"Estou nas palavras, mas estou, sobretudo, nas entrelinhas..."

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Efeito Borboleta

 Tem vida que a gente escolhe, e tem vida que escolhe a gente.
 Qualquer um já deve ter reparado nisso. De vez em quando pequenas mudanças no curso de um dia, ou minúsculas alterações no trajeto da rotina podem desencadear uma sequência de eventos que modificam tudo, como se a vida tivesse seu próprio roteiro, e você estivesse sendo empurrado por ventos fortes numa direção, escolhido para viver alguma situação.

 Ainda não terminei a leitura do livro "O andar do bêbado", de Leonard Mlodinow, mas corri as páginas, ansiosa por entender como o acaso determina nossas vidas. E me deparei com o chamado "Efeito Borboleta", assim denominado pela física, que determina o impacto dos eventos aleatórios em nossas vidas. Eventos aparentemente inconsequentes que levam a grandes mudanças. O que se descobriu foi que "ínfimas alterações atmosféricas, como as causadas pelo bater das asas de uma borboleta, poderiam ter um grande efeito nos subsequentes padrões atmosféricos globais. Essa noção pode parecer absurda _ é equivalente à idéia de que a xícara de café que você tomou de manhã poderia levar a alterações profundas em sua vida. No entanto, isso é efetivamente o que acontece _ por exemplo, se o tempo gasto tomando a bebida fizer com que você cruze o caminho de sua futura mulher na estação de metrô, ou evitar que você seja atropelado por um carro que atravessou um sinal vermelho." (extraído do livro "O andar do bêbado).

 Assim, tem coisas que a gente não procura, elas nos acham. E nos surpreendem distraídos, em momentos de pouca expectativa e muita abertura ao acaso.

 Foi por acaso que minha casa me achou. Por acaso que me perdi numa rua, três anos antes de morar na dita cuja, voltando do shopping num trajeto conhecido. Por que me perdi? Não sei, assim como não sei explicar que impulso me fez pedir transferência do emprego e esbarrar com meu futuro marido nos corredores do posto de saúde pra onde fui transferida.
 O fato é que me perder numa rua num dia comum me levou a ler a placa "vende-se" num condomínio cujos cômodos estavam distantes de um dia fazerem parte da minha vida; mas três anos depois, desejando me mudar pra uma casa, lembrei-me do fato: eu perdida, indo pedir informações, aproveitando a pausa para conhecer a casa à venda, sem imaginar que aquelas paredes estavam me escolhendo muito mais do que eu a elas.
Hoje, morando nessa casa, quando penso na história, vem a ideia de que se não saísse aquele dia para comprar um vestido para o casamento do meu irmão, se não me perdesse na volta, se não decidisse estacionar o carro e entrar no condomínio, talvez estivesse morando em outro lugar neste momento. Em qualquer outro lugar que não seria tão perfeito em mim quanto a casa que me escolheu. A casa cujas escadas subi, sem me dar conta que repetiria aquela ação muitas e muitas outras vezes, com tanta gratidão.

 São movimentos mínimos, como o bater das asas de uma borboleta, que determinam os desfechos de nossas vidas. E na maioria das vezes, não percebemos. Desintegrados da matéria invisível que é feita nossa existência, pensamos calcular nossas ações esperando resultados coerentes, o que nem sempre ocorre. E não ocorre porque muitos outros eventos _ mínimos _ estão se somando ao nosso redor o tempo todo, e são esses eventos mínimos, como o tempo transcorrido entre uma xícara de café e outra, que determinarão grandes rumos. O que quero dizer é que esbarrar no grande amor tem muito mais chances de ocorrer quando você pega um engarrafamento na volta do trabalho, desvia o caminho por uma rua totalmente nova e decide tomar um café numa padaria no meio do trajeto pra aliviar o stress; do que quando contabiliza momentos, chega em casa na hora certa e se arruma toda (com cílios postiços e lingerie nova), esperando e torcendo para que o barzinho da moda lhe traga o grande amor.
 Querer engravidar do marido, numa lua de mel programada de acordo com o período fértil e novena pra Santa Rita segue a mesma cartilha, quem nunca ouviu falar?
 O fulano que sumiu da sua vida, as frases que você espera dizer quando ele se arrepender, a decisão de bater a porta na cara do bendito... sabe quando ele se arrependerá? Tem ideia?
 A casa dos sonhos, o terreno pra construção, o ponto para o negócio... podem estar numa rua desconhecida, distante e aparentemente inatingível, mas se tiver que ser seu, o acaso lhe levará até lá.

 De vez em quando é necessário deixar nossos rumos ao sabor do vento. Estar preparados sim, reconhecer as dádivas, também. Mas como os "lírios do campo", entender que na maioria das vezes, a vida não dança ao sabor único de nossas intenções, e desejar não é o bastante para que a vida que escolhemos escolha a gente também.

 Sendo assim, é impossível conhecermos ou controlarmos precisamente as circunstâncias de nossas vidas.  Assim como o bater das asas da borboleta, pequenas diferenças levam a alterações imensas no resultado. E no que diz respeito a nossas conquistas particulares _ empregos, amigos, amores ou finanças_ todos devemos muito mais ao acaso do que somos capazes de perceber.

 No fundo, a vida é incerta. E essa incerteza é o que dá sentido também, pois se fôssemos capazes de prever e controlar tudo, que graça haveria? Que possamos dar asas à intuição, pois essa sim, ainda que imprecisa, pode nos dar rumos muito além daqueles que supomos determinar ou controlar.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES









sexta-feira, 11 de julho de 2014

O que nossos olhos quiseram enxergar

 Tem um texto de Lya Luft que gosto muito intitulado "Pensar é transgredir". Num dado momento ela diz:
 "O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada."

 O que gosto nessa frase é a constatação de que nosso olhar confere identidade, constrói enredos, atribui sentimentos, projeta desejos, anula frustrações e elabora desfechos conforme suas próprias necessidades _ nem sempre legítimas_ mas que dão algum sentido dentro dos limites que podemos suportar.

 Terça feira, o jogo entre Brasil e Alemanha terminou na maior derrota do futebol brasileiro. As crianças, mais confiantes, sofreram na proporção de seus sonhos. Como tenho repetido em dois posts seguidos, mais uma vez meu menino chorou. Chorou como outros milhões de meninos que confiaram na seleção de braços abertos e coração disponível. Talvez, mais do que isso, enxergaram na seleção a materialização de suas expectativas, vontades, sonhos, alegrias. E é esse olhar, mais do que a realidade, que se evaporou. É esse olhar, que conferia tanta identidade àqueles garotos-jogadores, que deixou de existir.

 Porque como dizem por aí, as coisas não são como são, e sim como as vemos. E assim, cada criança imaginou estar diante de uma seleção campeã, e projetou essa visão imatura sobre aqueles jogadores talentosos, mas despreparados taticamente.
 Se compramos a ideia de que eram fenômenos futebolísticos, acreditamos nessa ideia porque era o que nossos olhos precisavam acreditar. Portanto, quem traiu esse olhar fomos nós mesmos. Nós e nossas expectativas irreais, nós e nossos desejos de ver a seleção _ ainda que despreparada _ campeã.

 E é assim também que projetamos em nossas relações aquilo que nossos olhos querem ou conseguem ver. E quando algo não sai conforme o nosso combinado (combinado com aquilo que criamos, imaginamos, esperamos, desejamos), inicialmente é mais fácil acusar _ como fazemos com a seleção_ e só depois, devagar, absorver nossos lutos até a possível aceitação (quem sabe com humor, como tem feito o brasileiro, ao transformar a complexidade de seus sentimentos contraditórios em riso e criatividade _ um banquete nas redes sociais!).

 A verdade é que muitas vezes não conseguimos enxergar os sinais. Talvez enxerguemos, mas preferimos ver a vida por filtros_ que nós mesmos acrescentamos_ do que encarar as dificuldades, desistências, turbulências e desilusões; numa tentativa de preservar nossa jornada dos tropeços e incompletudes, inerentes a qualquer percurso.

 Os sinais sempre estiveram lá, mas preferimos ignorar, pois não faziam parte do script. Do script que nós mesmos escrevíamos e incluíamos quem não pediu para ser incluído. Quem não queria sequer fazer figuração na nossa história. E agora a gente acha que o roteiro foi bagunçado por culpa da seleção, por culpa da Dilma, por causa do Fred, por causa do fulano que nos abandonou, da beltrana que não quer o nosso perdão... até do viaduto que caiu e do SUS que a gente nunca frequentou.
 Ou você se esquece que esses jogadores que hoje são um fracasso, até ontem eram gigantes para você? Será que as pessoas mudam, "a Copa foi vendida"blá blá blá... ou somos nós que passamos a enxergar a realidade sem as lentes de aumento?

 Claro, é bem mais confortável dizer que foi a realidade que mudou, não nós. Mas quer saber? Chega uma hora em que nossos olhos se habituam com a claridade, com os flashes que revelam bem mais do que gostaríamos... E mesmo que a vontade seja a de voltar para dentro da caverna, para nossos velhos paradigmas que nos serviam tão bem como antigos pijamas conhecidos, já não há mais volta; e a gente sabe disso. Por isso é tão sofrido.

 Mas faz parte do crescimento. E não há que se falar em traumas. Não há nada de traumático em nossas crianças que choram a derrota da seleção. Elas estão simplesmente aprendendo a lidar com a quebra de contratos. Contratos que cada um sela por sua própria conta consigo mesmo. Quando esses contratos falham, faz parte também. E crescemos um tanto também. Pois percebemos que nossos olhos quiseram enxergar algo que não havia lá. Ao constatar que demos importância demais àquilo que não merecia tanto, vivemos um luto. Mas como tudo, ele também chega ao fim.

 Finalmente percebemos que apesar do brilho ter diminuído, nosso olhar ainda é capaz de acreditar novamente; mas certamente com novas programações, como a frase de Lya Luft: "Viver é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada."  

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES












sábado, 5 de julho de 2014

Quando um craque se quebra

 Ontem o jogo terminou com comemoração e incerteza. Ainda não sabíamos o que significava a dor de Neymar, e enquanto torcíamos por uma contusão ou luxação, os exames revelavam uma fratura de vértebra lombar.

 Assistimos ao jogo na casa do meu primo, e já de volta pra casa, acompanhando as notícias pelo JN, o quadro grave foi confirmado pela voz embargada de Galvão Bueno. Meu menino veio me abraçar e sem soltar os braços do meu pescoço, mais uma vez nessa copa, chorou.

 Não era só Neymar que quebrava. Ali percebi que junto com o craque, muitos outros brasileiros, meninos ou não, quebravam também. A fratura de Neymar ressoava em cada casa, em cada torcedor que até aqui acreditou no garoto que se tornou, assim como Pelé, o rei da geração a que pertence meu filho, oito anos de muita fé, esperança e inspiração. Os meninos não só admiram Neymar, eles querer ser Neymar _ basta ver as poses, cortes de cabelo, ginga e determinação . E assim como Neymar, toda uma geração sente a dor da despedida. A despedida do craque, que felizmente ainda terá outras Copas pela frente, mas que pra sempre deixará as marcas de ter sido punido pelas costas.

 Os meninos choram por Neymar como se eles próprios tivessem sido feridos. E de certa forma foram. De certa forma é assim que estão aprendendo que até mesmo Neymar, o rei, se quebra. E que é preciso se conformar com as pausas, com a frustração de não continuar uma Copa, com as demoras que a vida impõe _ pra qualquer um.

 Torcemos pela recuperação de Neymar. Torcemos para que venham novas partidas e muitas outras vitórias. Porque certamente Neymar voltará a campo, mas sem dúvida alguma, será um menino diferente depois de saber-se inteiro, mas colado. Depois de descobrir que somos vulneráveis, ainda que heróis.

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES


quarta-feira, 2 de julho de 2014

O que aprendemos com os pênaltis

 Sábado, jogo entre Brasil e Chile, churrasquinho na casa do meu irmão, família inteira reunida: Duas avós, quatro tios, cinco tias, quatro crianças e um bebê.
 Fim do segundo tempo: empate no um a um... ninguém ganhou no bolão... a tensão crescendo a cada segundo... todo mundo elevando a voz... no quarto as crianças se pegando... a prorrogação... o empate... OS PÊNALTIS.

 Depois do grito "VEEEM!!!", as crianças correram dos brinquedos pra frente da TV, cada um se ajeitou como podia no chão da sala e, no canto do sofá, encolhido e agarrado a uma almofada, meu menino chorava. Me agachei a seu lado, tentei segurar sua mão_ em vão, a almofada funcionava como uma espécie de escudo protetor. Tentei explicar: "É só um jogo... nada disso muda a nossa vida..." _ Chorava mais. Os tios vinham conversar: "Calma Bê... se perder, é assim mesmo... Também vimos o Brasil perder em 82, 86, 90..." _ Piorava.
 Com a mão apoiada no seu ombro, aguardei outros chutes e defesas.
 Então Júlio agarrou uma... Agarrou duas... Na última cobrança, o jogador chileno mandou na trave e selou a vitória brasileira.
 Meu menino chorava mais. Mas era de alegria. E agora os olhos e bochechas vermelhos denunciavam a comoção _ avassaladora para seus escassos oito anos.

 Voltando para casa, recompostos e felizes com o mais novo herói da seleção, sir Júlio César, percebi que a agitação ainda tomava conta do rapazinho no banco de trás. Cansado, emocionado, agitado e muito sensível, não queria sequer imaginar a possibilidade de uma derrota da seleção nos próximos embates.

 Sim, ele só tem oito anos. E por isso, tudo é muito novo, gigante, avassalador, desproporcional. Só que os meninos crescem, e quanto antes aprenderem o tal do saber perder, tanto antes descobrirão o peso e a medida de cada vitória ou derrota em suas vidas.

 Dessa vez nosso goleiro teve sorte, mas não foi nem será sempre assim. Em nossa vida, como na natureza, existe uma lei chamada aleatoriedade. Não costumamos dar muita atenção a ela, acostumados que estamos com causas definidas para cada resultado. Essa lei, ao contrário, está apoiada nas correntes da intuição, aquela luzinha que todos nós possuímos, mas pouco damos atenção. Assim, segundo a aleatoriedade, "o êxito ou fracasso podem não surgir de uma grande habilidade ou grande incompetência, e sim, de 'circunstâncias fortuitas'" (essa frase eu tirei de um livro muito bom que estou lendo, "O andar do bêbado _ Como o acaso determina nossas vidas", de Leonard Mlodinow).

 Então, meu rapazinho, não dê um valor desmedido às corridas, aos campeonatos, às competições em sua vida.
 Sabe aquela frase: "Tudo o que tiver que ser, será"?  É clichê, é bobo, mas é real. E não sou eu que digo isso, é a física, são os físicos, pessoas importantes como o autor que eu citei. Então acomode-se sem roer as unhas ou sofrer em demasia por um pênalti ou qualquer outro evento que não pode controlar. Circunstâncias fortuitas acontecem na vida de todos e de cada um, e temos que aprender a lidar com o imprevisível, sem tanto alarde, sem tanta ebulição.

 Júlio César foi homenageado como herói. Mas poderia não ter sido. Apesar de todo esforço, garra e competência, existem chances. Chances de dar certo e chances de dar errado. Num total de "x" tentativas, ele agarrou o suficiente para o Brasil sair campeão. Mas, e se houvessem mais lances? Nesse caso, existe um fenômeno chamado "regressão à média". Isso quer dizer que existe a probabilidade de um acontecimento extraordinário ser seguido, em virtude puramente do acaso, de um acontecimento menos "feliz". 

 A boa notícia é que os bons e maus eventos se intercalam, na natureza e em nossas vidas. Por isso, dar um valor exagerado a um ou a outro é desacomodar-se desnecessariamente, declarando heróis ou vilões antes do tempo.
 Desistir antes do tempo faz parte dessa ansiedade que desconhece o acaso e a aleatoriedade. Assim como Júlio César não pode crescer como um gigante só porque fez o Brasil vencer nos pênaltis, o mesmo Júlio não poderia se considerar um fracasso caso não o fizesse. Quantas outras histórias a gente não conhece de gente bonita que foi recusada por uma agência de modelos e mais tarde tornou-se um estrondo? Se não me engano, Gisele Bündchen foi considerada nariguda demais no começo de carreira. Agora já pensou se ela desiste de ser modelo e vai fazer pedagogia? E outros casos _ quem nunca ouviu contar da pessoa encalhada que não namorava ninguém, e no dia que arranjou um namorado apareceram mais três? Do filme que foi recusado por uma produtora e estourou em outra? Do livro considerado um fracasso em uma editora que virou sucesso de vendas na outra?

 Então, não leve tão a sério as críticas e valorize na medida os elogios. Prepare-se, estude, tenha foco naquilo que você deseja. O acaso pode lhe presentear na hora que menos imagina, e estar pronto para agarrá-lo com unhas e dentes na hora que ocorrer é a melhor maneira de não se desapontar. Mas se a sorte não lhe sorrir como gostaria, dê tempo para que a "regressão à média" atue em sua vida.

 Você encontrará recursos para tentar novamente, e se lembrará sempre de Júlio César, o herói que poderia não ter sido, mas que sempre teve a possibilidade de ser.

                                                                                                                              FABÍOLA SIMÕES

(P.S: No próximo post conto mais do livro que estou lendo. Sobre o impacto de eventos aleatórios em nossas vidas. Eventos aparentemente inconsequentes que levam a grandes mudanças...)





 








segunda-feira, 30 de junho de 2014

Alô Liberdade...

 Esse post foi inspirado no modelo do blog da Fernanda Gentil  (que é hilário e vale a pena conferir, link clicando aqui ) Imagens: Google


 Uma vez ouvi uma história que ficou comigo até uns dias atrás, quando revivi uma situação incômoda e relembrei o caso: havia uma senhorinha, avó de uma grande amiga, que sempre teve vontade de cortar o cabelo, mas não cortava de jeito nenhum porque o marido não deixava. Somente após ficar viúva, já bem idosa, pôde experimentar aquilo que desejava. Ainda durante o luto, cortou-os bem curtinhos e pôde usufruir de mais alguns anos do jeito que bem entendia.
 Porém, será que a figura do marido não representava uma censura que ela mesmo se impunha? Um álibi para as prisões que ela mesmo construía?
 E nós, será que precisamos esperar tanto para vivenciarmos aquilo que realmente nos define?
 Por que de vez em quando é tão difícil assumirmos quem realmente somos?


 Como a senhorinha, colocamos uma boa dose de imaginação na nossa história. E como colocamos...

 Quando eu era mais nova, meu pai criticava quem colocasse sal na comida. Por saber dos riscos (pressão alta, etc), ele não tolerava esse costume. Então, durante toda a minha vida, não coloquei sal (na salada, na pipoca, no ovo, no milho cozido...) na frente dele. Mas só na frente dele. Porque era só virar as costas... que o sal corria solto...

 Eu MORRIA de medo dele saber disso. Mas um dia pensei: "Quer saber? Cansei!" e então, cheia de coragem ( juro, foi preciso MUITA coragem!), confessei isso na maior cara de pau. Tcham, tcham, tcham, tcham!!!!!!


 Sabe o que ele disse? "Puxa, não sabia! Eu só estava preocupado com vocês". Quase desmaiei. Juro. Porque teria me poupado anos de apreensão, medo e tortura se soubesse, se simplesmente tentasse transgredir as regras. Na verdade, quem colocou o limite fui eu mesma. Eu e minha perfeição. Eu e minha obediência. Eu e minha des- liberdade (inventei essa palavra agora).

Outra história:
Quando eu era adolescente, beirando os quinze, lembro de minha mãe me acordando no meio da noite, assustada, para dizer que meus irmãos tinham saído e ainda não haviam voltado para casa.

                                                         Eu acordava mais ou menos assim:
 Então ela sentava na minha cama, falava de seus medos, rezava junto comigo e aparentava estar muito, muito brava com os meninos. Eu tinha poucos recursos para acalmá-la nessa época, mas lembro de participar, solidária, de sua ansiedade e ficar muito, muito brava com meus irmãos também.


 Não lembro se corriam horas ou minutos, mas o fato é que eu ficava com bastante raiva dos meninos por desaparecerem na noite (sem saber que anos mais tarde eu adoraria fazer o mesmo), e assim atrapalharem meu sono, interrompido pela angústia de mamãe.


 Porém, para minha surpresa, quando eles finalmente voltavam para casa _ despreocupados, são e salvos_ ela corria para abraça-los como se tivessem acabado de retornar da guerra do Golfo; enquanto eu, muito brava, me punha a ralhar como uma velha ranzinza.
                                                                                     ELA:  
                                                             
                                                                              EU:

 Só pra finalizar, minha mãe me olhava com aquela expressão: "Chega", e eu ainda era capaz de me sentir culpada por tentar 'defendê-la...
                                                                 Olhar dela para mim:

 No fundo me sentia o próprio filho certinho da "parábola do filho pródigo"que se indigna com o pai que faz festa para o irmão desencanado e esperto. (Alguém me explica a virtude desse cara além da capacidade de se dar bem?)

 Bom, o fato é que a gente cresce e aprende. E eu me arrependo de não ter sido mais sabida naquela época...

                     MANEIRAS DE TER SIDO MAIS SABIDA NAQUELA ÉPOCA:

                                                1)- Fingir que dormia profundamente...



                                                         2)- Estar na balada também...



         3)- Pedir delicadamente para mamãe acordar o papai _ e não eu _ e com ele decidir essa questão.


                                                       4) Fazer como a Mafalda:


 O que eu quero dizer é que ás vezes a gente não vive direito porque tem medo de decepcionar algumas pessoas. Porém, mais tarde, percebemos que quem deu a medida para esse medo fomos nós mesmos. E percebemos que nos exigimos demais só para agradar.

 Agradar quem não pediu tanto agrado.
 Agradar quem nem está percebendo tanta bajulação ( e nem vai ser proporcionalmente grato por isso _ com toda razão)
 Agradar quem nem vai morrer de desgosto se a gente deixar de agradar...


 Porém, mesmo entendendo tudo isso, velhos padrões são difíceis de serem abandonados. E é sempre um esforço manter a autenticidade quando nos acostumamos com os papéis que desempenhamos.
 Papéis que não nos representam plenamente, mas que são uma projeção daquilo que achamos que esperam de nós. 
 Porém, não há bode expiatório que justifique as prisões que nós mesmos criamos. Por isso é importante DAR LIMITES.


 E mostrar quem somos realmente. Porque sem autenticidade, confundimos muita gente por aí... 
 Ao agirmos como craques, somos cobrados como craques também...

                                                   ESPERAMOS MUITO MAIS DELE:                   


                                                                        DO QUE DELE:


 Mas antes de nos refugiarmos no papel de vítima, volto a esclarecer:
 Tudo são ESCOLHAS, ok?
 E ser o craque tem suas vantagens também, senão o Neymar não gostaria de fazer tanto sucesso, não é?

 Mas o fato é que todo craque se aposenta também. Pendura as chuteiras. Sai de cena. Cansa.

 Porém, existe uma linha muito tênue entre o egoísta e aquele que deseja ser mais amoroso consigo, mais ciente de seus limites e capaz de suportar suas imperfeições e principalmente capaz de dizer "não" para aquilo que não está ao seu alcance.

                                                   QUEM NUNCA PASSOU POR ISSO?

                                                  
 Mas a gente não precisa continuar fingindo que está tudo bem, não é? Nem esperar tanto quanto a senhorinha do começo desse post para assumir quem somos realmente.
 Então vem cá que vou lhe confessar alguns segredos:



 Não gosto que pisem de sapato no meu sofá ("isso é fácil", você dirá, "ninguém gosta e além do mais é falta de educação"...)
 Sim, mas tem muitas outras coisas que são falta de educação e a gente vai permitindo só porque é incapaz de colocar limites, sabe?
 Das coisas que gosto: Gosto de cores intensas, mas também adoro um pretinho básico, um bege, um nude ou cru; também gosto de colocar sal no ovo, na pipoca e na salada; gosto do meu cabelo do jeito que é, cheio de fases; de ter tempo de pensar e não ter que responder as questões no ato, na impulsividade, revelando mais espinhos do que eu gostaria (acho que isso significa gostar de respeito, privacidade, não ser atropelada, esse tipo de coisa, não é?)
 Gosto de fazer as coisas por amor, e não por imposição (e posso transbordar amor se não for cobrada...)
 Também gosto de ficar sozinha de vez em quando e de não atender o telefone quando não estou a fim.

 Mais uma coisa: Sei que passei a impressão errada, mas queria desfazer o mal entendido.

                                                                       SOU MENOS ASSIM:



DO QUE ASSIM:


 Então finaliza aí:
 Desejando me libertar de certas projeções que acatei durante a vida, hoje publico esse post. Como um ato de rebeldia, ou talvez liberdade.


 Querendo ou não, essa é a que sou. E tenho que aprender a me aceitar também, a me aceitar com todos meus defeitos e limites.

                                                          HOJE FIZ COMO ELA:



  Ao clicar em 'publicar', sei que não haverá volta. E agora assino meu nome embaixo...
                                                                                                                               FABÍOLA SIMÕES




                                                   

                                                      

                                                             















                                                                 








                                       



                                                                          
                                                                       






  

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Diamantes de pedaços de vidro

 Segunda feira, próximo jogo do Brasil, é seu aniversário. Me alcançou nos quarenta, mesmo sendo ainda recente a lembrança da Copa de 94, há tanto e tão pouco tempo, em que comemoramos juntos o tetra e nossos 20 anos, em Alfenas, ao lado da turma que naquela época formava uma grande família.
 Vinte anos se passaram e hoje, conversando pelo Whatsapp, lembrei da gente sentado no fundão, escrevendo letras da Legião nas abas dos cadernos, trocando mensagens em papeizinhos rasgados, barganhando confidências em baixo tom. Os recursos mudaram, não tem como negar que facilitaram muito a rotina, mas naquele tempo a proximidade levava vantagem, e a gente conhecia o outro só de olhar.

 Assim aprendi a conhecer você. E muito mais que me apresentar à "menina com uma flor" de Vinícius, ou escrever paródias a partir dos textos de Drummond, nos identificamos no olhar perante a vida. Um olhar carregado de significado para as coisas simples; mas no nosso entendimento, muito valiosas.
 Nossa amizade por exemplo. Um dia, sentados embaixo de uma árvore, você, Déia e eu confabulamos um daqueles pactos que só os muito jovens têm a capacidade de conceber.
 Anos depois, numa estrada rumo a Minas, você lembrou. A situação era oposta_ o que nos unia era uma dor sem nome_ mas éramos novamente os três, amadurecendo e tentando aprender a viver aos quase quarenta.

 É isso que eu sei que importa pra você. E é isso o que importa para mim também. Por isso hoje, enquanto nos falávamos por msgs, recordei os bilhetes durante as aulas de somatologia ou materiais dentários. Lembrei que as letras de Renato Russo tinham o poder de nos curar e a trilha de Andréia Dória traduzia muito mais daquilo que vivíamos do que éramos capazes de verbalizar. E embora hoje você tenha crescido, aquela letra ainda diz algo sobre você, sobre nós e sobre os caminhos que trilhamos para chegar até aqui.

 De vez em quando parece que escolhemos a estrada errada, apesar de todos os avisos _ placas, como você preferir_ bem à nossa frente; mas você sabe, e eu sei que você compreende, que não vai ser sempre assim. Já vivemos o suficiente pra cair, levantar, cair novamente e saber que nada é definitivo, feliz ou infelizmente.
 Como naquela tarde, em que voltávamos da fazenda da Déia, cada um lidando com a tristeza do jeito que podia, sem imaginar que no ano seguinte _ esse ano _ brotariam frutos para selar os fragmentos da árvore partida... Da maneira mais linda e surpreendente, aprendemos que tudo pode terminar e começar num piscar de olhos. Que a gente pode sim se rearranjar novamente, mas é sempre do jeito que dá _ costurando, arrematando, remendando, apertando e afrouxando.

 Então o que eu queria lhe desejar é esperança. Se não a mesma esperança que tínhamos lá atrás, quando algo não saía conforme o combinado e a gente acreditava que 'pra tudo dá-se um jeito' ou que faríamos 'diamantes de pedaços de vidro'; pelo menos o desejo de que saia ileso da descrença, da desilusão. Que não amargue suas convicções nem subtraia a delicadeza do olhar. Nem tudo caminha conforme o combinado, algumas tristezas e perdas são irremediáveis, mas o saldo é descobrirmos que a existência é cheia de ciclos e recomeços.

 O que posso afirmar é que estamos juntos, como sempre estivemos. E que lembro também. Lembro da Copa de 94, do trio elétrico nas ruas de Alfenas, dos conselhos que me oferecia de graça, do tempo em que me fazia de cupido pra fingir que te ajudava também.
 Hoje lhe dou essas lembranças de presente. E aí quem sabe, perdido nessas divagações, talvez se recorde do olhar que tínhamos sobre você. O olhar que lhe fazia enxergar-se de uma forma mais generosa também, pois refletia algo além das imperfeições cotidianas.
 Então pode ser que assim resgate um pouco da leveza do menino que foi; o menino que imitava o Bono Vox tendo como microfone uma fôrma de misto quente e escrevia nas últimas folhas do meu caderno "quem inventou o amor, me explica por favor?"...

 Feliz Aniversário!!!

                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES  

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Abrigos

 Há duas semanas, no estacionamento de um supermercado, minha mãe foi vítima de um sequestro relâmpago. Foram horas de muito medo e apreensão, durante os quais ela somente orou e obedeceu. Passado o susto, já em segurança, por proteção ou choque, contou-nos a história por partes, ocultando os temores e aguçando o bem estar, disfarçando o medo e assegurando a paz.

 Por alguns momentos, meu irmão e eu chegamos a estranhar o veredicto, a duvidar de sua calmaria, a temer sua sensatez. Esperávamos mais que o choque estático ou a conformidade virtuosa.

 Então lembramos.
 Algumas pessoas são como abrigos. Resguardam suas fragilidades para nos abraçar com sua _ aparente _ calmaria. Transbordam ânimo, otimismo e proteção, quando elas mesmas encontram-se fragilizadas. Ocultam seus medos para nos poupar dos nossos, valorizam seu ânimo para nos resgatar da insignificância das horas, do inaceitável dos dias.

 Citando novamente "Patrimônio", de Philip Roth, num dado momento o pai, à beira da morte, indignado diz ao filho (que lhe ocultou uma séria dificuldade): "Somos uma família ou não? Nunca mais tente me poupar..." e continua: "eu tinha que ter estado lá, eu tinha que ter estado lá..."

 Por amor ou coisa parecida, fui poupada algumas vezes. Poupada de acertos familiares, dificuldades emocionais, fatos importantes. Em todas as situações, um "carinho" que me isolou num refúgio de tranquilidade enquanto do lado de fora, a tempestade fazia tremer as vidraças. Porém, a verdade tem força para romper os muros que criamos _ ou que criam por nós. E ela me alcançou de qualquer maneira, alheia aos esforços de segurá-la além mar. Porém, a sensação que ocorre depois disso tudo, não é a de que fomos protegidos, mas sim isolados.

 Peço àqueles que amo que não me poupem da verdade. Que não construam abrigos onde eu possa ser protegida dos conflitos enquanto a vida se desenrola além dos sorrisos apaziguadores e semblantes de resignação. Que a dificuldade seja o elo que nos aproxima também, talvez até mais que os momentos de bonança e calmaria. Que as vitórias sejam festejadas na sua medida, mas que meus braços possam acolher seus medos, cicatrizes e tristezas na mesma intensidade com que partilham a alegria. Que eu possa ser forte quando você se fragiliza, e nem por isso maior que você. Que possamos dividir dúvidas, anseios, decepções... amparados numa vida de coerência e transparência. Peço que não me resguarde de sua vida, com tudo de bom e ruim que nela cabe. Que não me oculte suas máculas, pois assim não saberei lidar com minhas próprias nódoas. Que sejamos claros, verdadeiros, justos_ nos bons e maus momentos. Acima de tudo, não me poupe de nada.

 De qualquer forma, pelo menos na fantasia de nossos pais, seremos sempre seus filhos pequenos, aqueles a quem devem proteger.
 Como pais, percebemos o quão difícil pode ser construir ninhos. É tentador arquitetar um lugar de comodidade e aconchego, onde os galhos mais pontiagudos ficam escondidos sob nossas asas tão redentoras. Porém, desejando poupar nossos filhos daquilo que é tão penoso para nós mesmos _ sentimentos como a tristeza, a raiva e o medo_  não os ensinamos a lidar com a aridez que há na vida (pois a vida não é só boa), justamente por não validar aquilo que sentimos ( e eles sentem também), ao camuflar dificuldades e ocultar a dor.

 Uma criança precisa entender que sentimentos como a aflição, o desamparo, a raiva e o temor pertencem ao currículo de sensações normais, e fazem parte dessa coreografia tanto quanto a alegria, o prazer e a tranquilidade. Porque se não compreender isso, como irá, ela mesma, adequar-se no dia que experimentar tais impressões?

 Sem a verdade, e portanto, sem conhecer realmente aqueles que ama e convive, em que ninho nossos filhos se sentirão realmente protegidos? Que dúvidas ocorrerão quando enfim crescerem e perceberem que haviam sim pontas e espinhos, mas tão camuflados que não perceberam as asas dos pais mutiladas enquanto acobertavam os nós? Que tipo de ligação se estabelece sem o vínculo da confiança?

 Minha mãe saiu bem do sequestro relâmpago e, paradoxalmente, meus irmãos e eu só relaxamos quando ela enfim chorou. Quando derrubou seus muros e nos permitiu entrar, partilhando seu medo e vulnerabilidade. Foi quando pudemos abraçá-la e confortá-la na dor.

 Finalmente nosso ninho foi bagunçado...
 Com as pontas expostas, sentimos nossas asas doendo tanto quanto as dela. Sem as proteções costumeiras, finalmente sentimos que "estávamos lá"...
                                         
                                                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES