"Estou nas palavras, mas estou, sobretudo, nas entrelinhas..."

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Pipa e Candinha

 Em seu próximo filme, Gregório Duvivier vai dar nome e sobrenome aos seres que nos habitam. Tão presentes e contraditórios, mandões e passivos, escondidos ou escancarados, o ID e o superego serão representados pela dupla personalidade do personagem. Uma hora ele será o certinho Eduardo (superego); outra, o fanfarrão Duca (o ID).

 Se fosse possível opinar, diria que morro de raiva da engomadinha que vive dentro de mim. Com mãos na cintura e pés impacientes, precisa urgentemente de um botox no centro das têmporas e tratamento fonoaudiológico para o tom de suas cordas vocais.

 Durante muito tempo estremeci diante de seus botões hermeticamente fechados até o queixo e saia plissada abaixo do joelho. Feito garota interna, rigidamente educada por freiras, me comportei impecavelmente sem questionar seu domínio, muito menos ousando perguntar se aquela gola engomada não lhe causava claustrofobia. Claustrofóbica vivia eu, tentado ser livre com dona Cândida _ asseada _ dentro de mim.
 Mas tenho descoberto que dona Cândida não é tão poderosa assim. Se a gente souber levar, acaba percebendo que seus botões afrouxam, sua saia sobe e suas rugas de expressão ficam quase imperceptíveis.

 Dento de mim também vive Pipa, um ser tão livre e leve que sobe pelos ares feito pluma dente de leão que a gente sopra e deixa o vento conduzir.
 Pipa não conhece a tirania de dona Cândida. Ao contrario, acha ela um doce e diz que quem exagera sou eu; 'sua voz nem é tão grave assim'...  Pede para que eu alivie a diplomacia e chame-a pelo apelido carinhoso: Candinha. Por desconhecer a sombra de dona Cândida, Pipa consegue sorrir mais, dormir sem pesadelos e desabrochar seu gozo sem medo de ser feliz.

 Pipa não tenta me governar, quer que eu a descubra sozinha. E é verdade que de vez em quando ela vem à tona _ tão descontraída em sua rasteirinha deslizando pelo chão e seu clássico vestidinho de chita _ que não resisto e tomamos uma cervejinha juntas. Nessas horas, meu riso é mais leve; minhas frases, mais confiáveis; meu sono, mais profundo.

 Pipa divide uma beliche com Dona Asséptica. Mas a saia plissada da dona engomada cobre Pipa por inteiro, e por isso quase não lhe ouço a voz nem sinto sua presença. Mas quando durmo profundamente, ela vem me falar aos ouvidos. É certo que nem sempre lembro no dia seguinte, mas sei que ela me conhece mais do que eu mesma. Me diz que preciso me soltar, desabotoar a gola de dona Cândida e ensinar a ela seu lugar. Explicar que sua hora já passou. Foi bom, me orientou por algum tempo, mas agora preciso de mais Pipa e menos Candinha.

 Devagarzinho tenho tentado mudar as duas de lugar. Colocar dona Cândida pra dormir embaixo e Pipa pra dormir em cima. Não é justo que meu governo seja assim tão rígido. Quero mais Pipa em minha vida, me ensinando a voar, a ouvir mais minha intuição, a correr mais riscos, a viajar com menos bagagem.
 Quero aprender a ser conduzida por meus "nãos" também, pois o caminho da liberdade passa por restrições àquilo que não cabe em nossa nova etapa de vida. Que Pipa me ensine a liberdade dos vestidos florais e tiaras no cabelo, o descompromisso com o que não é necessário nem imprescindível, a autonomia que quero e devo ter em minhas escolhas.
.
 Que as regras de dona Cândida sejam ouvidas na sua medida, me colocando no meu devido lugar sem me roubar de mim. Que ela ganhe fala mansa e contornos suaves, e não franza as sobrancelhas quando eu quiser voar. Que me permita ouvir a voz de Pipa, tão melodiosa e difícil de acessar; que me ajude a encontrar meus desejos e neles me enroscar.

 Dona Cândida já não parece tão felina. Era meu olhar que lhe conferia tanta tirania. Pra falar bem a verdade, tem mesmo cara de Candinha, assim, miudinha e faceira, feito espuletinha.

 A gente cresce e percebe que a casa não era tão grande assim, nós é que a enxergávamos enorme. Assim também percebemos que quem deu a medida para o medo, a angústia e a incapacidade de lidar com a própria liberdade fomos nós mesmos.
 E de repente, num dia qualquer, acordamos e percebemos que já podemos arcar com aquilo que julgávamos maior que nós mesmos.
 Não foram os abismos que diminuíram, mas nós que crescemos.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Todos UM

 Somos frágeis. Cada um à sua maneira, somos frágeis. E mesmo tentando evitar, a fragilidade nos alcança, nos incomoda, nos dói.

 O palhaço tropeça no chapéu diariamente em frente ao meu carro, no cruzamento da Andrade Neves com a Barão de Itapura, duas avenidas aqui de Campinas.
 Por mais que evite o contato visual, ele está lá, diante do meu carro confortavelmente fechado, equilibrando quatro bolas que rodopiam sobre sua cabeça coberta com o chapéu.
 A cena se repete todos os dias, e todos os dias evito olhar-lhe nos olhos. Pela repetição do gesto que virá em seguida _ o chapéu se transformando num porta niqueis_ mas principalmente por me lembrar que sou vulnerável como ele.

 Dou-lhe algumas moedas _ sei que no dia seguinte terei que ter novo repertório de trocados_ mas isso não basta. Preciso olhar-lhe nos olhos, conhecer sua história; descobrir se, caso pudesse rechear seu chapéu com notas mais gordas, conseguiria diminuir o peso de nossas fragilidades _ a dele e a minha.
 Não sei se isso ajudará, mas preciso dedicar-lhe tempo. Lembro então que meus sentidos estão impregnados. A presença dos pacientes do Centro de Saúde onde trabalho permanece comigo alguns minutos após a habitual jornada, e meu vestuário está repleto de cansaço.

 O palhaço me recorda que somos frágeis, quebráveis, que estamos vulneráveis à vida e à morte.
 Por isso é tão difícil encará-lo. A vida já é bastante doída para nos doermos mais. Nossas lascas ficam escondidas, enquanto as dele são expostas feito o chapéu que se adianta antes do show.
 Mais fácil escolher logo as moedas no fundo da carteira que ter que justificar nossa pequenez, nossa incapacidade de encará-lo como igual.

 Somos todos iguais. Iguais ao palhaço de rua, iguais ao menino que o quadro do Fantástico representou tão bem no último domingo.
 "Vai fazer o quê?", perguntava a atração, enquanto um ator mirim abordava as pessoas na calçada com um pedido inusitado: "Tio, me dá um livro?"

 Numa sociedade desconfortável perante o clamor das calçadas, ouvir o pedido do menino é mais que escutá-lo. É perceber que ali não se pede dinheiro, nem comida para matar a fome. Mas educação. Um livro. Um pedaço do seu tempo corrido para subir as escadas da livraria e ler algumas páginas para o garoto analfabeto. Um clamor. Um chamado. Uma necessidade de ser visto além dos trapos e do incômodo que provoca por estar ali. Simplesmente por existir.

 Enquanto muitos nem ouviam o que o menino tinha a dizer, outros entravam na livraria e, além de se oferecerem para comprar o livro, liam para o rapazinho. 
 Me surpreendi comovida do outro lado da tela. Comovida como outros tantos que postavam no twitter a mesma emoção. A emoção de perceber que ainda existem pessoas sensíveis ao sofrimento alheio, pessoas que não têm medo de se fragilizar com a fragilidade do outro, pessoas que arriscam seu próprio desamparo ao encarar com coragem o desamparo do menino.

 Hoje quero encarar o palhaço. Quem sabe trocar algumas palavras antes do sinal abrir.
 Sentir-me quase em carne viva ao abordar suas cicatrizes. Mas não vacilar ao olhá-las de frente, assim como devo fazer com as minhas.
 Quem sabe tocá-las, percebendo que somos feitos do mesmo tecido.
 Percebendo que somos um.
 Cada um de um lado do vidro do carro, mas ainda assim, UM.

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O teatro da existência


 Tenho descoberto que sou grande interessada em física e filosofia. Fã de Marcelo Gleiser, que tive a alegria de conhecer pessoalmente na fila de autógrafos da última FLIP, o livro "A ilha do Conhecimento", de sua autoria, tem me feito companhia nos últimos dias. Ainda não concluí a leitura _ pela mais pura falta de tempo _ mas, como de praxe, o livro encontra-se severamente sublinhado.

 Numa das partes ele diz: "O teatro da existência se dá no cérebro". E apesar da atividade incessante de nossos neurônios, o "cérebro é cego e surdo para informações que não aumentariam as chances de sobrevivência de nossos antepassados".

 Em outro capítulo diz: "A última palavra é sempre da Natureza: ela pouco se importa com nossos sonhos de perfeição ou beleza estética". 

 O que pode ser um imenso alívio quando se trata de expectativas ou necessidade de controle. E pode explicar alguma coisa em se tratando do acaso ou eventos aleatórios que desencadeiam uma grande ocorrência.

 Ao falarmos sobre o teatro da existência, falamos sobre a percepção que temos do mundo ao nosso redor, e o que esse mundo nos oferece ou deixa de oferecer. Como reagimos ao que falta ou sobra em nossas vidas.

 Nosso cérebro capta uma realidade severamente incompleta, e formula sua concepção diante do todo da forma que lhe é mais conveniente para sua auto proteção e preservação.

 Como no filme "A Culpa é das estrelas", há uma quantidade infinita de números entre o zero e o um, e muito mais entre o zero e o dois. Há o 0,1; o 0,12; o 0,112...

 Assim, por mais que enxerguemos somente o zero, o um e o dois, entre eles há uma outra infinidade de números que também ditam as regras de nossa existência _ os percalços e falhas, as vitórias e a boa sorte _ e nem nos damos conta, acostumados a lidar somente com a realidade a que fomos condicionados a experimentar.

 O teatro da existência consiste na forma como lidamos com aquilo que interpretamos como realidade. Porém, a realidade não é só aquilo que nossos sentidos captam; mas algo muito maior, em constante harmonia ou desarmonia com o Universo. Dar sentido a esse teatro cabe a cada um, do jeito que lhe é mais conveniente.
 Porém, nem sempre encenamos as peças que desejamos.
 Tentar 'dançar conforme a música' é buscar, de algum modo, equilibrar nossas vidas. Porém, colidir diretamente com aquilo que não está fluindo é varrer poeira contra o vento. Mais ou menos como escrever e encenar um teatro desgastante e desnecessário; com muito drama, suor e lágrimas pra pouco conteúdo e consistência.

 "O modo como cada pessoa escolhe se relacionar com essa escuridão define _ ao menos de forma geral _ como cada um vê a vida e seus mistérios" escreveu Gleiser.

 As religiões vieram amparar esse medo perante a Natureza, o Universo, a existência. A fé traz esperança, ao segurar-nos pelas mãos e carinhosamente afirmar que existe uma Verdade Final. O teatro da existência ganha sentido quando acreditamos nessa Verdade, capaz de justificar e amparar todo sofrimento e angústia que 'O Existir' traz.

 O teatro da existência ocorre no cérebro. Dessa forma, deveríamos criar espaços internos que nos permitissem ter um recanto de paz, longe de todo barulho que a realidade dos sentidos traz.
 Nunca fiz meditação e me arrisquei pouco na Yoga, mas imagino que criar espaços internos seja como meditar ou orar.

 Como a oração é a única prática que conheço, acredito que é uma forma de estar em sintonia com a Natureza, com a Verdade, com o Todo a que faço parte.

 Aceitar o desconhecido, aquilo que não fomos condicionados a enxergar, é difícil. Segundo as palavras do filósofo Heráclito: "A Natureza ama esconder-se". Assim, a busca por uma conexão com a Verdade é uma busca corajosa, que implica deixar antigas concepções de lado _ romper o vínculo com o conforto _ e arriscar-se numa profunda e dolorosa mudança de perspectiva.

 O Deus que habita em mim e nO qual acredito, é um Deus de Amor. Um Deus que não pune, mas acolhe. Um Deus que não pede sacrifícios, mas aceita o pecador. Se estar em harmonia com esse Deus me coloca em confronto com alguns dogmas que me ensinaram no decorrer da vida, é perante esses dogmas que minha realidade mudou.

 E mais uma vez cito Adélia Prado, a quem Padre Fábio de Melo dedica seu último livro com a seguinte frase: "Para Adélia Prado que, na intimidade de sua casa, confessou-me um desconsolo comovente: 'Esqueceram de nos contar que Deus é amor'".

 Esqueceram de nos contar que Deus é amor, que nós somos e carregamos a partícula divina; que a Verdade acolhe e não segrega; que o Amor abrange, e não distingue.
 Ao compreender a verdade de que ao pecador também é reservado o direito de sentir-se amado por Deus, sinto-me em paz e amparada por tranquila certeza. 

 O teatro de minha existência tem tido desfechos e novos atos cheios de curiosa busca por conhecimento. Meu desassossego tem me trazido paz, por mais paradoxal que isso seja.
 Por me tirar da zona de conforto, da mansidão do que é conhecido, e me lançar numa interação maior com aquilo que não é reconhecido pelos sentidos, mas que verdadeiramente existe e é.
 Por permitir-me abrir compartimentos trancados de intuição e completude ao Todo que nos rege.
 Por modificar a perspectiva que tenho do mundo e das pessoas.
 Por descobrir que falhas nos permitem avançar.
 E finalmente, por constatar que o que importa realmente é aquilo que ainda não sabemos ou estamos impossibilitados de enxergar _ os tais números entre o zero e o um, ou entre o um e o um milhão."O essencial é invisível aos olhos..."

                                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES





sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Carta ao Tempo


 Querido tempo:
 Assim como a letra de Maria Gadú, quero fazer um acordo contigo.
 Nosso vínculo não tem sido o dos melhores, e cansei de ser submetida ao seu domínio. 
 Como já disse anteriormente, não desejo mais corridas em minha vida. E por mais que resista, você me faz correr. Por mais que declare independência, você insiste em me submeter.
 Já não quero mais ser controlada por você. O tempo dos relógios me cansa. E me faz perder tempo _ o velho paradoxo em que a vida dos ponteiros nos faz perder tempo na vida...
 Meu cotidiano foi invadido por compromissos, responsabilidades, horários. Tudo isso faz parte, você dirá, e até posso concordar com você _ é assim que educamos nossas crianças, não é? Desde muito cedo com um relógio no pulso e regras rígidas que compõem o que chamamos rotina.

 Mas se damos a mão, você quer o braço. Por isso sinto-me sugada por você, "senhor tão bonito". Não deveria ser assim.
 As regras não deveriam valer para mães, por exemplo _ mães de meninos que crescem depressa, enquanto cumprimos a aceleração dos ponteiros fora de seus horizontes.
 Também não deveriam valer para almoços de família com netos reunidos em volta de uma mesa barulhenta.
 Quebraria suas regras todo e qualquer pai que trabalhasse fora e só lhe restasse a noite para estar com sua família _ o tempo das estrelas poderia durar muito mais, antes dos pijamas chamarem para o sono...

 O senhor tem me feito uma pessoa diferente daquela que planejei. Tenho andado ansiosa, falando rápido e comendo apressada. Me enervo com o motorista lento à minha frente e peço para meu filho não enrolar diante da tv na hora de ir para a escola. Beijo meu marido sem olhar-lhe nos olhos e fico impaciente com as filosofias de minha mãe ao telefone. Aliás, parei de gostar de telefone por sua culpa ( acho que esse foi um ganho... ou não?). 
 Mas o pior é constatar que poderia andar mais devagar, não fosse o senhor me empurrando pra todo canto. Eu poderia escolher um CD bem bacana pra ouvir no carro enquanto o motorista vagaroso desfila à minha frente; poderia assistir ao Tom & Jerry com meu filho antes da escola e rir ao seu lado descontraidamente. Poderia agradar meu marido com uma presença simples, de semblante apaziguador; poderia conversar com minha mãe sem pressa e até gostar de um telefonemazinho de vez em quando.

 Mas sabe? O senhor está me esgotando. Pensando que é dono de meus caminhos e senhor do meu pulso, me conduz sem negociada compaixão. Porém, minhas pulsações cansaram de seguir o tic tac dos segundos em sua cadência compassada e ritmada. 

 Meu compasso é outro, e mesmo que minhas obrigações determinem certas programações, hoje peço-lhe alforria. Quero a paz dos libertos e a serenidade dos escolhidos.
 Não quero o tempo de Benjamim Zambraia _ da obra de Chico Buarque _ cujo prazo se esgotou no momento em que percebeu que poderia ter se detido 'nos momentos que lhe pertenciam, e que antes não soubera apreciar.' Ou que poderia, tarde demais, 'penetrar em espaços que não conhecera, em tempos que não eram o seu, com o senso de outras pessoas'.

 O tempo é relativo, dirão os físicos. Pra mim tem se tornado escasso onde quero demorar-me. E escolhi demorar-me no cheiro de canela, nas páginas de Phillip Roth, no cafezinho cara a cara com minha mãe, nos lençóis com meu marido, na bola rolando despretenciosa com meu filho. Longe dos relógios burocratas e compromissos agudamente pontuais.

 Por isso peço-lhe tempo. Sim, o tempo dos amantes quando se desentendem. Me dê um tempo. Tenho que repensar nossa relação tumultuada, nosso pouco entendimento, meu receio de tornar-me 'Benjamim Zambraia'.

 Pode ser que daqui a algum tempo eu me reconcilie contigo. Mas no momento presente, a pressa me desafia e não desejo afrontá-la.
 Quero apenas os momentos que me pertencem _ todos eles _ inteiros, sugados até o fim. Sem pulsações apressadas que me indiquem que é hora de partir.
 Quero ser dona de minha hora, senhora de meus minutos, consciente de minhas pausas.
 E aí então, pronta para o desfecho final, olhar satisfeita para a existência projetada do começo ao fim e constatar:
 Fui, vi e vivi. Realizada e feliz.
 Apesar do tempo, nesse tempo:
 Fim.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES   

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A você, que me fez enxergar tudo o que eu poderia ter

 Algumas pessoas nos refletem melhor do que somos. São espelhos em que nossa imagem fica mais serena e brilhante do que realmente é. Através de seus olhos, nossa trajetória ganha contornos inusitados, como tela nua em que os pincéis dançam uma coreografia certeira até formar o significativo desenho. Perto delas, nossas cores se mesclam, e mudam do abstrato para o concreto num instante.

 Seu aniversário chega amanhã; e ontem, durante o jantar, tentei pensar no que lhe escrever. Eu, que fiquei devendo o cartão do Dia dos Namorados, não poderia ser duplamente abstinente. Não de você.

 Você, que há quatorze anos me fez enxergar o que eu poderia ter, e mais ainda, me permitiu descobrir o que havia em mim, além daquilo que eu simplesmente me restringia entender.
 Eu não sabia que poderia querer todas essas coisas que hoje fazem parte de nossas vidas juntos. Não sabia que haveria tanto chão em nossos pés e tantas asas em nossos planos. Que nossas mãos se uniriam mais nas dificuldades que na bonança, mas seriam cúmplices de uma alegria sem beiradas, enquanto enfrentariam os dias mais tempestuosos com uma delicadeza abissal e respeitosa à dor.

 Você, que também trouxe dúvidas, mas soube apaziguar as punições do amor com sua certeira generosidade. Você, que chegou quando a vida começou a doer, e trouxe um recanto para minhas fragilidades, uma enseada para meus devaneios tão inconstantes.

  Durante o jantar, não soube o que lhe escrever. Enquanto os garfos batiam nos pratos e bebíamos nosso vinho de todas as noites, nosso menino não parava de falar. Ele tinha desenhado uma fênix e queria colocar mais detalhes no papel. Eu jantava procurando a imagem na internet enquanto você falava sobre o carnê do INSS. Nossa rotina tão particular, tão nossa, interrompia meus pensamentos enquanto eu deixava o prato mais uma vez para atender ao telefone. Você dizia que eu não devia fazer isso _ "hora do jantar não é para ser interrompida"_ e eu concordava atendendo seu pai do outro lado da linha. Assim vivemos, assim envelhecemos juntos (ia escrever 'crescemos', mas percebi que essa fase de crescimento ficou lá atrás, rs!). Mas crescemos também, em nossas conversas, confissões no meio da noite, piqueniques escondidos no quarto de visitas, dificuldades e tempestades que enfrentamos amparados pelas mesmas mãos que hoje se agitam na torcida por nosso pequeno na natação ou no tênis, nas comemorações da escola ou em nossas vitórias tão particulares _ pequenas aos olhos do mundo, gigantes para nós dois.

 Ao pensar-me parte de nós dois, percebo o quanto nossas vidas se entrelaçaram. E lhe agradeço por ter despertado em mim a melhor definição que aquele esboço poderia tomar.
 Por ter permitido que eu trilhasse um caminho coerente comigo mesma; e principalmente, me ajudado a enxergar tudo o que a vida poderia me dar.

 Feliz Aniversário!
 Com amor,
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES



   

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O parto de um nome


 No site de Eliane Brum (http://desacontecimentos.com/nomes/), surgiu o desafio: "Com o sonho de construir um museu vivo de nomes encarnados, Eliane convida vocês leitores a narrar as histórias de seus nomes e como convivem com eles."
 Como sou fã de Eliane, topei o desafio. E ontem, enquanto aguardava na sala de espera do médico, surgiu o ensaio.
 Gostei de aprofundar em meu nome. Da palavra sinto-me surgir mais forte, agora que minhas letras atingiram sua forma menos rebuscada e mais constante, porém nunca definitiva.
 O texto que se segue é a história que narrei e enviei ao site de Eliane. É o texto que divido agora com vocês, e os convido a fazerem o mesmo. Pois como diz Eliane, "o nome nos precede. E contém, de certo modo, a história que vem antes da gente". Qual é a história com seu nome?

 O parto de um nome:

 Meu nome nasceu no entrelaçamento de mãos de meus pais. Enquanto ainda era sonho, fui gerada em apelido: Dobinha, a filha da Dobi _ apelido carinhoso que o pai deu à mãe.

 Um ano depois, já casados, o sonho tornou-se concreto nas contrações da quadragésima segunda semana de minha mãe; e vim ao mundo Fabíola, nome de princesa convertida, personagem título de um livro que meus pais leram em segredo um do outro, antes de se conhecerem. Por coincidência ou destino, grifaram o nome para usarem quando a hora permitisse. O tempo chegou me trazendo primeira numa família de três irmãos _ única mulher, única com nome de princesa mártir do Cristianismo (o título poderia ter sido um fardo, mas nunca dei importância a isso...)

 Cresci percebendo com certa estranheza que carregava um nome raro, por vezes difícil de ser escrito ou pronunciado. Desde muito cedo me habituei a auxiliar a grafia, do cartório à conta da padaria, repetindo com certo orgulho: "Escreve-se com 'O' e acentua-se o 'Í'..."

 Nunca houve outra Fabíola pra dividir a antecedência através do sobrenome na chamada de classe. Também não encontrei nenhuma nos corredores do trabalho ou academia de ginástica. Vez ou outra esbarro em alguma, mas a ausência de repetições me apazigua. Me traz o conforto de perceber-me única.
 Eu, que demorei tanto para separar-me da Claudete, minha mãe, e gerar-me independente, hoje valorizo cada letra do nome que me definiu tão cedo, mas que tem ganhado contornos mais simples e certeiros só agora, em minha narrativa madura, mais constante e menos consoante.

 Ao primeiro nome somaram-se os sobrenomes, e não diminuí nenhum ao arrematar o ponto final com o Lopes, que herdei da família espanhola de meu marido, há treze anos. Me assumi também Lopes, sem deixar de ser Brito ou Simões. Segundo as palavras de Mia Couto: "família não é coisa que exista em porções. Ou é toda ou não é nada".

 Porém, ao ingressar naquilo que hoje também me define _ escrever_ quis assumir-me apenas Simões. Se escolhi o "Simões" acima do "Brito" ou do "Lopes" foi porque esse lado da família ( herdado de minha mãe) me pareceu o mais artístico, cigano, e talvez o maior responsável por pulsar tanta sensibilidade em minhas veias. Imagino que lá atrás tenhamos sido artistas mambembes, saltimbancos ou donos de picadeiro; não conheço a trajetória e por isso deixo o pensamento voar. Tenho assinado mais Simões desde então.

 E lembro meu avô: O Simões da bengala e pão 'Câmbio Negro'. O Simões da Bíblia aberta e jogos de xadrez. O Simões do caráter inabalável e olhar certeiro. O Simões centenário, da barbearia e dos três casamentos. O Simões que enviuvou três vezes, e gerou minha mãe como a filha derradeira da último união. É esse Simões que trago comigo. O Simões da Dona Conceição, o homem que não comia enquanto todos não estivessem servidos.

 Já não sei contar tantas histórias do Vô ( mais vô que vovô) Simões _ era muito idoso quando me fiz Fabíola_ mas de uma forma que não sei explicar, é o sobrenome que escolhi sustentar, e que hoje me define também.

 Se fui gerada apelido, hoje firmo minha assinatura com mais vogais que consoantes, e gosto da forma redonda que ela toma, menos aguda com o passar do tempo, apesar do acento que teima em se manter no meio da palavra. É assim que quero ser: redonda, sem arestas, com mais consistência e maior consciência de mim. Carregando o legado dos Simões, dos Britos; e por convivência, dos Lopes.
 Assim existo, sendo filha do Jarbas de Brito e Claudete Simões, esposa do Luiz Lopes e mãe do Bernardo, que é Simões, Brito e Lopes, como eu.

 Porém, acima de tudo, sou as letras e acentos que compõem e costuram a narrativa única que escrevo de próprio punho, tentando _em vão _ segurar os vapores do tempo de minha própria existência.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Uma vida sem protocolo

 Há oito anos venho tentando minha redução de carga horária. Trabalhando 36 horas semanais num Centro de Saúde da rede pública de Campinas (atuo como dentista), tento protocolar meu pedido desde que meu filho nasceu. Porém, a solicitação deve seguir um caminho árduo, requerendo assinaturas desde minha chefia imediata, passando pelo Distrito de Saúde até ao secretário_ o último da cadeia geográfica dos postos burocráticos dentro da prefeitura.
 Durante os últimos oito anos, andei com minha solicitação em mãos, de coordenador em coordenador, pedindo gentilmente que assinassem meu pedido. Porém, alegando demanda reprimida no setor, nenhum visto, nenhum passaporte, nenhum carimbo, nenhuma rubricazinha sequer ocorria. Pra piorar, observações escritas em caligrafia tensa denunciavam minha importância imprescindível e irrevogavelmente reduzível.
 Essa semana, porém, uma pessoa próxima ao secretário dispôs-se a me ajudar. Me pediu o número do protocolo. Eu não tinha. Tentei explicar. Ela disse: "Sem número de protocolo, nada feito". Expliquei novamente. Sem chance. Então decidi redigir uma carta. Uma carta sincera, sem protocolo, uma carta direta ao secretário. Você envia? Envio. Obrigada. De nada.

 (Essa não é a carta que enviei, mas poderia ter sido.)

  Prezado Sr Secretário de Saúde:

 Eu não acredito que a profissão de uma pessoa seja a porção mais importante de sua vida. Não, eu nunca pude concordar com isso, e embora tenha aprendido que estudar, fazer uma faculdade e exercer um trabalho com dignidade seja o norte de qualquer vida, ainda assim, não concordo com o peso que alguns cargos ou ofícios possam ter no decorrer dos dias, meses e anos da existência de alguém.

 Busquei uma vida segura. Fui a pessoa mais básica desse planeta; desde os históricos do ensino fundamental até a prova do vestibular para odontologia numa faculdade federal no sul de Minas Gerais. Entrei para as aulas de anatomia e materiais dentários aos dezessete anos e aos vinte e um, já formada, prestei concurso para a prefeitura de Campinas. Passei. Fui designada para um 'postinho' pequeno na periferia, onde cumpria uma jornada comprida, até às dez da noite. Haviam dias em que as luzes dos corredores se apagavam e permaneciam apenas eu, o paciente, e o guarda que fazia a segurança noturna. Não, eu não me queixava. Era o início, e no começo a gente tem aquele gás, aquela vontade de mudar o mundo, de não recusar uma dor, de aceitar tudo o que lhe é posto no caminho. Além do mais, eu só tinha 21 anos, não possuía casa própria, nem marido, muito menos filho. Meu único desejo era ser a melhor profissional possível para aquela população carente. Me especializei aos 22 anos. Aos 23, me candidatei a um cargo como especialista e passei. Fui trabalhar num outro Centro de Saúde, maior e mais desorganizado (sim, des- organizado), próximo ao hospital público da cidade. Também dei tudo de mim. Precisava ser melhor a cada dia naquilo que fazia, e tratar os canais dos dentes da população, impedindo sua perda precoce, era o que me realizava na vida.

 Mas os anos passam, doutor. E embora continuasse me dedicando com afinco à cadeira odontológica, outros interesses vieram se somar à minha vida. Uma vida sem protocolos, mas muito valiosa para mim.

 Para o senhor ter uma pequena noção do tempo que me dedicava ao trabalho em sua prefeitura, quero lhe contar que conheci meu marido nos corredores do Centro de Saúde. Casamos, tivemos um filho.
 Mas sabe, as datas correm, as prioridades mudam.

 Chega uma hora em que é preciso fazer o caminho de volta. E embora eu tenha apenas quarenta anos _ sim, apenas, pois a expectativa de vida aumentou e portanto estou jovem ainda _ já vivi o suficiente para perceber que o quanto antes eu perceber que devo trilhar esse retorno, tanto antes posso me sentir mais realizada e feliz.

 Meus maiores presentes não se encontram dentro de uma carreira profissional, mesmo que isso me dê muita satisfação. Meus maiores presentes estão do lado de fora, em minha casa, no ninho que levei alguns anos de trabalho árduo para construir. É no meu refúgio que vejo meu filho crescer, e me entristeço quando passo o dia todo trabalhando e percebo que só tenho as últimas horas da tarde para usufruir de sua risada barulhenta e mãozinhas carinhosas, que crescem sem noção do desenrolar de minhas horas distante de casa.

 Não doutor, eu não quero uma vida em que o sol fique fora da janela e a voz de meu filho seja ouvida apenas pelo telefone. Quero sentir o vento nos cabelos e conversar olhos nos olhos com meu marido na hora do almoço.
 Eu preciso de uma vida sem protocolos, uma vida em que o respeito a mim mesma e aos que amo venha acima dos ganhos salariais.

 Ganhar menos para mim é ganhar mais, muito mais. Ao estabelecer minhas prioridades, percebo que não posso continuar numa carreira que não me ama como eu aprendi a me amar. Num trabalho que não aceita meus valores como parte do meu ofício também. Não quero me demitir. Gosto do que faço, já lhe disse isso? Gosto dos meus pacientes e da expressão de alívio que eles têm quando a dor vai embora. Gosto de ver a arcada recuperada e o sorriso preenchido outra vez.

 Mas também tenho uma vida fora dos jalecos. E preciso valorizar essa vida que lutei tanto pra construir. Meu pai e minha mãe trabalharam muito, sabia? E meu pai, principalmente, colocava o trabalho acima de tudo. Ele queria que seu pai, meu avô, se orgulhasse dele. Mas não deu certo da maneira que ele pensou que daria. E eu assisti a tudo, doutor. Assisti à glória e à decadência do império que ele construiu. E por isso tento trilhar um caminho diferente. Um caminho onde a família e os afetos vêm em primeiro lugar. Porque no final das contas, de que adianta todo sucesso e dinheiro do mundo se for para brindar sozinho? De que adianta bens e ações sem uma vida para usufruir? Não, doutor. Salário alto não me interessa agora.

 Consegui mais do que pretendia e como disse, é hora de fazer o caminho de volta. Quero caminhar na Lagoa com meu menino, aproveitar o resto do dia no meu quintal, atender aos telefonemas de minha mãe com menos impaciência aos detalhes. Quero deixar meu filho comer em paz sem mandá-lo "andar logo", como tenho feito nos últimos anos.

 Quero mais tempo doutor. Tempo tornou-se artigo raro e preciso daquilo que muita gente chama de supérfluo, mas que pra mim é luxo: ler um livro na rede, conversar com a D. Jandira que trabalha lá em casa, tomar um cafezinho na padaria com minha mãe, ouvir Caetano cantando um dueto lindo com Maria Gadú e me emocionar na parte "Ah... Neguinha... Deixa eu gostar de você..."

 Entende doutor? Ainda não? Não tem problema, eu não o culpo. Muita gente que conheço ainda não entendeu também. Mas é porque a vida ensina de diferentes maneiras, e eu tive a sorte de ter sido espectadora desse tipo de "falta de tempo pra vida" ainda muito menina, como lhe disse. Eles tinham que ir, para provar que eram capazes. E isso tem sua beleza também. Mas o preço é alto, e sorte de quem percebe isso antes do tempo.

 Minha hora chegou. Tenho quarenta anos e não desejo mais corridas em minha vida. A única corrida que anseio é contra o tempo. Aproveitá-lo com quem eu amo e segurá-lo em meus registros de memória é o combustível que me move. Escrever sobre o que vejo também. Por isso doutor, diminua o peso em minhas mãos envolvidas em luvas de borracha. Me permita reduzir o tempo nos jalecos e aumentar a poeira em meus cabelos. Que minha existência seja inundada por milagres cotidianos, aqueles que só os que têm uma vida sem protocolos são capazes de enxergar.
 Com meus sinceros agradecimentos,
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES


Imagem do post: Phoebe Wahl