"Estou nas palavras, mas estou, sobretudo, nas entrelinhas..."

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Números

 Outro dia, relendo "O Pequeno Príncipe" para meu menino, estacionei numa passagem.

 Assim dizia: "As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: 'Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que preferem? Será que ele coleciona borboletas?' Mas perguntam: 'Qual a sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?' Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dissermos às pessoas grandes: 'Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado...' elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: 'Vi uma casa de seiscentos contos'. Então elas exclamam: 'Que beleza!'"

 Dá uma certa pena concordar com Antoine De Saint-Exupéry, mas é verdade. Principalmente nesse tempo em que valorizamos tanto a conectividade, popularidade digital, redes sociais...

 O fato é que do final do ano passado para cá me entristeci com o desempenho da página do blog no facebook. Não sei dizer que fatores levaram a página a crescer em 2014, do mesmo modo que não saberia dizer o que tem promovido seu retrocesso gradual.
 O 'Pequeno Príncipe' diria: 'são apenas números', e eu concordaria, apesar de desejar enxergar muito além das estatísticas e gráficos tão alarmantes _ que não podem e jamais poderiam condicionar meu desempenho e muito menos meu humor.

 A citação acima tem me feito refletir. Alcançar popularidade nunca foi um objetivo, e sim uma consequência totalmente inesperada. Sou muito grata a todos que permanecem conectados à página do facebook, principalmente àqueles que visitam o blog e me dão um feedback positivo (obrigada gente!), mas talvez seja hora de rever e retomar meus valores.

 O blog nasceu de um período tumultuado em minha vida, e me salvou de diversas maneiras. Quando comecei, nem de longe tinha a intenção de torná-lo acessível. Escrevia para desabafar, para colocar algumas peças soltas no lugar, para refletir, para expressar tudo o que não cabia em mim. Para minha surpresa, muita gente se identificou. De uma forma inesperada, descobri que não estava sozinha. Que minhas duvidas, tentativas, acertos e desacertos eram sentidos por outras pessoas também. Que aquela era só uma forma de contar uma história, mas ainda assim, havia pessoas dispostas a ler e compartilhar meus caminhos como parte de suas trajetórias também.

 Porém, o blog foi mudando com a chegada dos números. Um contador foi colocado do lado direito da página. Um gráfico me informava novos likes no facebook. Um botãozinho me dizia que as publicações estavam ganhando espaço no universo digital. Sem querer, permiti ser corrompida pelos números. Deixei de pensar no blog como uma criação afetiva para torná-lo um espaço numérico.

 Me entristece perceber que adoramos números. Que medimos o quanto somos aceitos por estatísticas. Que autorizamos sermos rotulados como 'bons ou ruins' através da quantidade de curtidas que damos e recebemos a cada postagem. Que deixamos a poesia escorrer em vista dos lucros. Que podíamos voltar atrás e simplesmente entender de amigos e beleza através do gosto por borboletas e gerânios na janela do que pelo contador do facebook.

 É hora de fazer o caminho de volta. Quero sim que meus textos ganhem vida na casa e no coração das pessoas; que ajudem alguém a enfrentar seus dilemas com mais tolerância e entendimento; que encontrem eco nas dúvidas diárias, na alegria, no enfrentamento, no perdão, na aceitação. Mas que seja simples, humilde, com gosto de pão com geleia e café fresquinho na mesa da cozinha. Sem floreios, sem botãozinho azul com sinal de positivo, sem negociações com a sorte e o falso valor.

 Através de seus simbolismos, 'O Pequeno Príncipe' nos leva a refletir sobre a maneira que nos tornamos adultos, sobre como nos equivocamos com aquilo que tem ou não tem importância, sobre nossos julgamentos e vaidades.
 Talvez seja hora de rever meus valores, retomar aquilo que me apaziguava e trazia conforto, ao que existe muito além da aprovação alheia e estatísticas virtuais.

 Com o tempo, chegam as mudanças. Como eu disse, o blog nasceu de um período de dúvidas e incertezas, que hoje estão mais lapidadas e assimiladas. Com isso, novos temas são abordados. É natural que algumas pessoas deixem de se identificar. Certamente virão outras, e assim sucessivamente.

 Porém, quero sempre lembrar desse lugar como um refúgio. Um cantinho que nasceu para ser simples, que remete às minhas origens mineiras, aos afetos que construí ao longo do caminho, ao tempo que passa e nos transforma, à sensibilidade que é possível extrair de cada dia, ao sentido que procuramos nas pequenas coisas, ao cheiro de chá e canela, ao som de uma canção que nos mobiliza, às histórias que compõem tudo de que é feita a vida...

 Bem vindos!

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

Imagem: Via pinterest, de Liny Miller

  

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

É sempre o agora

 Alguns enredos comovem pela simplicidade. Por andarem lado a lado com a existência, dando significado àquilo que poderia ser retratado como um acontecimento banal. Por falar de nós a nós mesmos, decifrando com sensibilidade o que vivemos e sentimos rotineiramente, traduzindo em sons e imagens aquilo de que é feita a vida _ uma sequência de acertos, desacertos e desafios que experimentamos diariamente _ modulados pela inexorável passagem do tempo.

 Um pouco atrasada, assisti ao filme "Boyhood _ Da infância à juventude" durante o carnaval. Não falaria do filme aqui se não tivesse sido completamente arrebatada por sua simplicidade. E apesar das inúmeras publicações, resenhas e críticas ao filme, ainda assim senti-me impulsionada a deixar minha impressão.

 Qualquer história carrega um pouco de nós. E Boyhood faz isso de forma primorosa, ao permitir-nos revisitar um pouco do que fomos e do que vivemos enquanto o tempo passava e simplesmente crescíamos.

 Boyhood é um filme sensível, para pessoas sensíveis. Não é para ser assistido esperando grandes feitos, além da constatação de que o tempo está moldando cada um dos atores e personagens externa e internamente, como acontece conosco, em nossas vidas. Talvez seja esse o legado que Linklater, diretor e roteirista do longa, queira deixar: o de que a vida é sim uma sequência de pequenos gestos e narrativas que juntas formam um mosaico, ao mesmo tempo comum e fascinante.

 Estamos habituados a esperar demais da vida, e nesse sentido Boyhood pode ser facilmente descartado por não revelar além de nós mesmos e de nossos conflitos tão rotineiros.
 Mas então descobrimos, com Linklater e seus personagens, que a magia não está no fundo do oceano ou no topo de uma montanha. A magia está naquilo que vivenciamos e superamos a cada dia, nos recomeços, nas despedidas, nos encontros e reencontros.

 Na simplicidade do diálogo do menino de seis anos com a mãe:
 "_ Adivinha mãe. Descobri de onde vem as moscas.
 _ É? De onde?
 _ Bem, acho que deve ser... Se você colocar uma minhoca ali, no lugar certo, vai virar uma mosca.
 _ Que legal..."

 No desabafo cheio de nostalgia da mãe, ao constatar que seu menino cresceu: "Só achei que haveria mais..."

 Na constatação de Mason, agora já crescido, de que o importante é aproveitar o momento: "Eu sei, é... é constante. Os momentos são... parece que sempre é o agora, sabe?"

 E descobrimos que apesar da história ser familiar, saímos dela modificados. Não por simplesmente dar forma à nossa própria trajetória, mas por garantir que nossas angústias são universais.

 Percebemos então que não estamos nem estivemos sozinhos quando o casamento acabou, quando o corte de cabelo no ensino fundamental nos envergonhou, quando o primeiro amor não vingou, quando morremos de raiva ou medo, quando tivemos aquela conversa séria, quando nos despedimos, quando nos sentimos especiais, quando duvidamos, quando tivemos certeza.

 Principalmente, quando achamos que "haveria mais", e descobrimos admirados que a vida "é sempre o agora".

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES







segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O melhor e o pior

 Todas as noites, ao colocar meu menino para dormir, começam nossas conversas mais profundas. Entre as costumeiras confissões, invariavelmente a pergunta "O melhor e o pior do dia?" nos coloca a refletir sobre o bom e o ruim de nossos passos, escolhas e desafios até o momento presente.
 Não sei se isso foi invenção nossa ou me inspirei num filme antigo, "História de nós dois", em que a mesma pergunta acontecia na mesa da família e depois viria a unir os personagens centrais.

 O fato é que descobrimos que um mesmo dia pode carregar lados distintos, emoções contraditórias e períodos de alternância entre o melhor e o pior dos fatos e de nós mesmos.

 Semana passada, na Folha Ilustrada, uma matéria com Nathalie Edenburg colocava em foco um novo projeto da modelo, que atualmente trabalha na arte de colorir fotografias de seu rosto, colocando cores, sombras e nuances de acordo com o humor de cada dia. O resultado é surpreendente, ao revelar faces distintas, cada uma com sua beleza e peculiaridade, um caleidoscópio de identidades.

                                (Imagem: Reprodução Folha de São Paulo, caderno Ilustrada)

 Semelhante à modelo, sou uma mulher de fases. Do tipo que pintaria as têmporas de vermelho pela manhã e colocaria margaridas nos olhos ao cair da tarde. Por vezes constrangida com minha essência, inadequada em minha pele; em outros momentos sentindo que a vida se encaixa completamente e de repente tudo faz sentido.

 Longe de qualquer palpite astrológico, fase da lua ou diagnóstico de bipolaridade, somos seres complexos, indecifráveis, por vezes antagônicos, muitas vezes instáveis. Carregamos mais pluralidades que singularidades e oscilamos com as mudanças que ocorrem rotineiramente, mas principalmente com aquilo que emerge e submerge dentro de nós.

 Descobrir 'o melhor e o pior' nos mostra que nem todo dia é só bom ou ruim. Conseguir extrair beleza de um dia caótico é um exercício de sabedoria que é preciso praticar exaustivamente, do mesmo modo que é primordial entender que é normal haverem falhas recorrentes em nosso percurso cotidiano.
 Nem mesmo um dia perfeito está livre de suas contradições, da mesma forma que nem os piores dias estão isentos de sua alegria.

 É por isso que de vez em quando coloco em cheque a tela do meu celular. Seguidora moderada de blogs e afins, me surpreendo com a alegria 'padrão cem por cento' estampada no instagram. Começa com um suco verde, seguida por uma dieta detox, treino funcional e desfile de marcas nacionais e importadas. Em outra página, a oitava viagem desde que o ano começou, baile da Vogue e cabelo impecável. A vida editada, em que não há espaço para a humanidade que nos habita, parece incompleta. O pedaço da história em que o 'pior' não existe, ou nunca poderá aflorar, traz à tona nossa dificuldade de lidar com a realidade. A realidade em que o 'pior' não nos faz piores, mas simplesmente humanos.

 Meu filho precisa saber que não sou diferente dele. Que mesmo feliz, me entristeço um pouco, morro de saudades, desanimo e sigo em frente. Que minhas dúvidas andam lado a lado com a alegria, e que meu entusiasmo morre e renasce mais vezes que eu gostaria, mas mesmo assim me faz persistir, ter fé, e principalmente acreditar que se um dia teve o seu 'pior', ele também deve ter tido o seu 'melhor', e que se hoje foi mais vazio, haverão momentos mais cheios.

 Finalmente, temos que ser gratos pela satisfação não ser permanente, pois sem a inquietação não teríamos motivos para crescer e buscar novas estradas, encontrando significado no melhor e pior de cada dia.

                                                                                                                         FABÍOLA SIMÕES

 Imagem inicial: Via pinterest, por Elena Shumilova

domingo, 25 de janeiro de 2015

O que aprendi com Anne Frank

 Vinte e sete anos. Foi essa distância que separou o tempo em que li "O Diário de Anne Frank" pela primeira vez _ aos treze anos _ e agora, em que releio com olhos amadurecidos e maior vivência do mundo. Naquela época eu também escrevia um diário e, a exemplo de Anne, apelidei-o de "Kitty". Porém, ainda não tinha vivido o suficiente para entender acerca das impossibilidades da vida humana e de que forma precisamos viver para que a existência adquira algum sentido.

 Para quem não conhece a história, o livro é a edição definitiva do diário da menina Anne Frank no período de 1942 a 1944, época em que tinha de treze a quinze anos de idade. No contexto do nazismo e da guerra, Anne, confinada no que chamou de "Anexo Secreto", experimenta e exterioriza, através da escrita, todos os sentimentos e conflitos inerentes à adolescência, que se tornam mais agudos e intensos por estarem, assim como ela, confinados e destinados a uma existência enclausurada, fugindo do terror da Segunda Guerra Mundial.

 Talvez eu não tivesse consciência aos treze mas, a exemplo de Anne, pude descobrir que escrever me salvaria de diversas formas. Essa foi a primeira _ e grande _ lição que o livro me trouxe. E de alguma forma, durante algum tempo, foi isso o que a salvou também. Por permitir extravasar seus temores e emoções, suas dúvidas e tristezas, sua raiva e desespero, seu amor e verdade interior. Ao recorrer às letras, Anne desaguou sua intensidade em palavras e pôde diminuir a dor dentro de si.

 A segunda lição foi descobrir que em algum lugar no mundo, num tempo distante do que vivemos e em circunstâncias completamente diferentes, uma menina sentia, experimentava e conseguia colocar em palavras toda a gama de sentimentos e contradições que o espírito humano é capaz de vivenciar. Ao se deparar com um mundo de impossibilidades, soube resistir dia a dia, do jeito que lhe era possível, da maneira mais verdadeira e coerente que alguém pode ser e viver.

 Ao contrário do que se poderia imaginar, Anne não fazia o tipo "menina- boazinha- e -obediente". Era tão humana e forte que, mesmo tão jovem, sabia se posicionar diante das pessoas e dos acontecimentos de forma por vezes agressiva e insolente, mas sempre alinhada com suas argumentações interiores. Essa foi outra lição que aprendi, ao perceber que de vez em quando torna-se primordial seguir nossa intuição ou fé, mesmo correndo o risco de, à primeira vista, não favorecer quem amamos. Nem sempre nossos caminhos ou escolhas estão de acordo com o que esperam de nós, mas isso não nos torna pessoas ruins. Querer viver com autenticidade tem um preço, mas os ganhos são inegavelmente favoráveis. Talvez Anne parecesse impaciente e teimosa, com um gênio difícil de controlar, mas como ela mesma revela, "apesar de rir e fingir que não me importo, eu me importo sim. Tem dias que gostaria de ser diferente, mas isso é impossível. Estou presa ao caráter com qual nasci, e mesmo assim tenho certeza de que não sou má pessoa. Faço o máximo para agradar a todos, mais do que eles suspeitariam em um milhão de anos". Não sei se caberiam mais palavras aqui, mas o fato é que me senti mais normal ao ler isso, perdoando minhas ranhuras e aceitando minhas defesas.

 Algumas pessoas ou fatos nos autorizam a viver com mais tolerância ao que somos e ao que carregamos dentro de nós. Descobrir que de vez em quando é normal nossos espinhos aflorarem e nossos fantasmas virem à tona nos apazigua e permite que enfim respiremos com mais leveza. Nem só de perfeição é feita nossa carne; carregamos dúvidas, contradições, melancolia e desesperança, mas isso não nos torna pessoas más. Quando reconhecemos nossas aparentes fraquezas no outro, descobrimos que somos feitos do mesmo tecido, incompletos e profundamente humanos.

 A quarta lição que aprendi com Anne foi referente ao sofrimento. Quando alguém está desiludido, desanimado ou triste, temos o péssimo costume de sugerir que essa pessoa pense no sofrimento dos outros, como se isso fosse diminuir sua própria dor. Quantas vezes não ouvi: "Pense nas pessoas que passam fome, etc, etc...". Para Anne, isso também era absurdo e desnecessário. Assim ela dizia: "Nesses momentos não penso no infortúnio, e sim na beleza que permanece. É nisso que eu e mamãe somos muito diferentes. Seu conselho diante da melancolia é: 'Pense em todo o sofrimento que há no mundo e agradeça por não fazer parte dele'. Meu conselho é: 'Saia, vá para o campo, aproveite o sol e tudo que a natureza tem para oferecer. Saia e tente recapturar a felicidade que há dentro de você; pense na beleza que há em você e em tudo ao seu redor, e seja feliz". 

 Finalmente, eu poderia falar sobre escolhas, resignação e capacidade de adaptação, mas talvez prefira limitar-me à esperança. Havia a guerra e a promessa de seu fim. Havia o "Anexo Secreto" e a confiança de que logo estariam livres dali. Havia o medo e a fé num futuro melhor. Em todas as situações, o que fez cada um resistir foi a esperança.
 A mesma esperança que nos guia dia a dia em busca de sentido para nossa existência.
 Precisamos acordar e simplesmente seguir em frente, e como resistir se não houver esperança? Como avançar nos planos, no encontro com a alegria, nas pequenas realizações rotineiras ou participações voluntárias na própria vida se não houver ao menos um pouco de expectativa?
 É a esperança que nos convida a agir, nos coloca em marcha ou garante que nossa luta diária não será em vão.

 E descobrimos, com Anne e sua esperança, que a liberdade não consiste num espaço _ fora do esconderijo ou longe do lugar onde nos encontramos_, mas sim numa forma de existir. Assim, mesmo confinada, ela descobriu que poderia ser livre ao reagir com fé num futuro melhor. Principalmente, que poderia ser livre através de sua caligrafia certeira e corajosa, acreditando firmemente que um dia suas memórias serviriam para outras gerações se inspirarem e viverem melhor.

 Sim, ela conseguiu.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

Imagem: Via pinterest, em artigo de Mental Floss













quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Júlia

 Há pouco mais de um ano escrevi um texto dando boas vindas à Laura, sua prima, que nascia numa manhã ensolarada como essa, trazendo a noção de que a nova geração de mulheres da família será sempre comparada a raios de sol.

 Depois do trabalho, com o qual revezo escrevendo este texto, irei conhecê-la e abraçar bem forte seu irmãozinho, que ainda cedo me ligou para contar que você lhe deu três novos 'gormits', monstrinhos que ele aprendeu a colecionar com o primo Bernardo, filho dessa tia que hoje lhe escreve. Ele ainda é muito novo para compreender, mas ter irmãos é sentir-se abraçado à distancia, acarinhado em pensamento, entendido na ausência.

 Como você irá perceber, somos uma grande família, irmãos, tios e primos que se querem bem e por vezes se desentendem com ou sem razão, mas acima de tudo com um carinho sem fim. Passamos por alegrias, vitórias e alguns revezes, mas aprendemos que quando deixamos as defesas serem rompidas, a gente consegue se ajudar mais.

 Por enquanto você se sentirá bem protegida e aninhada no braço forte de seu pai e na maciez do colo de sua mãe. Com o tempo, porém, aprenderá a dar os próprios passos, e mesmo com eles na retaguarda, descobrirá que é capaz de cair e se levantar, chorar e sorrir, machucar e se recuperar. Talvez sinta mais os tombos que os recomeços, e eu torço para que não endureça com excesso de zelo ou preocupações. Nessa vida a gente se blinda de diversas maneiras, mas aprender a afrouxar as defesas também nos torna pessoas mais leves e felizes.

 Pode ser que nada disso que eu escrevo faça sentido, seu espírito pode ser leve e descontraído como o de seu irmão, o menino que conta piadas ao telefone e sabe de cor o nome das amigas de sua avó. Do alto de seus cinco anos ele me ensina a não levar a vida tão a 'ferro e fogo', diminuindo a rigidez dos ombros e aumentando a curva dos lábios. Ser mãe é uma dádiva, mas ser tia é um privilégio.

 Como já disse à Laura, o que faz cada um ter uma boa vida é aprender a resistir com serenidade e fé. Porque por mais que a gente seja forte, alguns momentos nos desestabilizam por completo. E é nessas horas que você terá que se empenhar em resistir e suportar, descobrindo que possui dons e talentos que nem sabiam que existiam, mas que podem aflorar lindamente nas horas mais difíceis e necessárias. Talvez você goste de culinária, talvez se aperfeiçoe no ballet. Quem sabe goste de música, por acaso se arrisque no xadrez. Mas também pode ser que se inspire nos 'santos de casa' e pedale como seu pai; vibre com o tênis como sua mãe; cante e ore como vó Clau; corte, pinte e cole como vó Inês; experimente alguns pincéis como tio Léo, comece um diário como tia Fá. Não importam os meios, o importante é que encontre um meio, uma forma de existir que a faça realizada e feliz.

 Por fim, não se esqueça: as pessoas que nos querem bem por vezes nos ferem também. Machucam sem querer machucar, arrancam lágrimas sem querer arrancar. E isso muitas vezes está relacionado mais à vida delas que às nossas. E a gente vai ter que compreender, mesmo preferindo de outro jeito. Isso é amor também, sabe? Saber aceitar a vida do outro, que interfere tanto na vida da gente, mas que ainda assim, é outra vida. Cada um tem uma história, e ainda que muitos capítulos estejam entrelaçados de forma definitiva, cada pessoa carrega em si não somente aquilo que sai dos olhos ou da boca, mas muitas outras coisas que jamais conseguiremos supor por completo.

 Sendo assim Júlia, se ainda posso dar-lhe um conselho, aprenda a perdoar. Não somente aos outros, mas principalmente a si mesma. Não há ganho nenhum em reter arrependimentos ou culpa, mas procurar a reparação é essencial para se viver em paz. Perdoe, aceite, ame. Descubra o presente lindo que é a vida e tente trilhar sua história com coerência e autenticidade. Não perca a fé, ore, agradeça e recorra a Deus quando precisar. Porém, se ainda assim precisar de uma palavra amiga, conte sempre comigo.
 Tias têm a vantagem de não ter tanta censura quanto às mães, e podem ser boas ouvintes e conselheiras de vida e coração.

 Porém, lembre-se que podemos lhe ajudar nessa jornada, mas os pés que irão trilhar o caminho são só seus.
 Seja feliz!
 Bem vinda à vida!
 Com amor,
   
                                                                                                                         tia FABÍOLA SIMÕES

Créditos da imagem: Elena Shumilova









quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A vida acontece pra quem se arrisca

 Desde que comecei o blog, há dois anos, descobri que sou uma pessoa corajosa. Ao oferecer-me ao leitor, quase nua, em letras que traduzem minha vida e meu espírito, rompo uma barreira de juízos e precauções, e arrisco viver sem receio de tropeçar e cair, quase acreditando que posso ser melhor do que imagino.

 Habituamos a nos esconder. Preferimos as condenações aos vôos livres, e nos refugiamos numa vida segura e cheia de reservas. Nos reservamos o direito de calar, de pisar em terreno sólido e firme, de não correr riscos, de avançar dentro de um limite razoável. E esquecemos que o preço de tentar racionalizar tudo é viver pela metade, ignorando que a vida acontece e deve acontecer pra quem simplesmente se deixa em paz.

 Existe uma fábula que conta a história de uma galinha que vivia numa granja e se destacava entre todas as outras por seu espírito de aventura e ousadia. Não tinha limites e andava por onde queria. O dono, porém, estava aborrecido com ela. Suas atitudes estavam contagiando as outras, que já a estavam copiando.
 Um dia o dono fincou um bambu no meio do campo, e amarrou a galinha a ele com um barbante de dois metros. O mundo tão amplo que a ave tinha foi reduzido a exatamente onde o fio lhe permitia chegar. Ali, ciscando, comendo, dormindo, estabeleceu sua vida. De tanto andar nesse círculo, a grama dali foi desaparecendo. Era interessante ver delineado um círculo perfeito em volta dela. Do lado de fora onde a galinha não podia chegar, a grama verde; do lado de dentro, só terra.
 Depois de um tempo, o dono se compadeceu da ave pois ela, tão inquieta e audaciosa, era agora uma apática figura. Então a soltou.
 Agora estava livre! Mas, estranhamente, a galinha não ultrapassava o círculo que ela própria havia feito. Só ciscava dentro do seu limite imaginário. Olhava para o lado de fora mas não tinha coragem suficiente para se aventurar a ir até lá. E assim foi até o seu fim.

 De vez em quando agimos feito a galinha. Preferimos ciscar em nossa zona de conforto a ousar novos contornos. Nos amedrontamos diante de novas possibilidades e construímos círculos fechados onde podemos nos refugiar em segurança. Inventamos desculpas que nos convencem de nossa pouca habilidade e capacidade de sermos melhores ou mesmo diferentes, simplesmente porque não sabemos lidar com a quebra da rotina ou com a exploração de novos terrenos.

 É preciso uma boa dose de 'cara de pau' _ ou coragem de se expôr _ se quisermos existir de verdade. E recordo o candidato Tiririca, cuja falta de senso crítico o fez chegar onde desejava, ainda que sem preparo algum. Quantas pessoas  _ preparadas e cheias de talento _ deixam oportunidades passarem e sonhos serem arquivados simplesmente porque construíram círculos fechados em volta de si mesmos, com receio de expôr aquilo que realmente são, preferindo viver uma vida segura _ e limitada_ a viajar para novos espaços onde a grama é mais verde e o céu mais azul?

 2014 chega ao fim trazendo a promessa de novos dias pra gente escrever a história com sabedoria e jogo de cintura. Talvez seja a hora de nos percebermos capazes. De descobrirmos nossos talentos e aprendermos o poder da autoconfiança, sem subestimar nossos dons, mas aprendendo a usá-los com coragem, arriscando ser mais nós mesmos do que seríamos em nossos abrigos.

 Que em 2015 possamos nos deixar em paz. Que haja coragem de dar o primeiro passo, reconhecendo pouco a pouco que somos capazes de enfrentar os desafios sem medo dos tropeços que acontecem na vida de todos e de cada um. Que possamos romper a barreira do medo e da falta de esperança, descobrindo que também carregamos bençãos, dons que recebemos e poucas vezes temos a coragem de explorar. Que haja fé, esperança e otimismo, por um ano de menos desculpas e mais realizações...

 Feliz 2015!!!


                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

(Imagem: Via pinterest, por Topit.com)

                                                                                                                       





 

  


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A gente tem que continuar...


 Algumas séries me fisgam pelas beiradas. São frases, ditas no meio de um episódio, que me levam a refletir os últimos acontecimentos de minha vida, e de repente estou apaixonada pelas personagens, feito a Teresa, de "Três Teresas", na noite de ontem. Lá pelas tantas, a frase: "O mundo da gente começa a morrer antes da gente... e a gente tem que continuar..." _ Pronto. Foi a deixa para meu pensamento voar, entender alguns desencaixes, suportar certas partidas, colocar algumas peças no lugar.

 A gente tem que continuar mesmo depois que o arroz queima, a água seca, o vinho entorna. A gente continua depois de descobrir que os defeitos pioram com a idade e as qualidades viram hábito no dia a dia. A gente tem que continuar depois do luto, da partida, da despedida. das horas frias, do caminho incerto. A gente continua e aprende a cantar "apesar de você, amanhã há de ser outro dia..." para o amor que não deu certo, para as falhas recorrentes. para nós mesmos que nem sempre somos aqueles que gostaríamos de ser. Apesar de nós mesmos, de nossas fissuras e desencantos, a gente tem que continuar...

 E aprendemos que ter que continuar é muito mais que traçar um caminho que justifique nossa esperança por dias melhores. É saber deixar pra trás com sabedoria, entendendo que a vida é constituída de muitas histórias, e que finalizar um capítulo não significa dar fim ao que somos. 

 O mundo da gente começa a morrer antes da gente, e aceitar nossa responsabilidade em deixar o mundo se modificar, se despedir ou se transformar requer coragem. Coragem de romper com modelos antigos do que fomos e assumir com maturidade novas versões _ muitas vezes melhores _ de nós mesmos. 

 De vez em quando nos habituamos a antigos nós. Preferimos a dificuldade do que é conhecido à facilidade de novos e perfeitos voos. Desdenhamos a felicidade como quem se empenha em ser infeliz e construímos muros a nos proteger da vida que chega trazendo ares de esperança e novidade. Preferimos nos refugiar no que é conhecido, e nem sempre melhor. 

 Muita esperança chega junto ao fim de ano e a promessa de novos dias, limpinhos, pra gente escrever a história da melhor maneira que puder. Talvez precisemos aprender a aceitar as novas realidades que inevitavelmente ocorrerão. 
 Haverá a mãe que terá que se adaptar ao fim da licença maternidade, a adolescente que verá seu namoro ruir, o homem que receberá o pedido de divórcio numa manhã aparentemente comum, a senhorinha que vai enviuvar, os pais que levarão seu menino ao aeroporto para fazer intercâmbio, a menina que verá o fim da infância num teste de gravidez, a decepção do jovem, o casamento da moça dos sonhos, o ninho vazio, as novas dores da maturidade, a traição, o recomeço, a renegociação com a vida.

 Talvez seja isso. Aprender a renegociar com a vida, descobrindo que novas portas estão sendo abertas, mesmo que haja a tendência de nos fixarmos em cadeados fechados. O mundo da gente começa a morrer antes da gente, mas o futuro também guarda boas surpresas, e o que se pode chamar de "nosso mundo" não existe só no passado, mas na realidade que construímos diariamente e somente nós podemos lapidar. 

 A gente tem que continuar. Que 2015 traga o reconhecimento de nossos presentes, dádivas reais que permanecem além da morte de nosso mundo ou de um tempo. O que ninguém nos tira: a capacidade de nos recriarmos em qualquer tempo. A alegria de nos percebermos resistindo, apesar de tudo. A satisfação de percebermos nossa coragem. E finalmente, a paz de nos aceitarmos por inteiro.

                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES

 Imagem: Via pinterest, por Edouard Boubat