seguiram. Hoje, mais amadurecidos e cheios de memórias, nossos nós são outros. E desatá-los um a um se torna imprescindível para que a vida continue da melhor maneira possível a partir de agora, que chegamos aos quarenta.

 Talvez seja essa uma idade de balanço. De entender e perdoar o passado e prosseguir sem muito drama ou culpa _ "mimimi"_ como dizem por aí. De ser conhecedora de meus anjos e demônios e lidar com eles, sem o risco de favorecer um ou outro em detrimento de mim mesma. De recusar qualquer depreciação desnecessária e estar aberta aos elogios sinceros; de reconhecer os milagres e bençãos; de perceber a matéria volátil que é feita a vida e assim mergulhar profundamente na paisagem presente; de ousar, agora que já conheço alguns caminhos_ bons ou ruins_ dando permissão ao inesperado; de estar mais a vontade com a singularidade de que sou feita, recusando qualquer caractere que não me defina, negando pertencer por pertencer ao padrão vigente ou exigente. De aceitar minhas perdas como parte do jogo, ganhando com elas também. De enxergar com mais lucidez e menos critério, descobrindo a vida além da superfície ou do que é visível. Acima de tudo, desconstruindo certezas e sendo mais honesta com aquilo que realmente sinto. Talvez buscando uma vida de menos identidade e mais coerência.

 Se aos dezoito descobri que precisava de empenho para me posicionar perante minha própria história, hoje, próxima dos quarenta, descubro que viver uma vida responsável _ e portanto livre_ requer o dobro de esforço.
 Pois desacomodar-se requer movimento. E crescer exige rupturas.
 Ruptura com modelos que associamos ao que somos, mas que nos limitam e impedem que sejamos o que ainda podemos vir a ser. Ruptura com o olhar aniquilador que não nos redime nem autoriza viver uma vida inteira, longe de tabus que nos afastam daquilo que tem capacidade de nos enriquecer.

 Já que a vida não começa aos quarenta, que ela seja narrada da melhor forma possível a partir de agora, em que foram decifradas a maioria das charadas, e descobertos os diversos caminhos.
 Que possamos ser verdadeiros, pois o tempo das desculpas deve ter ficado pra trás, junto com as inseguranças e dúvidas. Que consigamos, acima de tudo, escolher olhar para nós mesmos com mais amor.

 Pois é esse olhar amoroso que nos permitirá seguir adiante, sem lastimar o passado, mas dando uma grande chance ao futuro.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES






sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A primeira amizade precisa ser consigo mesmo

OSHO

A primeira amizade precisa ser consigo mesmo,
mas muito raramente se encontra uma pessoa que seja amistosa consigo mesma.
…..Ensinaram-nos a condenar a nós mesmos. O amor-próprio foi considerado como um pecado. Não é.
Ele é a base de todos os outros amores, e é somente através dele que o amor altruísta é possível.
Como o amor-próprio foi condenado, todas as outras possibilidades de amor desapareceram.
Essa foi a estratégia muito ladina para destruir o amor.
É como se você dissesse a uma árvore: “Não se alimente da terra, isso é pecado.
Não se alimente da lua, da chuva, do sol e das estrelas; isso é egoísmo.
Seja altruísta, sirva outras árvores”.
Parece lógico, e esse é o perigo.
Parece lógico: se você deseja servir os outros, sacrifique-se; servir significa sacrificar-se.
Mas, se uma árvore se sacrificar, ela morrerá e não será capaz de servir nenhuma outra árvore;
de maneira nenhuma será capaz de existir.
Ensinaram-lhe: “Não ame a si mesmo”. Essa foi praticamente a mensagem universal das pretensas religiões organizadas.
Não de Jesus, mas certamente do cristianismo; não de Buda, mas do budismo -
de todas as religiões organizadas, este foi o ensinamento: condene a si mesmo, você é um pecador, você não tem valor.
E, por causa dessa condenação, a árvore do ser humano se retraiu, perdeu o brilho, não pode mais festejar.
As pessoas vão dando um jeito de se arrastar, não têm raízes na existência – estão desenraizadas.
Elas estão tentando prestar serviço aos outros e não podem, porque nem foram amistosas consigo mesmas.
……Eu não tenho nenhuma condenação, não crio nenhuma culpa em você.
Eu não digo: “Isto é pecado”.
Eu não digo que o amarei só quando você preencher certas condições.
Eu o amo como você é, porque essa é a maneira que uma pessoa pode ser amada.
Eu o aceito como você é, porque sei que esse é o único modo que você pode ser.
É assim que o todo desejou que você fosse. É como o todo destinou-o a ser.
Relaxe e aceite-se e alegre-se – e então vem a transformação.
Ela não vem através de esforços.
Ela vem pela aceitação de si mesmo com tal profundidade de amor e felicidade, que não há nenhuma condição, consciente, inconsciente, conhecida, desconhecida.
O amor é alquímico. Se você se amar, a sua parte feia desaparece, é absorvida, é transformada.
A energia é liberada daquela forma.
Todas as coisas chamadas de pecado simplesmente desaparecem.
Eu não digo que você tenha que mudá-las; você tem que amar o seu ser, e elas mudam.
A mudança é um sub-produto, uma conseqüência.
Ame-se. Esse deveria ser o mandamento fundamental.
Ame-se. Tudo o mais se seguirá, mas este é o alicerce.
OSHO

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Matryoshka


 Matryoshka, ou boneca russa, é um brinquedo tradicional da Rússia, constituído por uma série de bonecas que são colocadas umas dentro das outras, da maior (exterior) até a menor (a única que não é oca). Parece que o significado do brinquedo provém de uma lenda e pode significar fertilidade, cuidado e proteção.

 Outro dia, porém, pensando no quanto a vida da gente é costurada e ajustada, cheia de bainhas, recortes e emendas, cheguei à conclusão que bom mesmo é ser a última bonequinha da Matryoshka, aquela menorzinha que encontramos ao final e que, significativamente, não é oca.
 Porque evoluímos demais. Adquirimos hábitos civilizatórios, aprendemos a cumprir nossos deveres e adquirimos bons modos pra viver em sociedade. Mas também nos afastamos da matéria de que somos feitos, mais ou menos como se colocássemos bonecas em cima de bonecas e ao final acreditássemos ser a boneca maior, quando na verdade somos a menor.

 Talvez a maior evolução que nosso cérebro tenha alcançado evolutivamente tenha sido essa capacidade de se adaptar e nos permitir sermos seres sociáveis. Aprendemos, desde muito cedo, quais hábitos são aceitáveis ou não. Mas ninguém nos explicou de que forma iríamos assimilar tanto "isso pode e isso não pode". E daí que colocamos pra baixo do tapete coisas demais, que poderiam facilmente conviver bem à tona de nós mesmos sem causar prejuízo a ninguém... Varremos porque entendemos que aquilo poderia não ser tão agradável. E assim nos transformamos em Matryoshkas enormes, mas que no interior carregam um desenho original bem distante do que é visível aos olhos.

 Vivendo em sociedade, aprendemos que é de bom tom ser sorridente, simpático, resignado, tranquilo, sensato, equilibrado e até obediente. Só que nem todo dia é assim, primaveril... Existem dias áridos, em que você acorda e não está a fim de seguir a cartilha, nem forçar um sorriso, e sinceramente, querendo que tudo se #¨*oda. Então você descobre que há maneiras mais saudáveis de conviver. E entende que essa história de "bonzinho" não passa de identificação _ identificação de um ego inseguro com o modelo de perfeição. Então você vai diminuindo de tamanho. Remove uma a uma as Matryoskas ocas que lhe deram essa identidade e descobre-se pequeno, mas inteiro.

 Somos muitos. Assumimos papéis e interpretamos diferentes versões. Só que a identificação é muito perigosa. O perigo é acreditar que sou uma das bonecas ocas. E viver em função dessa identidade oca também _ o ego.

 Não se trata de retirar máscaras. Nem acreditar que autenticidade é dizer na cara das pessoas as mais duras verdades. É, antes de tudo, viver com mais coerência e menos culpa. Descobrir, lá no fundo, o que lhe permite ser livre _ verdadeiramente, sem se levar a sério demais.

 Faz parte do desejo de ser aceito renegar um pouco a si mesmo. Mas depois que a gente cresce e percebe que precisa ser mais leve, descobre que deu importância demais a regras sem sentido só em função do medo de não ser amado. E percebe que bom mesmo é ser verdadeiro, pois quando me aproximo de mim, sou mais feliz e consequentemente, fácil de conviver.

 Quando renegamos a nós mesmos, é como se colocássemos bonequinhas em cima de bonequinhas, como a Matryoska, e disfarçássemos nossa essência com excesso de controle e julgamento. Quando nos aceitamos, estamos prontos para a mudança, e por mais paradoxal que isso pareça, a mudança não nos torna diferentes de quem somos e sim parecidos com quem realmente somos. E aqui não me refiro a jogar tudo pro alto, ser egoísta, negligente, promíscuo ou mau educado. Falo da busca daquilo que não faz parte do ego, nem da necessidade de agradar, mas que representa o que realmente sinto e penso. Quando conseguir chegar ao interior das bonequinhas ocas, a mudança estará completa, pois decido viver de acordo com minha verdade, e não assumindo papéis que distorcidamente acumulei durante os anos de minha vida em função de agradar, de ser perfeito, de ser aceito, de ser amado. Enfim descubro que posso ser amado pelo que sou, e não pelo que represento ser.

 Na vida, a gente se ajusta como pode. E isso implica negar impulsos, necessidades, vontades. E como varremos tantos anseios, ou precisamos de tantos limites, nos incomodamos com quem se assume. Se assume imperfeito, incompleto, despreparado, descuidado, atrasado, inadequado... Isso incomoda, porque se somos tão controlados, como alguém pode não ser? Se sofro tanto pra trancar meus pecadinhos lá no fundo, como alguém pode escancará-los numa boa?

 Por isso a liberdade é tão difícil de ser encontrada. Difícil porque está no fundo, camuflada por essa necessidade que temos de nos ajustar. Então desejamos, mas será que desejamos o que realmente queremos? Ou estamos tão identificados com a superfície que não sabemos mais o que no fundo queremos realmente? Sendo a liberdade a menor bonequinha da Matryoshka, a capacidade de percebê-la é um exercício difícil, que requer retirar as carapaças e identidades, descobrindo a própria verdade. 

 Você já parou pra pensar que aquilo que aparentemente está mais bem resolvido pra você pode ser o que lhe afeta mais? Ou que toda essa culpa que você frequentemente experimenta vem da dificuldade de ser coerente, de estar alinhado entre o adequado e o desejado? #Ficaadica, como dizem por aí... quem sabe um dia você possa perceber que a maior e mais vistosa boneca Matryoshka não lhe representa. Ao contrário, será removendo uma a uma das bonecas ocas que você encontrará a si mesmo, menor e mais compacto, mas acima de tudo, inteiro.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES