"Ninguém é forte sozinho"



 Ontem fui ao cinema assistir ao ótimo "O quarto de Jack" (Room) e saí de lá comovida e com a certeza de que ninguém é forte sozinho. O filme, indicado ao Oscar 2016, conta a história de Joy (Brie Larson) e Jack (Jacob Tremblay), presos em um quarto no quintal de um homem que sequestrou Joy durante a adolescência. Jack é o filho que Joy teve com o sequestrador, e nasceu no cativeiro.
 Ao contrário do que se possa imaginar, o filme não é um suspense cheio de ação e terror, e sim um drama que nos revela a inocência de Jack e a força de Joy. Um filme sensível e delicado, que nos surpreende nos detalhes.

 Jack tem os cabelos longos, e diz que os cabelos são sua força. Porém, ao se deparar com Joy fragilizada, pede que seus cabelos sejam cortados e entregues à mãe, para que ela se fortaleça. E diz: "Nós todos ajudamos uns aos outros a permanecer fortes. Ninguém é forte sozinho". A frase, assim como todo o filme, me fez refletir. Porque sem o filho, talvez a mãe não tivesse a garra que teve para escapar do cativeiro. E por causa de tantas pessoas, presentes ou não, nos esforçamos para resistir todos os dias da melhor maneira que conseguimos.

 Você está batalhando por um mestrado. Entre livros, traduções e pesquisas pensa em desistir. Mas então se lembra de sua mãe, há tanto tempo distante, como ela queria estar viva para ver você concretizando esse sonho... por ela você se esforça e consegue. Descobre, mesmo sozinho, que é mais forte com a lembrança dela.
 Você está cansada do trabalho. Os prazos apertados, a rotina desgastante... mas de repente se lembra do filho pequeno. A escola que ele frequenta, as comemorações no aniversário, as viagens no fim do ano... por ele, você descobre que pode transformar o cansaço em algo produtivo, e descobre o quanto é forte ao recordar seu abraço.
 A jovem mãe na cama do hospital. Transitando entre a vida e a morte, tem um sonho com seus filhos e luta pra sobreviver. Tem um progresso surpreendente e os médicos se perguntam: o que teria contribuído para essa melhora tão rápida?
 Nando Parrado, um dos sobreviventes da tragédia nos Andes. Tendo de lutar pela vida em condições extremas, conta em seu célebre livro "Milagre nos Andes", que o que deu forças para ele continuar forte foi a lembrança de seu pai. Já havia perdido a mãe no acidente, não queria que o pai tivesse que lidar com mais uma perda. Então fez-se forte, e ao invocar a lembrança do pai, dava mais um passo.

 Ninguém é forte sozinho. Por mais que desejemos ser donos e senhores de nossas vidas, é o olhar ou a lembrança do outro que nos fortalece para persistir e continuar. Ao invocar essa lembrança, aprendemos a reconhecer nossa identidade também. Pois desde muito cedo aprendemos a decifrar quem somos pelos olhos de nossos pais ou de quem nos criou. É esse primeiro olhar que nos ajuda ou atrapalha vida afora, aumentando, diminuindo ou dando real perspectiva a quem somos de fato. Da mesma forma, descobrimos que nossa força não é só nossa. Ela é impulsionada por outros mundos, que se cruzam ao nosso, mas ainda assim outros mundos.
 E ainda que não se ache quem pode ser nossa força nesta vida, sempre haverá Deus e nossa forma de falar com Ele, descobrindo que a oração é uma força poderosa.

 Então vem um filme e revela, na voz do menino de 5 anos, que todos dependemos uns dos outros. De uma forma delicada, nos mostra que, embora haja uma corrida pela autossuficiência, é ajudando-nos mutuamente que podemos ser mais fortes.

 Mesmo que não haja gestos concretos como o de Jack, que corta seus cabelos para fortalecer a mãe, podemos reconhecer quem nos fortalece vida afora: nossos pais, filhos, amigos, amantes, companheiros, colegas de trabalho e até pessoas que já se foram. Cientes ou não, essas pessoas nos impulsionam a prosseguir da melhor forma possível e, acima de tudo, não permitem que haja dúvida ou desistência. Por elas somos mais fortes, e descobrimos que ninguém é forte _ ou feliz_ sozinho...

                                                                                FABÍOLA SIMÕES

 











   

Pessoas que nos emocionam


 Outro dia, assistindo ao programa "Mais você", ouvi Cissa Guimarães dizer que o amigo André Marques a emocionava. Mais que um elogio sincero, aquelas palavras traduziam muito do que sinto em relação a algumas pessoas. Certamente você conhece pessoas assim. Gente que nos emociona com sua história, seus gestos e suas palavras.

 Pensei na lista de pessoas que me emocionam, e no porquê delas despertarem essa emoção em mim. Poderia citar Jesus Cristo, Gandhi e Mandela, mas falo de gente comum, gente que cruza nosso caminho todos os dias e nos ensina a ter olhos de poesia só de olhar para elas. Ana Jácomo disse que essas pessoas têm cheiro de colo de Deus, e acho que é isso mesmo. Talvez sejam almas que nos abraçam com sua presença, amansando nosso desconforto rotineiro e nos convidando a ser quem somos de fato, longe dos papéis que assumimos, falando sobre aquilo que cremos de verdade e vivendo de acordo com o que temos fé.

 Tem gente que nos comove à primeira lembrança. Perto delas nossa fala encontra reciprocidade, e a gente se abre sem reservas sem mesmo entender porque. Ao lado delas nossa dúvida encontra alívio e nosso medo perde abrigo.

 Tem gente que nos dá saudade, e a saudade é a emoção da falta que aquela pessoa faz. A lembrança de suas mãos quentes nos segurando nos dá a certeza de que em algum lugar alguém se importa de verdade, e só isso já é um alento, seja em que circunstância for.

 Algumas pessoas cruzam nosso caminho e estabelecem uma ligação forte desde o primeiro instante. Dizem que "os santos batem", e perto delas nosso riso é mais solto e o choro não tem receio de brotar. Com elas o assunto não falta, e a vontade de estar junto supera os obstáculos de tempo e lugar. Perto delas somos mais autênticos, e a vida ganha coerência e lucidez.

 Tem gente que aparece em nossa vida feito passarinho cantando de manhã. Sabem que podem se aproximar e não têm receio de que irão incomodar.

 Tem gente que pode silenciar ao nosso lado sem que haja estranhamento ou acanhamento. Perto delas o silêncio é consentido e bem vindo, e entendemos que a alma também precisa de trégua, descanso e mansidão.

 Pessoas que nos emocionam carregam histórias bonitas dentro delas. Sabem valorizar cada momento presente com leveza e sabedoria porque já superaram obstáculos e saíram vencedoras. Nos animam com sua força e servem de inspiração e motivação.

 Perto delas a gente se sente ouvindo "A casa é sua" do Arnaldo Antunes no volume mais alto, e entende a letra que diz: "até o teto tá de ponta cabeça porque você demora..."

 Tem gente que nos transmite paz sem que nenhuma palavra seja dita. Silenciam nossa alma com cuidado e plantam sementes de otimismo em nosso caminho.

 Desejo que você encontre pelo menos uma pessoa assim. Alguém que lhe tire do lugar comum e lhe comova de um jeito especial. Que ao pensar nela, seu coração sorria e sua alma sinta estar sendo acariciada.
 E que você possa ser essa pessoa também. Que em algum lugar, em algum momento, alguém pense em você e sinta que está se emocionando de verdade...

                                                                                        FABÍOLA SIMÕES

*Imagem: Platon Yurich  

"Nem tudo que reluz é ouro"


 O carnaval passou, mas chegando à quarta feira de cinzas, meu menino ainda tinha as mãos tingidas de purpurina dourada por ter encostado num carro alegórico. "Parece ouro!" dizia, enquanto esfregava as mãos debaixo da pia. Com isso me lembrei da expressão: "Nem tudo que reluz é ouro", e seu significado: nem tudo o que parece ser, realmente é.

 Nem todas as previsões meteorológicas dão certo, do mesmo modo que pequenos arbustos crescem por entre calçadas de cimento, desafiando as leis da agricultura e mostrando que podem resistir apesar das intempéries do solo, nos lembrando que nem sempre o solo seco é o solo infértil.

 Nem tudo o que parece ser, realmente é, e até que se prove o contrário você tem grandes chances de ser feliz seguindo aquela sua intuição que diz para ir por este caminho ao invés daquele que todo mundo está tomando. Pode dar certo mesmo contrariando a maioria, mesmo destoando do caminho pintado de ouro, mesmo desafiando as regras da coerência e do bom senso.

 Nem tudo que reluz é ouro, e basear o que é certo pra você no que é certo para o seu vizinho ou para aquela menina popular do Instagram não faz sentido, justamente porque não há garantias de que qualquer vida pode ser melhor seguindo esta ou aquela cartilha.

 Nem todo carnaval foi melhor que o seu, e mesmo que haja mais purpurina na rede social daquele seu amigo descolado, isso não significa que ele encontrou mais alegria na sua alegoria do que você.

 Possibilidades existem pra todos, e não dá para julgar um livro somente pela capa, nem gostar mais de um vestido só porque ele custa mais caro. E antes que eu me esqueça, é bom lembrar algumas verdades: nem todo cabelo liso é fácil de lidar, nem todo gordinho é feliz, e cada pessoa enfrenta suas próprias batalhas diárias.

 Mesmo que não pareça, cada dia é um novo desafio para qualquer um, e você não pode olhar para os lados e viver de suposições. Muito daquilo que é considerado impossível pode ser contrariado, e se a gente não tentar _ nem que seja para provar a si mesmo que não tem medo de ser feliz _ a gente não descobre que poderia ter dado certo. Nem tudo que reluz é ouro, e nem tudo que parece impossível realmente é.

 Então se hoje você tem a possibilidade de tentar algo novo mas tem muito medo também, lembre-se que você pode estar se julgando muito menor do que realmente é. Tente, enfrente, desafie-se. A maioria das pessoas que consegue brilhar feito ouro arriscou perder o medo de tentar.

 Brilhe você também!


                                                                                                        FABÍOLA SIMÕES

Imagem: Via Tumblr

   

Certezas


 Estou adorando o livro "Nós", de David Nicholls. O romance é leve e divertido, e já no começo nos compadecemos de Douglas Petersen, o personagem principal, que uma noite é acordado pela esposa e se depara com um pedido de divórcio repentino. Era só mais uma madrugada, uma madrugada comum, e no entanto ele agora tinha que lidar com aquilo que não esperava.

 A gente só cresce quando a vida desafia algumas de nossas certezas. A vida linear, do jeitinho que a gente planejou, seguindo o script de nossos anseios e vontades, não nos tira do chão nem exige ousadia de parte alguma. Mas o susto... O susto nos arranca de nossas poltronas e nos faz ser mais fortes do que pensamos. O susto nos impulsiona a agir mesmo quando nos moldamos à comodidade de nossa rotina, e nos estimula a seguir adiante desembaraçando os nós e costurando novos arranjos.

 Você pensa que está no controle de tudo. Faz exames, tem uma aplicação segura no banco, usa fio dental regularmente, carrega o guarda chuva no porta luvas do carro, está em dia com o plano de aposentadoria. Mas seu excesso de zelo não o protege da porção da vida que está aí para lhe surpreender. Para provar que mesmo tentando controlar tudo, você não tem controle sobre nada. Para ensinar que você tem que aprender a andar com menos segurança, habituando-se a dizer: "Simplifica!" pros prazos apertados e pras urgências desnecessárias.

 Na vida temos certeza sobre quase nada. O que existem são zonas de conforto onde nos cercamos daquilo que parece certo até aquele momento. Mas nada nem ninguém é definitivo. Tudo muda a todo instante, e por isso torna-se fundamental resguardar-se com leveza, dando real valor ao momento presente.

 Nem tudo é caos; reviravoltas fazem parte do plano para nosso crescimento. Nem tudo é difícil; as mudanças podem ser encaradas como desafios. Nem tudo é tormenta; alguns sustos nos levam para um lugar melhor.

 O que é certo é o presente. Só neste lugar e neste momento somos quem somos de fato, e temos o que temos ao nosso alcance. O resto, são só suposições. Se aquele caso antigo vai voltar ou não, se o curso de verão será bom ou não, se o amor presente vai durar ou não... não há certeza que possa perpetuar o que desejamos, pois a vida, por si só, é uma aventura em constante mutação, e carrega muito mais reticências que pontos finais; muito mais linhas a escrever que folhas gastas pelo tempo; muito mais viradas de página que finalizações de capítulos...

                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

*Imagem: Tumblr





  

Um norte


 No último fim de semana assisti ao filme "Um senhor estagiário" ("The intern") com a turma lá de casa. Logo no início, Ben, o personagem vivido por Robert de Niro, diz:
"Freud disse: "Amar e trabalhar, trabalhar e amar. É só o que existe". Bem, eu sou aposentado e minha esposa morreu. Como devem imaginar, tenho tempo de sobra. Minha esposa faleceu há três anos e meio. Sinto muita falta dela. E a aposentadoria é um esforço contínuo e implacável de criatividade..."

 O resto não vou contar, só digo que o filme é bem divertido e me fez pensar na vida como uma sequência de eventos que devemos usufruir da melhor forma possível. Como disse Ben, "um esforço contínuo e implacável de criatividade." Pois, ao contrário do que cantou Zeca Pagodinho, nem sempre é válido "deixar a vida me levar". Há que se ter criatividade e jogo de cintura pra não esmorecer nos momentos em que nos falta um rumo a seguir.

 Como você passa o seu dia? Trabalha, leva os filhos para a escola? Estuda de dia, namora de noite? Cuida dos netos, cultiva um jardim? Faz ginástica, encontra os amigos? Estuda, trabalha, pratica yôga e cozinha? Tem tempo demais, tem tempo de menos? De qualquer forma, estabelecer um norte torna-se primordial para se viver bem. Ter objetivos, ter pra onde ir, ter o que fazer, descobrir o que te faz feliz, descobrir o que te realiza e completa... tudo isso faz parte do pacote que é brincar de viver, e deve ser cultivado constantemente.

 Ter um norte é descobrir as coisas que alimentam sua alma, os gostos que renovam seu espírito, as atividades que lhe dão prazer, as músicas que lhe comovem mais. Não necessita de especialização nem perfeição, só vontade de estar inteiro naquilo que lhe completa. Não precisa de carteira assinada, muito menos livro ponto. Ter um norte tem mais a ver com os assuntos do coração do que da obrigação, e depende mais da vontade que da necessidade.

 Essa reflexão me trouxe de volta uma sessão de terapia em que minha terapeuta me perguntou o que eu mais gostava de fazer. Eu respondi que era cuidar do meu filho. Ela insistiu, tinha que ser algo direcionado a mim, não a outra pessoa ("os filhos crescem..." _ ela disse). Foi então que me lembrei que gostava de escrever e, bingo! descobri que podia começar um blog.

 Então o que eu quero dizer é que você tem que descobrir o que te realiza e faz você querer abrir os olhos pela manhã todos os dias. O que faz você sorrir para o espelho do banheiro mesmo que a saudade esteja doendo em seu peito. O que lhe comove ao ponto de lhe tornar criativo para resistir e querer ser melhor do que já foi. O que alimenta seu espírito quando o cansaço lhe tira as forças, e faz seus olhos brilharem à primeira lembrança do que você pode fazer com seus dons.

 Ter um norte é descobrir em si mesmo o que lhe completa, e não buscar nos outros o seu sentido para viver. É encontrar dons escondidos e alimentá-los com vontade e determinação. É esforçar-se para sair da acomodação e seguir por uma estrada íngreme, que leva a um lugar melhor. É ir à luta para encontrar sentido nas pequenas coisas, nos pequenos gestos, nas diminutas possibilidades.

 Ben, o personagem que citei, é um senhor empenhado. Aos setenta anos, já tentou de tudo: viajou, jogou golfe, leu, foi ao cinema, fez yôga, aprendeu a cozinhar, comprou plantas, estudou Mandarim. Ainda assim, precisava de um sentido maior para seus dias. Se ele encontrou? A gente torce que sim!

 Quanto a nós, só podemos seguir feito Ben, em busca de sentido. De algo que venha sanar esse vazio existencial que todos possuímos, e que de vez em quando dá as caras de um jeito maior do que gostaríamos. Que haja serenidade para esperarmos o tempo das descobertas. Que haja lucidez para assumirmos o papel que nos cabe em nossa própria vida. E que não nos falte ânimo, pois é ele que nos impulsiona a viver melhor todos os dias.

                                                                                             FABÍOLA SIMÕES
   









  

  


  





You've Lost That Loving Feeling‏

Mais um texto do meu amigo e colaborador Djalma Alt Faria Neto:


"Eu consigo viver muito bem sem você
Claro que consigoExceto quando chuvas suaves caem das folhas, aí eu me lembroDa felicidade de ser abrigado em seu abraço Com certeza eu me lembro,Mas eu sigo muito bem sem você.
Eu me esqueci de você, assim como deveriaÉ claro que me esqueciExceto quando escuto seu nomeOu a risada de alguém que é igual a suaMas eu me esqueci de você assim como eu deveria..."
 Essa música (I Get Along Without You Very Well) cantada por Frank Sinatra, Nina Simone e Renato Russo, traduz muito bem esse sentimento que nos faz lembrar de alguém. Nela, o cara insiste em dizer que se esqueceu daquela pessoa, que consegue levar sua vida na boa e só se lembra dela em alguns momentos: quando acorda, quando dorme, quando escova os dentes, quando chove, deita, tira uma soneca, vê alguém parecido, assiste um filme, visita um determinado lugar, corre na rua, passeia de bicicleta, enfim...
 É claro, você já deve ter ouvido falar que não existe em todas as línguas, nenhuma palavra que explique o real significado da palavra portuguesa SAUDADE.
 Na verdade, saudade pode ser explicada como um sentimento difícil de definir, mas fácil de entender.
Ela pode estar escancarada em qualquer pessoa _ estampada naquele sorriso ou escondida por trás de tanta tristeza.

 Ter saudade é como participar de uma realidade invisível: você tem as possibilidades de usar tudo a seu favor, de levar adiante sua vida sem pestanejar em qualquer momento _ mas quando se lembra daquele lugar legal que nunca mais voltou, ou daquela pessoa que está tão longe, você pára nem que seja por um segundo para dar aquele suspiro...

 Saudade sente quem tem fome, tristeza, amor ou insônia. Quem tem boas histórias pra contar _ quem já sorriu muito, correu muito, se divertiu muito, sofreu muito ou amou muito!  Saudade sente quem um dia parou e percebeu que ficar olhando pra trás não é o melhor negócio e então repetiu baixinho: Eu me quero de volta! 
 Porque saudade também é você saber cuidar de si mesmo, vibrando uma energia diferente para atrair coisas boas, olhando sempre pra dentro e vivenciando tudo com um novo olhar. Saudade é, muitas vezes, querer e ter a possibilidade de ficar sozinho.

 Tem saudade quem já usou Kichute, Maria Chiquinha, tomou Fanta Uva, assistiu desenho animado, andou de patins, comeu chocolates Surpresa, bala de leite Kids, lanches Mirabel, cigarrinhos de chocolate Pan, chupou pirulito Dipn Lik, comprou um suspiro só pra ganhar um relógio de brinde ou fez castelos de areia quando foi passear com a família na praia.

 Tem saudade quem sabe que as melhores coisas da vida são as mais simples e então encheu seu pendrive de músicas legais para ouvir no carro, usou aquele monte de moedas pra tomar um espresso na padoca da esquina, parou na estrada para fotografar aquele pôr-do-sol alaranjado que cegava sua visão no caminho de volta pra casa, encarou o dia com sorriso enorme no rosto mesmo sabendo que o horóscopo daquela manhã dizia que  a Lua transitaria pela Casa 5, enquanto o Sol se encontraria na Casa 12, - o que não seria bom porque sua sensibilidade estaria muito aflorada, o que poderia provocar reações exacerbadas sem nenhum embasamento racional.

 Tem saudade quem se lembra de alguém na melhor parte da música, naquele pedaço que você gosta mais. Então você sorri enquanto canta junto “estranho seria se eu não me apaixonasse por você”. Porque músicas sempre lembram momentos, que te levam pra algum lugar, que te dão saudade.

 Tem saudade quem já se olhou no espelho e não ficou contente com o que viu  e então traçou planos de cortar o cabelo, ir ao dermatologista, frequentar a academia, comprar uma calça nova, experimentar o novo perfume que viu na revista.
 Mas é também ter o direito e a possibilidade de se entristecer quando alguma coisa passa a incomodar, quando parece que o mundo joga contra, quando você fica sem lugar, quando o jogo parece estar totalmente perdido. Saudade de um carinho, de um sorriso compreensível, de um olhar de cumplicidade, de ficar preso para sempre naquele abraço que era tão bom! 

 Tem saudade quem ouve a pessoa falar que vai te amar pra sempre mas mesmo assim quer ir embora da sua vida _ e você então percebe que, por mais que ela insista em te provar que você é super importante, aquele amor se transformou em carinho. E ainda que você não queira essa situação porque ainda ama e ficar sem ela pode parecer desesperador em um primeiro momento, você fica tranquilo porque sabe que fez tudo o que podia, que colocou todas as suas cartas na mesa, que de repente, as coisas realmente não precisam ter sentido algum - pelo menos uma vez na vida. 

 Tem saudade quem retornou àquele lugar que foi palco de encontro de uma época bem feliz mas que, por algum motivo, passou. Você olha para a mesa ali no canto e se vê, alguns anos mais novo, esperando pela companhia que estava por vir, enquanto a história toda passava pela sua cabeça: o primeiro encontro (aquele), o olhar fixo na tela do celular esperando pela mensagem de "Estou chegando Rosto mandando beijoRosto sorridente com olhos em forma de coração", o primeiro café, o barzinho que veio logo a seguir, as viagens com fotos na praia, na rua, na chuva ou na fazenda! E tudo se desenvolveu assim: como  as músicas menos conhecidas de um disco que bombou, os famosos Lados B, aquelas canções poucos conhecidas mas não menos importantes, exatamente as suas preferidas.

 Olha, saudade traduz você, seus gestos, sua maneira de falar, andar e sorrir! 
 Saudade traduz você que está tão longe e ao mesmo tempo tão perto. E bate tão forte como naquele refrão, dessa vez de outra música: “E eu nem sabia, como era feliz de ter você"

                                                                                           DJALMA ALT FARIA NETO